Algumas semanas haviam se passado desde que descobri a gravidez. Nesse tempo, meu corpo começou a se transformar de um jeito tão sutil que parecia um segredo guardado entre mim e o espelho. A barriga ganhava um volume discreto, quase imperceptível para os outros, mas para mim cada milímetro era monumental. Eu sentia a pele um pouco mais esticada ao redor do umbigo, especialmente à noite, quando me deitava de lado e passava a mão devagar sobre a curva que nascia. Havia um peso leve mas constante, como se carregasse uma fruta pequena logo abaixo do estômago, algo entre uma laranja e uma manga, pensei uma vez, e quase ri da comparação absurda.
Se eu me vestisse com um casaco largo ou uma camisa folgada, ninguém notaria. De frente, eu ainda parecia a mesma de sempre. Mas de lado, sob a luz certa ou ângulo, havia uma curvatura nova, uma linha suave que entregava o que estava acontecendo comigo. Era estranho e, ao mesmo tempo, fascinante perceber que meu corpo contava para os outros algo que eu ainda tentava assimilar. Às vezes eu ficava parada na frente do espelho, levantava a blusa e virava de perfil, como se precisasse da confirmação visual para acreditar que aquilo era real.
Nos dias em que escolhia uma roupa mais justa, uma camiseta de malha, uma blusa de lycra, a diferença saltava mais aos meus olhos do que aos de qualquer outra pessoa. Eu olhava para aquela saliência discreta e um turbilhão de emoções me tomava de uma só vez: surpresa, medo, ternura, ansiedade, e uma estranheza que beirava o surrealismo. Em alguns momentos, vinha até uma vontade nervosa de rir, daquelas que brotam quando você não sabe mais se chora ou se aceita o fato. Era como se eu tivesse engolido sementes de melão sem querer e o fruto tivesse decidido germinar dentro de mim, crescendo devagar, tomando espaço, pegando território.
Mas bastava levar a mão até a barriga, sentir o calor da própria pele, a firmeza que não estava ali antes para entender que não era brincadeira. Ali dentro havia vida. Silenciosa, invisível para todos, mas gritante para mim em cada sensação do meu corpo: o cansaço que chegava mais cedo, a fome que aparecia de repente no meio da tarde, aquela leve pressão na bexiga que me mandava ao banheiro a cada hora. A cada dia, eu me sentia um pouco mais grávida, carregando não somente o peso físico que começava a se fazer presente, mas também a responsabilidade imensa e o amor confuso, assustador e profundo de alguém que começava a existir dentro de mim.
A gravidez estava, até então, sob o meu domínio. Era meu segredo, meu pequeno universo protegido por silêncio e escolha. Somente quem eu queria que soubesse, sabia e essa escolha consciente me trazia uma paz quase terapêutica, como se eu tivesse construído um abrigo invisível ao meu redor. Havia um alívio imenso em manter o silêncio, em não precisar lidar com os olhos curiosos demorando na minha barriga, os julgamentos apressados sobre minhas decisões, as opiniões que nunca foram pedidas mas que chegam mesmo assim, pesadas e invasivas.
Eu sabia, no fundo da alma, que não suportaria ver tudo vindo à tona de repente, como uma onda avassaladora prestes a me arrastar e me afogar em comentários, palpites, olhares de pena ou de reprovação.
Já tinha vivido esse tipo de exposição brutal quando assumi meu relacionamento com Joaquín. Lembro do quanto me senti invadida naquela época, como se minha vida tivesse virado propriedade pública da noite para o dia. Cada gesto nosso, cada fala, cada foto, cada olhar trocado em público era dissecado por pessoas que não faziam parte da minha vida, que mal me conheciam, mas que agiam como se tivessem direito irrevogável sobre ela. Como se meus sentimentos fossem tema de debate, meu corpo fosse paisagem para análise, minha felicidade fosse assunto para enquete.
E agora, grávida, vulnerável de um jeito que nunca estive antes, eu sabia que precisava desse tempo. Desse espaço de silêncio para processar, sentir, me conectar com o que estava crescendo dentro de mim antes que o mundo inteiro decidisse o que eu deveria pensar ou sentir sobre isso.
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Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
