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Eu liguei para a minha mãe antes das nove.

Theo tinha acabado de cochilar no meu colo depois de uma manhã em que eu mal consegui terminar um café sem que o celular vibrasse de novo.

Segurei Theo melhor no braço, ajeitei a manta cobrindo as perninhas dele e liguei para a minha mãe.

Ela atendeu no segundo toque.

— Oi, meu amor.

Só de ouvir a voz dela, alguma coisa em mim já afrouxou. Era irritante como, mesmo depois de adulta, depois de tanta coisa, eu ainda me sentia um pouco menos sozinha quando minha mãe falava desse jeito.

— Mãe, você está ocupada?

Teve um pequeno barulho do outro lado, como se ela estivesse fechando uma pasta ou afastando algum papel.

— Para você, nunca. O que aconteceu?

Olhei para Theo. Ele dormia com a boca meio aberta, alheio a tudo, respirando naquele ritmo miúdo que sempre me obrigava a prestar atenção demais.

— Ainda estão mandando coisas e eu não sei o que fazer. — eu disse.

— Coisas? Do que?

Soltei o ar devagar.

— Proposta. Revista. Site. Gente querendo entrevista. Capa. Publicidade. "Apresentação do bebê". Ensaio. Matéria exclusiva. Tem até gente perguntando se eu toparia fazer uma revelação gradual do rosto dele. Eu recusei tudo isso publicamente mas acredito que não quiseram entender.

Do outro lado da linha, houve um silêncio curto.

Quando ela falou de novo, a voz saiu muito calma.

— Perdão. Repete essa parte da revelação gradual.

Eu quase ri, mas não tinha humor de verdade ali.

— Mãe...

— Não, repete. Eu quero ter certeza de que entendi corretamente o nível da falta de noção alheia antes de me manifestar.

Passei a mão no pezinho de Theo por cima da manta.

— Teve uma revista oferecendo matéria exclusiva se eu quisesse mostrar o Theo pela primeira vez. Outra coisa foi uma campanha com marca infantil. Uma produtora querendo saber se a gente toparia contar "a história por trás da chegada dele" com fotos e tudo, depois do que aconteceu pouco antes dele nascer. E um site insinuou que seria bonito "dar esse presente ao público" porque as pessoas estão curiosas.

A resposta da minha mãe veio seca:

— Que presente?

Eu fechei os olhos por um segundo.

— Exatamente.

— Seu filho não é presente para público nenhum, Clara.

A firmeza dela me atravessou direto. Eu nem sabia o quanto precisava ouvir aquilo dito em voz alta até ouvir. Mesmo já sabendo.

— Eu sei — murmurei. — Mas eles falam como se estivessem oferecendo uma oportunidade. Como se fosse uma troca vantajosa.

Minha mãe soltou um som curto, indignado.

— Oportunidade para quem?

Fiquei em silêncio.

Não porque eu não soubesse a resposta, mas porque ela já estava inteira dentro da pergunta.

Ouvi o barulho de cadeira do outro lado da linha. Imaginei a minha mãe tirando os óculos, se recostando um pouco, ficando exatamente daquele jeito que ela fica quando uma coisa ultrapassa o limite do absurdo e passa a exigir que ela nomeie com precisão o que está vendo.

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⏰ Última atualização: Jun 14 ⏰

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