O dia começou antes do sol.
Não porque houvesse qualquer urgência fora do comum com Theo, quase tudo já era uma urgência mansa. A fisioterapia dele estava marcada para cedo, e depois ainda havia a consulta com o pediatra, o que significava sair de casa com tempo, com calma, com a bolsa organizada, as mamadeiras separadas, os remédios conferidos e o coração preparado para mais um daqueles dias em que o amor se vestia de rotina médica.
Acordei primeiro, como quase sempre acontecia.
Ainda estava escuro no quarto quando abri os olhos, sem saber exatamente se tinha despertado sozinha ou se alguma parte mais funda de mim respondeu ao menor som vindo da babá eletrônica. Fiquei alguns segundos imóvel, tentando organizar a cabeça, até ouvir o resmungo de Theo pelo monitor.
Ao meu lado, Joaquín dormia de lado, a mão aberta sobre o próprio travesseiro, a respiração pesada de quem vinha acumulando noites sem dormir completamente. Observei ele por um instante, com uma ternura cansada que o amor ganha quando amadurece dentro do cansaço. Havia dias em que eu achava que poderia ficar horas só olhando para ele dormir, principalmente porque, acordado, ele parecia estar sempre em estado de prontidão por nós dois.
O resmungo veio de novo.
Eu já ia me mover quando Joaquín abriu os olhos.
Foi quase instantâneo. Como se o nome de Theo sido gritado dentro de sua consciência, e qualquer som do bebê o chamasse de volta ao mundo.
— Foi ele? — murmurou, com a voz rouca de sono.
Sorri, ainda deitada.
— Foi.
Joaquín passou a mão pelo rosto e já se sentava na cama.
— Eu vou.
— Amor, você nem acordou ainda.
— Agora acordei.
Não insisti.
Havia alguma coisa profundamente bonita em vê-lo fazer isso, levantar ainda desajeitado de sono, o cabelo bagunçado, o corpo lento dos primeiros segundos, mas a disposição inteira. Joaquín atravessou o quarto em direção à porta e, antes de sair, voltou só um pouco para beijar minha testa.
— Dorme por mais um tempinho. — sussurrou.
Fechei os olhos, sorrindo.
— Dois minutos.
Mas não foram só dois.
Do quarto de Theo, ouvi a voz baixa de Joaquín, aquele tom manso, quase solene, que ele usava com o filho como se cada palavra precisasse sair polida para não ferir o ar em volta do bebê.
— Bom dia, amor do papai. Já começou o dia daquele jeito?
Theo respondeu com um som indignado, e eu tive de prender uma risada no travesseiro.
Poucos minutos depois, encontrei os dois no quarto do bebê: Joaquín em pé ao lado da poltrona, com Theo no colo e um paninho sobre o ombro, balançando-o devagar enquanto o pequeno fazia aquela cara séria e ressentida que só um bebê conseguia fazer ao acordar.
Parei à porta e fiquei olhando.
Ainda havia algo demais naquela cena para que eu me acostumasse. O modo como Theo parecia pequeno demais para o mundo. O modo como Joaquín o segurava como se soubesse exatamente o peso de um milagre frágil. O modo como os dois, mesmo sem entender, já pareciam se pertencer.
Joaquín ergueu os olhos e me viu.
— Ele acordou com opiniões fortes hoje. Resmungou coisas importantes.
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Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
