117

2.3K 176 110
                                        

— Eu sou contra a ideia de você não ir pra Londres e ficar aqui. — murmurei, com a cabeça repousada em seu colo. A luz da TV dançava em seus olhos, e as risadas dos personagens da série preenchiam o fundo, mas tudo o que importava pra mim naquele momento era ela. — Mas... ter você aqui, comigo... — suspirei profundamente, como se soltar aquilo fosse admitir algo que doía e confortava ao mesmo tempo.

— Admite logo que você gosta de me ter por perto te enchendo o saco o tempo todo. — ela disse com aquele sorriso torto que fazia minha respiração travar. Logo em seguida, colocou delicadamente uma pipoca na minha boca.

— O óbvio também precisa ser dito? — provoquei, levantando o olhar para encontrar o dela. Ela riu. 

E quando ela ria, algo dentro de mim se desmanchava. Era como se, por alguns segundos, o mundo inteiro parasse só pra que eu escutasse aquele som. Era mais do que riso, era alívio, era lar. E eu ouvia Deus sussurrar não ao meu ouvido, mas direto na alma: 

"Eis o paraíso, e tu, frágil criatura, és digno dele." 

E se existia algo que eu queria preservar acima de qualquer coisa, era aquela sensação de merecer aquele momento com ela.

— O que rolou com o Maurício? — perguntei de repente, tentando soar casual, embora meus olhos permanecessem nela. — Sobre ele te ajudar?

Ela hesitou por um segundo, e então respondeu desviando o olhar para a tela.

— Eu só estava passando mal. Acho que o café não desceu bem. — disse, sem emoção, e eu apenas assenti com a cabeça. — Eu nem sabia que tinha gente nova no time, minha mãe nunca me falou nada sobre ele.

— Ele chegou faz pouco tempo. Mas é um carinha daora. — comentei, meio distraído com o jeito como ela mexia nos cabelos, enrolando uma mecha nos dedos.

Ela soltou uma risada súbita, e eu franzi a testa, surpreso.

— Por que tá rindo?

— Eu amo como você fala no diminutivo. 'Carinha daora'... o seu sotaque deixa tudo fofo. — ela disse com carinho nos olhos, se inclinando um pouco mais pra perto de mim. — Juro que isso é uma carta na manga que você nem sabe que tem.

— Eu sei, costuma funcionar com mulheres. — brinquei com um sorriso maroto. Um segundo depois, levei um tapinha leve na cabeça.

— Bobo. — murmurou.

Ficamos em silêncio por alguns minutos, só ouvindo a TV, até que ela soltou do nada:

— Tô com vontade de comer coxinha de frango com brigadeiro.

— Você quis dizer coxinha de brigadeiro? — perguntei, confuso.

— Não. Coxinha de frango e brigadeiro. Mas juntos. — ela explicou como se fosse a coisa mais natural do mundo.

— Isso é bizarro. — disse rindo. — As duas coisas são ótimas, mas... combinadas? Isso é um crime contra a culinária brasileira.

— Não é bizarro. É hormonal. — respondeu já pegando o celular e abrindo o app de comida. — Deve ter algum lugar que venda isso, sei lá.

— Hormonal? — repeti a palavra, tentando decifrar o tom.

— Tô com vontade.  — ela falou como quem quer cortar o assunto. — Vai, faz um brigadeiro enquanto a coxinha não chega? Por favor? — ela virou o rosto e me olhou com aquele olhar irresistível, o olhar de quem sabia exatamente como me convencer. — Pra sua namorada linda, incrível, maravilhosa, cheirosa, sensual...

— Tá apelando. — falei, rindo, tentando não ceder tão fácil.

— Eu e você precisamos disso. — ela completou, sussurrando como se fosse um segredo sagrado. — Vai por mim. Você vai gostar.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora