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Acordei por volta das oito da manhã com o corpo pesado daquele jeito que vinha de ter dormido pouco mas o suficiente para funcionar, aquele estado intermediário onde o cérebro já estava operando mas os músculos ainda precisavam de um longo discurso motivacional para cooperar.

A primeira coisa que fiz foi virar a cabeça para o lado esquerdo da cama.

Vazio.

Obviamente.

O travesseiro dele estava amassado no centro, com aquela pressão específica que a cabeça de Joaquín deixava, eu conhecia o formato de cor, podia praticamente reconstruir o rosto dele a partir daquela marca no travesseiro. O lençol estava jogado para o lado de um jeito caótico que indicava que ele tinha saído da cama.

O cheiro de tinta confirmou minhas suspeitas antes mesmo de eu me levantar.

Ele estava no quarto do Theo.

Ainda.

Ou de novo, eu pensei, porque honestamente não sabia se ele tinha voltado para a cama em algum momento ou se simplesmente nunca tinha parado.

Me levantei, um processo que aos quase oito meses de gravidez envolvia pelo menos três ajustes de posição, dois impulsos abdominais e um som involuntário que ficava entre um grunhido e um suspiro e caminhei pelo corredor em direção à porta entreaberta do quarto do bebê.

Empurrei a porta devagar.

E lá estava ele.

Joaquín estava de pé sobre um banquinho baixo, o rolo de tinta na mão direita, trabalhando no canto superior da terceira parede com uma concentração que parecia desproporcional para alguém que tecnicamente deveria estar dormindo. Os fones de ouvido estavam nos ouvidos, provavelmente ouvindo algo que eu não conseguia identificar dali, o que explicava por que ele não tinha notado minha presença.

Ele ainda estava sem camisa.

A pele das costas brilhava levemente sob a luz da manhã que entrava pela janela, suor seco ou suor fresco, eu não sabia, mas o efeito era o mesmo. Os músculos se moviam em ondulações sutis a cada passada do rolo, os ombros subindo e descendo, a coluna se curvando levemente quando ele se esticava para alcançar os pontos mais altos.

Encostei no batente da porta e cruzei os braços sobre a barriga, observando.

Havia algo quase hipnótico em assistir ele trabalhar assim. A precisão dos movimentos. A paciência com que ele cobria cada centímetro. A forma como ele parava ocasionalmente, recuava um passo, e avaliava o resultado com olhos críticos antes de voltar a pintar.

Esse era o mesmo homem que não conseguia montar uma prateleira sem sobrar parafusos.

Mas quando o assunto era o Theo...

Ele se transformava em outra pessoa.

Alguém meticuloso. Detalhista. Quase obsessivo na determinação de fazer tudo perfeito.

Eu me perguntei se ele tinha ideia do efeito que isso causava em mim. Se ele sabia que cada vez que fazia algo assim algo silencioso, não anunciado, feito simplesmente porque precisava ser feito, eu me apaixonava um pouco mais. O que era irritante, porque eu já estava apaixonada a ponto de não caber mais nenhuma paixão, e mesmo assim ele sempre encontrava um jeito de espremer mais um pouquinho.

— Você tomou café? — perguntei alto o suficiente para atravessar os fones.

Joaquín se virou tão rápido que quase caiu do banquinho. A mão livre agarrou a parede por instinto, deixando uma marca de dedos que ele provavelmente teria que retocar depois e os olhos arregalados encontraram os meus.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora