A primeira coisa que Clara percebeu foi a luz.
Não era a luz do apartamento. Não era a luz da janela do quarto dela e de Joaquín, aquela luz da manhã que entrava filtrada pelas cortinas brancas e pintava listras douradas no lençol. Essa luz era diferente. Branca. Artificial. Fria de uma forma que não pertencia a nenhum lugar que ela chamasse de casa.
A segunda coisa que percebeu foi o som.
Bip.
Bip.
Bip.
Constante. Ritmado. Mecânico. O tipo de som que ela associava a... a quê? Ela conhecia aquele som. Sabia que significava alguma coisa. Mas o cérebro se recusava a completar a conexão, como se houvesse um curto-circuito entre a memória e o pensamento.
A terceira coisa que percebeu foi a dor.
Uma dor geral. Como se cada centímetro do corpo tivesse sido atropelado por algo imenso e pesado. Os ombros doíam. O peito doía. A cabeça, Deus, a cabeça latejava com uma intensidade que fazia a luz branca parecer ainda mais agressiva, cada fóton uma agulha sendo enfiada diretamente atrás dos olhos.
Clara tentou abrir os olhos.
As pálpebras resistiram. Pesadas, grudadas, relutantes, como se tivessem sido coladas durante o sono e agora se recusassem a cooperar. Ela tentou de novo, forçando, franzindo o rosto com o esforço.
Luz.
Mais luz.
Branca demais. Forte demais. Errada demais.
Ela piscou.
Uma vez.
Duas.
O mundo começou a ganhar forma.
Teto branco. Não era o teto do apartamento. Não tinha o lustre simples que eles tinham comprado juntos na loja de decoração. Esse teto era liso, impecável, com uma luminária embutida que emitia aquela luz fria.
Onde eu estou?
O pensamento se formou devagar, como se cada palavra precisasse ser montada letra por letra.
Clara tentou se mover.
A dor explodiu.
Imediata, violenta, irradiando do ombro esquerdo como um relâmpago que se espalhava pelo braço, pelo peito, pelo pescoço. Ela soltou um gemido, involuntário, rouco, o som saindo de uma garganta que parecia não ter sido usada em dias.
Não se mexa, algo dentro dela disse. Não se mexa, não se mexa, não se mexa.
Ela parou.
Respirou.
Ou tentou respirar. O ar entrou em goles pequenos, insuficientes, cada inspiração encontrando resistência em costelas que protestavam como se estivessem quebradas.
Estão quebradas?
O pensamento veio acompanhado de confusão, não de medo. Como se a possibilidade de ter costelas quebradas fosse um problema abstrato, algo que pertencia a outra pessoa, a outra realidade.
Clara virou a cabeça, devagar, com cuidado, milímetro por milímetro e olhou ao redor.
Um quarto.
Um quarto de hospital.
A certeza veio como um balde de água fria. Os monitores ao lado da cama, emitindo aqueles bipes constantes. O suporte de soro com uma bolsa transparente pingando líquido em uma agulha no braço direito dela. A cama com grades laterais. O cheiro, aquele cheiro específico de desinfetante e medicamento que nenhum outro lugar do mundo tinha.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amor em Jogo - Piquerez
Fiksi PenggemarO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
