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Quando sua mão se aproximou da gaveta, meu corpo reagiu antes mesmo que meu cérebro processasse o movimento. Em um impulso quase desesperado, me coloquei em sua frente, bloqueando o caminho com meu corpo. Meu coração batia tão forte que eu podia senti-lo pulsando no pescoço, nas têmporas, até nas pontas dos dedos, que formigavam.

— Fica naquela outra gaveta. — disse, apontando para o lado oposto da cozinha.

Minha voz soou estranhamente aguda, como se alguém tivesse apertado meu pescoço por dentro.

Ele congelou no lugar, os dedos ainda suspensos no ar, a poucos centímetros do puxador da gaveta errada. Seus olhos castanhos, normalmente tão serenos, estreitaram enquanto me estudava com uma expressão que eu não conseguia decifrar. Havia algo ali. Uma dúvida. Uma suspeita. E isso me deu um soco no estômago.

Por um momento que pareceu uma eternidade, temi que ele insistisse. Que puxasse a gaveta mesmo assim. Mas, com um leve aceno de cabeça que não chegava a ser uma concordância plena, ele se virou e seguiu na direção que indiquei.

O som metálico do abridor sendo encontrado me permitiu, enfim, respirar. Um suspiro profundo e trêmulo escapou do meu peito, alto o suficiente para que ele ouvisse.

— Tem alguma coisa nessa gaveta aí que eu não deva ver?

A pergunta veio casual, quase despretensiosa, enquanto ele abria a garrafa com as costas voltadas para mim. Mas eu conhecia aquele tom. Conhecia a tensão sutil dos ombros. O silêncio que vinha antes das verdades.

Meu corpo inteiro ficou rígido.

— Não, nada. — respondi rápido demais.

Minha voz saiu como um sussurro rouco. Me traiu completamente. Odiei como as palavras queimaram minha garganta. Mais ainda, a fraqueza que me fez mentir.

Ele somente assentiu. Mas quando nossos olhos se encontraram por um breve instante, eu soube: ele não acreditou. Aquela conversa estava longe de terminar. Com passos lentos, ele saiu da cozinha em direção à sala. Mas eu sabia, com uma certeza doente, que ele voltaria para aquela gaveta assim que eu virasse as costas.

Precisei contar até dez em silêncio antes de me mover.

Minhas mãos tremiam visivelmente. Verificando se ele estava mesmo distraído na sala, me aproximei da gaveta amaldiçoada. Cada movimento era calculado. Cada som, amplificado.

Quando meus dedos tocaram os testes, um choque percorreu meu braço. Tão pequenos para algo que carregava tanto peso. Com a precisão de quem pratica um crime, enfiei-os no bolso de trás do short, puxando a camiseta para baixo para esconder o volume. 

Ao entrar no quarto, fiquei pensando em como seria em alguns meses? Fraldas e choro? A ideia me fez parar no meio do quarto.

O som da TV me trouxe de volta. Meus olhos correram pelo guarda-roupa. Eu precisava esconder aquilo. Jogar fora estava fora de cogitação e se ele encontrasse? Além disso, por mais absurdo que fosse, eu me sentia apegada àqueles pedaços de plástico. Eles eram reais. A prova física de algo que ainda me parecia surreal.

Foi quando vi a pequena caixa, uma onde eu guardava o meu relógio. Com movimentos cautelosos, abri a tampa e depositei os testes ali dentro, como se fosse um tesouro ou uma arma do crime. Fechei com um clique suave. A madeira sepultou o segredo com minhas dúvidas e medos.

Mas quando me virei e encarei o quarto... tudo desmoronou de novo. As fotos na parede. As roupas misturadas no cesto. A cama. Tudo gritava a vida que construímos juntos.

E eu soube, com uma clareza que me assustou: nenhuma caixa no mundo seria grande o suficiente para esconder essa verdade por muito tempo. Não de alguém que me conhecia tão bem quanto ele.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora