A noite tinha caído sobre São Paulo com aquela suavidade característica do final do dia, o céu ainda guardando resquícios de um laranja suave no horizonte, as luzes da cidade começando a piscar uma a uma como vagalumes urbanos. O apartamento estava silencioso exceto pelo som distante do trânsito lá embaixo e pelo clique ocasional do teclado do notebook.
Eu estava na cozinha, envolvida numa missão de extrema importância: encontrar o sorvete de chocolate que eu sabia que estava escondido em algum lugar do congelador, atrás das coisas saudáveis que Joaquín insistia em comprar e que eu insistia em ignorar.
— Achei você. — murmurei triunfante quando meus dedos encontraram o pote gelado, escondido atrás de um saco de ervilhas congeladas que claramente estava ali só para me confundir.
Peguei uma colher, a maior que encontrei, porque moderação era um conceito que eu tinha abandonado em algum lugar e comecei a escavar o sorvete diretamente do pote. Não era elegante, não era sofisticado, mas era necessário.
Foi então que a voz de Joaquín veio da sala.
— Eu tava pensando aqui em comprar um apartamento.
Pausei com a colher a meio caminho da boca.
— Estava vendo uns imóveis aqui. — ele continuou, e eu podia ouvir o som dele rolando a página no notebook. — Dois quartos, que são grandes. Bem grandes, na verdade. Vaga na garagem, condomínio é bonito... parece ser uma região bem boa.
Coloquei a colher na boca, deixando o chocolate derreter na língua enquanto processava as palavras.
Comprar um apartamento.
Dois quartos grandes.
Outra região.
Fiquei em silêncio, mastigando devagar, mesmo que sorvete não precisasse ser mastigado, era um reflexo nervoso, minha mente trabalhando em velocidade máxima por trás da aparente calma.
Eu sabia que esse assunto viria em algum momento.
Sabia desde a conversa com meu pai, desde o dia em que ele ofereceu me passar o apartamento. Eu via nos olhos dele.
Ele não se sentia em casa.
— O que acha?
A pergunta dele cortou meus pensamentos. Levantei os olhos e encontrei ele me observando por cima do encosto do sofá, o notebook esquecido no colo, uma expressão de expectativa cautelosa no rosto.
E então ele viu.
A colher na minha boca. O pote de sorvete abraçado contra o peito. Provavelmente um pouco de chocolate no canto dos lábios.
O sorriso que se formou no rosto dele foi automático.
— Você está comendo sorvete direto do pote? — ele observou.
— Mmhmm. — confirmei, ainda de boca cheia.
— Às nove da noite.
— Mmhmm.
— Depois do jantar.
Engoli a massa gelada, sentindo-a descer devagar pela garganta.
— É minha sobremesa e estou pensando. — eu disse finalmente, deixando a colher descansar no pote. — que você não quer viver aqui.
Ele não respondeu imediatamente.
— E está completamente sem jeito de me dizer isso. — completei.
O silêncio que se seguiu foi a resposta.
Joaquín desviou o olhar, os dedos tamborilando levemente na borda do notebook, aquele gesto nervoso que ele fazia quando estava desconfortável, quando tinha algo para dizer mas não sabia como, quando estava se preparando para uma discussão que esperava ser difícil.
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Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
