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O relógio do meu celular marcava 23:47 quando Joaquín se virou pela décima quinta vez na cama.

Eu sei que era a décima quinta vez porque eu estava contando. Não porque quisesse, mas porque cada movimento dele fazia o colchão oscilar de um jeito que me tirava do estado de quase-sono em que eu estava tentando, desesperadamente, mergulhar.

— Joaquín.

— Hm?

— Você está se mexendo muito.

— Desculpa. — uma pausa. — Eu estou tentando não me mexer.

— Você está falhando miseravelmente.

Ele ficou imóvel por aproximadamente doze segundos, eu contei esses também, antes de soltar um suspiro longo e se virar de novo, dessa vez ficando de frente para mim.

A luz da rua lá fora entrava pelas frestas da cortina, criando listras que cortavam a escuridão do quarto. Uma delas caía exatamente sobre o rosto dele, iluminando um olho e metade do nariz, deixando o resto em sombras.

O olho que eu podia ver estava completamente aberto.

— Você não está nem um pouco com sono. — eu constatei.

— Não.

— Quer falar sobre isso?

— Não tem nada pra falar.

— Joaquín.

— É sério. — ele se ajeitou no travesseiro, tentando encontrar uma posição confortável e claramente não conseguindo. — Eu só não estou com sono. Acontece. Às vezes pessoas simplesmente não conseguem dormir.

— Pessoas que não conseguem dormir geralmente não ficam encarando o teto como se ele tivesse respostas para os mistérios do universo.

— Eu não estava encarando o teto.

— Estava sim.

— Estava olhando pra luz no teto. É diferente.

Eu ri, um som baixo, contido, que escapou antes que eu pudesse segurar. Ele também sorriu, mas foi um sorriso tenso, nervoso, que não chegou aos olhos.

— Ei. — me aproximei dele, o lençol se arrastando junto comigo, e encostei a testa na dele. — Fala pra mim. O que está te deixando assim?

Ele não respondeu imediatamente.

O silêncio se estendeu entre nós, não desconfortável, apenas pesado  preenchido pelo zumbido baixo do ar, pelo som ocasional de um carro passando na rua lá embaixo, pela respiração dele que estava um pouco rápida demais para alguém deitado numa cama tentando dormir.

— E se alguma coisa estiver errada?

A pergunta veio quase sussurrada, como se dizê-la em voz alta fosse perigoso demais.

— Como assim?

— Amanhã. O ultrassom. — ele engoliu seco, e eu senti o movimento da garganta dele mesmo no escuro. — E se a doutora encontrar alguma coisa? E se ele não estiver bem? E se...

— Ei, ei. — eu levei a mão ao rosto dele, pousando a palma na bochecha, sentindo a barba por fazer na minha pele. — De onde está vindo isso?

— Não sei. — a voz dele estava tensa, contida. — Da minha cabeça idiota, provavelmente. Ela não desliga. Fica inventando cenários. Cada um pior que o anterior.

— Cenários como...?

— Você quer mesmo saber?

— Quero.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora