Joaquín tinha saído para o treino fazia uns vinte minutos.
Eu ainda estava na cozinha, sozinha com o barulho suave da torneira pingando e o cheiro residual do café que tínhamos tomado juntos antes dele ir. A louça do café da manhã estava quase toda guardada, só faltavam alguns copos e os pratos menores que ainda descansavam no escorredor, úmidos e brilhantes sob a luz da manhã que entrava pela janela.
Peguei a toalha de pano, uma azul meio desbotada que já tinha visto dias melhores e comecei a secar o primeiro copo, girando-o devagar entre os dedos. Tinha algo quase terapêutico nesse ritual. O toque do algodão contra o vidro. O movimento circular, repetitivo, previsível. Secar, empilhar, repetir. Secar, empilhar, repetir. O tipo de tarefa que não exigia nada do cérebro, que liberava a mente para vagar por aí sem coleira, sem direção, sem pressa.
E foi exatamente o que minha mente fez.
Vagou.
Fui parar na semana que vinha. Terça tinha consulta com a Dra. Helena, a ultrassom do segundo trimestre, aquela que todo mundo diz que é a mais bonita, a que mostra o rosto, os dedinhos, o sexo se a gente quiser saber. Precisava lembrar de levar a carteirinha atualizada. E aquele exame de sangue que ela pediu na última vez, fiz ou não fiz? Fiz. Acho que fiz. Os resultados estavam no e-mail, precisava baixar e levar impresso porque a clínica dela ainda funcionava com papel, coisa de médica da velha guarda.
Quarta eu tinha que passar no mercado. A geladeira estava naquele estado intermediário, não vazia o suficiente para ser emergência, mas vazia o bastante para que as refeições se tornassem criativas demais. Joaquín tinha comido a última banana no café da manhã e olhado para mim com aquela cara de "desculpa, era a última" que eu já conhecia tão bem. Precisava comprar frutas. Leite. Aquele iogurte natural que ele gostava de misturar com granola. Coisas básicas. Coisas de gente adulta que mantém uma casa funcionando.
E ligar para a minha mãe. Isso estava pendente há dias. Tínhamos trocado mensagens curtas depois, do tipo "tô bem" e "me avisa qualquer coisa", mas nenhuma conversa real. Nenhuma ligação onde ela pudesse ouvir minha voz e se convencer de que eu não estava morrendo.
Eu sabia que ela estava se segurando. Sabia que cada dia que passava sem eu ligar era um dia a mais de preocupação acumulada no peito dela, silenciosa e pesada como chumbo.
Precisava ligar.
Tantas coisas pequenas se acumulando. Tantas tarefas miúdas que, separadas, não pesavam nada, mas juntas formavam uma montanha silenciosa que ia crescendo nos cantos da minha consciência, esperando o momento certo para desabar.
Eu estava tão mergulhada nesses pensamentos, mão no automático, girando o pano dentro de um copo que já estava seco há pelo menos trinta segundos que não ouvi nada.
Não ouvi a porta se abrir.
Não ouvi passos.
Não ouvi absolutamente nada.
Até que:
— Bom dia, filha.
Gritei.
Não foi um grito tranquilo. Não foi um grito de filme, daqueles elegantes e comedidos que as atrizes dão antes de levar a mão ao peito com graça. Foi um grito feio, o tipo de som que sai de uma pessoa que genuinamente acredita, por uma fração de segundo, que vai morrer ali na própria cozinha.
Meu corpo inteiro se contraiu. Os ombros subiram até as orelhas. Os dedos se abriram num espasmo involuntário.
E o copo escapou.
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Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
