Eu estava suando frio. Sentia um tremor leve, porém incessante, percorrer meus braços, enquanto a boca e a garganta secavam de um jeito súbito, como se o próprio corpo tivesse decidido me abandonar naquele instante. Então o medo veio, ocupando cada espaço dentro de mim.
Eu estava com medo.
Medo de deixá-lo cair.
Medo de segurá-lo errado.
Medo, até, de que ele não gostasse do meu colo.
Desde que Theo recebera alta e, finalmente, o trouxemos para casa, Clara era a única que o pegava no colo. Eu não conseguia. Havia em mim um pavor silencioso, quase vergonhoso, de fazer qualquer coisa errada com aquele serzinho tão pequeno, tão precioso, que às vezes me parecia frágil demais para o mundo e, principalmente, para mim.
— Você consegue, amor. Eu também tive medo, tá bem? Mas você consegue.
A voz de Clara saiu baixa, doce, paciente. Levantei os olhos para ela, mas foi em Theo que fiquei preso. Ele dormia em seus braços com uma profundidade quase sagrada, alheio a tudo, como se nada no mundo pudesse alcançá-lo ali. Era tão sereno que eu mal ousava respirar, quanto mais interromper aquele descanso.
— Ele vai odiar se acabar sendo acordado.
Usei a primeira desculpa que me ocorreu, e Clara percebeu no mesmo instante.
Theo ainda era pequeno. Não tão pequeno quanto o bebê que eu vi no hospital naquela noite que, por muito pouco, não se transformou na pior da minha vida, mas pequeno o bastante para ainda despertar em mim um cuidado atravessado de temor. Agora, porém, já havia mais vida em seu rostinho. Ele ganhara peso, as feições começavam a se arredondar, e sua pele já não carregava a mesma fragilidade que me assombrou nos primeiros dias. Estava se desenvolvendo bem. Foi isso que tornou possível sua saída do hospital, depois de quase dois meses internado na UTI.
Ainda assim, a alta não significava o fim do medo, apenas uma nova forma de carregá-lo. Mesmo em casa, Theo seguia com fisioterapia todos os dias, além das consultas frequentes com o pediatra, numa rotina cuidadosamente montada para garantir que, no futuro, ele não trouxesse consigo as marcas daquela chegada tão difícil ao mundo.
— Papai medroso. — Clara murmurou, inclinando-se um pouco para ele, com um sorriso que misturava ternura e provocação.
Como se tivesse entendido, mesmo dormindo, Theo esboçou um sorriso miúdo, desdentado, breve como um sopro. E foi o bastante.
Alguma coisa em mim cedeu.
Não foi coragem, exatamente. Coragem parecia uma palavra grande demais para o que aconteceu ali. Foi mais como se aquele sorriso mínimo, quase involuntário, tivesse alcançado um lugar em mim que o medo ainda não tinha conseguido endurecer. Como se Theo, mesmo dormindo, tivesse me dito sem palavras que eu podia tentar.
Clara percebeu antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.
Com a paciência de quem já me conhecia por dentro, ela deu um passo na minha direção, sem pressa, embalando Theo com movimentos pequenos e ritmados. O quarto estava mergulhado naquela quietude rara dos fins de tarde em casa, a luz entrando suave pela janela, o som distante da rua amortecido pelas cortinas, o ar cheirando a sabonete de bebê e ao café que havíamos esquecido de terminar na cozinha.
— Vem. — ela murmurou, com a voz baixa o suficiente para não ferir o descanso dele. — Senta aqui.
Obedeci quase sem perceber. Sentei na beirada da poltrona ao lado do berço, ainda com a sensação estranha de estar me aproximando de alguma coisa sagrada demais para minhas mãos. Clara ficou diante de mim e inclinou o corpo só um pouco, cuidadosa como sempre.
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Amor em Jogo - Piquerez
أدب الهواةO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
