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São Paulo | Joaquín Piquerez

Eu tinha acabado de sair da sala de fisioterapia do CT, com os músculos das costas e das pernas ainda formigando agradavelmente por causa da massagem profunda que o fisioterapeuta tinha feito. Embora eu não estivesse com nenhuma lesão específica no momento graças a Deus, porque lesão é o pesadelo de todo jogador e eu já tinha sentido na pele o quão ela nos afeta, as massagens preventivas e o tratamento especializado que nos davam eram sempre extremamente bem-vindos, ainda mais antes de um treino intenso que duraria praticamente o dia todo sob aquele calor infernal.

Estava subindo as escadas largas de concreto que levavam ao campo principal, com o semblante concentrado e meio distante, pensando estrategicamente na série exaustiva de partidas de treino que teríamos pela frente sob aquele sol escaldante de meio-dia que literalmente parecia ser capaz de derreter até o aço mais forte, quanto mais a gente. Minha cabeça já estava no modo tático, calculando posicionamentos, marcações, coberturas.

Foi quando eu a vi ali parada perto da lateral do campo.

O sorriso brotou automático no meu rosto, involuntário como um reflexo, impossível de controlar ou disfarçar. Ela estava linda, meio perdida no meio de todo aquele ambiente masculino de grama e suor, com uma mão delicada levantada sob o rosto como se tentasse se proteger inutilmente do sol forte que batia direto no rosto dela, enquanto a outra mão repousava com naturalidade inconsciente sob a barriga já visivelmente arredondada, numa postura protetora e maternal que me derretia por completo.

Meu peito se aqueceu instantaneamente por dentro, como se alguém tivesse acendido uma fogueira pequena e confortável bem no centro dentro. Senti meu estômago revirar completamente, só que de um jeito bom, intenso e viciante, aquela sensação meio tonta de borboletas caóticas batendo asas, que eu achava que era coisa de filme romântico ruim, até conhecer ela.

Dei uma acelerada involuntária nos meus passos, quase tropeçando na própria pressa ridícula, só para chegar mais rápido perto dela e sentir o corpo quente dela junto ao meu, respirar o perfume familiar que ela usava.

— Viemos fazer uma visitinha surpresa para o papai. — ela disse com aquele sorriso meigo e luminoso dela enquanto se aproximava e me beijava sutilmente nos lábios.

O "papai" casual da frase me atingiu em cheio como um soco emocional no peito, me fazendo sorrir feito idiota num gesto completamente automático e descontrolado.

A palavra me fazia lembrar constantemente que era real, concreto, estava acontecendo de verdade, não era sonho, não era fantasia, não era algo distante e abstrato. Ela estava grávida do meu filho, crescendo dentro dela a cada dia, e eu seria o pai dessa criança. Nós iríamos criar juntos algo vivo, algo que eu não conseguia sequer começar a mensurar o quão importante, o quão transformador seria para ambos, para nossas vidas inteiras.

— Deu tudo certo no exame? O bebê tá bem? — perguntei imediatamente, com aquela pontada de culpa inevitável apertando meu peito. — Desculpa por não ter conseguido ir junto com você hoje. Eu tentei mesmo, falei com o Abel mas ele não conseguiu me liberar dessa vez. Um dos meninos se machucou feio ontem no treino, torção no tornozelo, vai ficar fora umas duas semanas e simplesmente não dava pra ficar sem mais um jogador no elenco, ainda mais agora com os jogos decisivos vindo. Mas no próximo, eu vou, de qualquer forma.

Ela não parava de sorrir nem por um segundo enquanto me olhava, daquele jeito dela que me fazia sentir perdoado de qualquer coisa.

— Joaquín, não tem problema nenhum, sério. Já te disse isso ontem à noite, e provavelmente vou ter que repetir amanhã também. — ela disse com paciência infinita, tocando a ponta do meu nariz num gesto carinhoso e brincalhão. — Eu fui com a minha mãe, ela adorou ver o bebê na tela do ultrassom, quase chorou lá na sala. E está tudo perfeitamente bem com ele ou ela, batimentos cardíacos fortes, medidas certas, tudo nos conformes. — ela completou enquanto dava um passo à frente e me abraçava apertado, afundando o rosto no meu peito. — Senti falta de olhar pra sua cara.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora