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Eu dormi por algumas horas depois do café da manhã. A família dele ainda estava lá, todos reunidos na sala, conversando e rindo animadamente, mas eu me retirei com muita educação. Disse que estava cansada e precisava de um tempo para descansar. Eles compreenderam completamente, enquanto ficaram com Joaquín, que tinha energia para duas de mim naquele momento. Mesmo assim, uma pontada de culpa me acompanhou até o quarto. Não queria que pensassem que eu estava evitando a convivência ou que não gostava da presença deles. A verdade era que o peso da semana, somado ao sono daquela manhã, havia me deixado exausta, quase como se uma névoa pesada me envolvesse. Joaquín explicou isso a eles, como sempre, com aquele jeito cuidadoso que tinha.

Quando acordei, o ambiente estava diferente. A casa, que antes transbordava de vozes falando espanhol rápidas, carregadas de um sotaque que eu mal tentava decifrar e risadas calorosas, agora estava completamente silenciosa. Era quase como se eu tivesse despertado em outro lugar. O contraste me deixou ligeiramente inquieta.

Percebi que Joaquín não estava no quarto comigo. Olhei para o relógio no movél ao lado da cama: pouco mais de meio-dia. A luz do sol invadia o ambiente pelas frestas da cortina, criando um jogo de sombras que parecia me chamar para levantar. Fui até o banheiro, onde escovei os dentes e lavei o rosto, tentando afastar os resquícios de sonolência que ainda insistiam em me segurar.

Enquanto enxugava o rosto, uma ideia surgiu na minha mente, rápida e fria como um raio: e se Joaquín tivesse burlado as restrições médicas? Aquele pensamento me atingiu como um balde de água gelada. Meu coração disparou. 

— Amor, você tá aí? — perguntei do banheiro, minha voz ecoando no silêncio. Nenhuma resposta.

Saí apressada, indo diretamente para a sala e a cozinha. Nada. O espaço estava vazio, impecavelmente arrumado, como se ninguém tivesse passado por ali. A energia vibrante que a casa tinha mais cedo agora parecia um eco distante. Procurei também no quarto do meu pai, mas o encontrei vazio. O vazio começou a me preencher.

Eu estava sozinha.

O vazio, porém, logo deu lugar ao desespero. Se eu estava sozinha, isso só podia significar que ele havia saído. Joaquín havia saído. A simples ideia fez meu peito apertar. Caminhei rapidamente de volta ao quarto, peguei meu celular no móvel ao lado da cama e mandei uma mensagem para ele. Nada. Tentei ligar, e enquanto o som do toque ecoava no meu ouvido, escutei algo na sala. 

O celular dele. O som vinha de lá.

Segui o barulho, encontrando o aparelho largado no sofá, a tela iluminada piscando com as chamadas perdidas. Segurei o celular, um misto de surpresa e preocupação invadindo minha mente. Ele tinha saído sem o celular? Isso não fazia sentido. Joaquín raramente o deixava para trás. 

Fiquei ali, parada, encarando a tela por alguns segundos. Foi quando me peguei em um dilema inesperado. Estava com o celular dele na mão, e uma parte de mim, quase instintiva, quis desbloquear a tela, tentar entender, descobrir qualquer coisa que pudesse me dizer onde ele estava. Mas a outra parte, aquela que sabia o quanto prezávamos pela confiança um no outro, me segurou. Nunca havíamos ultrapassado essa barreira. Nunca precisei, nunca quis invadir a privacidade dele. Não havia motivo.

Respirei fundo, tentando afastar a ansiedade. Não era normal sentir essa vontade de olhar algo pessoal dele sem permissão. Era como plantar uma semente de desconfiança onde ela nunca deveria existir. Mesmo assim, o fato de ele estar fora de casa, sem o celular, sem me avisar... algo não parecia certo.

Onde diabos Joaquín havia se metido?

Eu me sentei no sofá, incapaz de relaxar, enquanto uma mistura de preocupação e raiva se acumulava no peito. Minha mente estava a mil, mas o silêncio da casa era ensurdecedor. O celular dele permanecia ali, um lembrete constante de que ele estava fora, sem sequer se preocupar em levar algo tão essencial. Depois de mandar mensagens para os meus pais e começar a digitar para a irmã dele, ouvi, enfim, o som da fechadura sendo destrancada.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora