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O sofá estava afundado no lugar exato onde meu corpo tinha se acomodado nas últimas duas horas. O prato de brigadeiro já pela metade descansava precariamente na curva entre minha barriga e minha coxa, equilibrada de um jeito que só funcionava porque eu tinha virado especialista em adaptar minha anatomia às necessidades do momento. A barriga não estava enorme mas já me deixava ciente de que ocupava espaço.

Na TV, a Cinderela cantava sobre sonhos se tornarem realidade, sua voz doce e impossível flutuando pela sala escurecida. Eu conhecia aquele filme de cor. Tinha assistido umas vinte vezes pra mais durante a minha vida.

Joaquín estava sentado na outra ponta do sofá, meus pés descalços apoiados em seu colo. Seus dedos trabalhavam com uma pressão firme e constante nos arcos dos meus pés, encontrando pontos de tensão que eu nem sabia que existiam e desfazendo-os com movimentos circulares lentos e deliberados.

Peguei outro brigadeiro, sentindo o doce derreter na língua. Culpa seria um problema para a Clara de amanhã.

— Por que você não me contou sobre a festa do clube?

A pergunta saiu casual, olhos ainda fixos na TV, mas senti o momento exato em que as mãos dele pararam. Apenas por um segundo, uma hesitação quase imperceptível, antes de retomarem o movimento, um pouco mais devagar agora.

— Festa não é exatamente o meu forte. — Sua voz veio baixa, pensativa. — Sabe como é... todo mundo querendo conversar, tirar foto, perguntar das últimas notícias do time. — Ele pausou, os polegares pressionando a base do meu calcanhar. — Me faz sentir tipo... um animal de zoológico.

Virei a cabeça para encará-lo. A luz azulada da TV desenhava sombras suaves em seu rosto, destacando a linha da mandíbula, o vinco leve entre as sobrancelhas que sempre aparecia quando ele estava desconfortável com algo.

— Não parecia tão relevante. — Ele finalmente encontrou meu olhar, e havia algo ali, desconfiança, talvez. — Mas você quer ir, não quer?

O sorriso de canto que se formou em seus lábios era conhecimento puro. Ele sabia. É claro que sabia.

— Minha mãe comentou esses dias. — admiti, tentando soar despreocupada. — Até saímos pra comprar um vestido. Porque, obviamente... — fiz um gesto vago em direção à barriga, — ...os que eu tenho não servem mais em mim.

— Obviamente. — Ele repetiu, mas havia calor na voz. Não julgamento.

— E eu sei que você é obrigado a ir. — continuei, brincando com a barra da minha blusa. — Então pensei que... sei lá, talvez se eu estiver lá, você se sinta menos exposto? Tipo, ter alguém conhecido no meio da multidão?

Joaquín inclinou a cabeça, estudando meu rosto com aquela atenção total que ele às vezes dedicava às coisas, como se estivesse memorizando cada detalhe, catalogando cada micro-expressão.

— Você sabe que eu sei que você tá indo pelos doces, né? — o sorriso agora era completo, iluminando os olhos dele. — A mesa de sobremesas nas festas são lendária e você tem pensado nela desde que sua mãe mencionou a festa.

Não consegui segurar a risada. Ele me conhecia bem demais.

— Tá, talvez os doces sejam um fator. — admiti, sentindo o calor subir para as bochechas. — Mas não é isso.

— Eu sei. — Sua voz ficou mais suave. — E é uma boa ideia, já que eu tenho que ir. Vai ser mais fácil com você lá.

Ficamos em silêncio por um momento, apenas o som da TV e a respiração sincronizada entre nós. Seus dedos tinham voltado a massagear meus pés, agora com um toque mais leve, quase distraído.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora