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Dois dias depois...


Durante o jogo, permaneci sentada, com as costas apoiadas contra a cadeira plástica que parecia cada vez mais desconfortável à medida que os minutos passavam. Meu estômago, sensível como um alarme de incêndio, só tolerava uma coisa: água. Nada, além disso, parecia aceitável. Eu segurava meu copo com as duas mãos, como se fosse um amuleto contra o enjoo que ameaçava a qualquer momento me virar do avesso.

Enquanto o Palmeiras tocava a bola com energia no campo, eu deslizava os dedos pela tela do celular, adicionando alguns vestidos e acessórios ao meu carrinho da Shein. Um ritual quase terapêutico. Era o máximo de distração que conseguia encontrar no meio de uma arquibancada que vibrava a cada lance.

De repente, o estádio inteiro explodiu em gritos. Um mar de vozes se ergueu como uma onda furiosa, bandeiras tremulando, braços ao alto. Gol do Palmeiras.

Antes que eu pudesse assimilar o que acontecia, o homem ao meu lado, até então quieto, levantou-se com tanta força e euforia que esbarrou bruscamente em mim. Meu corpo se inclinou para o lado e o copo de água, único consolo da tarde, caiu no chão, respingando na barra da minha calça jeans.

Virei o rosto para ele com calma, esperando um simples pedido de desculpas. Nada. Nem um olhar.

— Você não tá vendo que tô aqui? — soltei, o tom mais ácido do que eu gostaria.

O homem finalmente me olhou, com uma expressão de desprezo misturada a uma risada debochada. Aquele riso... aquele riso foi como uma fagulha caindo em um galão de gasolina.

Sem pensar, apenas sentindo, vi o outro copo de cerveja abandonada ao lado do assento dele e empurrei levemente o copo, fazendo com que ele tombasse e o líquido escorresse. A reação foi instantânea.

Ele explodiu.

— MAS VOCÊ TÁ MALUCA? — ele gritou, a voz arrastada pela bebida, o rosto se contraindo em fúria. Apontou o dedo para mim com agressividade, como se quisesse empurrar o ar até minha testa.

As pessoas ao redor, até então concentradas no jogo, imediatamente se voltaram para nós.

Mesmo assim, ele continuou.

As palavras dele começaram a se tornar mais ofensivas, vulgares, cruéis. Ele me chamava de nomes que queimavam minha pele como ácido. Eu tentava respirar fundo, contar até dez, fixar meus olhos no campo como se a grama pudesse me proteger. A vontade de gritar era imensa, mas havia algo maior me impedindo: o bebê.

Talvez por ele estar visivelmente alterado, ninguém chegou a encostar nele, mas o clima estava tenso. Dava para sentir a eletricidade no ar, a qualquer segundo algo poderia explodir. Eu olhava ao redor, buscando um segurança com os olhos. Nenhum à vista.

— Dá para ficar quieto? — finalmente disse, com a voz firme, mas calma. A mão tremia em meu colo. — Você derrubou minha água, me xingou, incomodou todo mundo aqui. Acha que tá com a razão?

Ele riu de novo, mas foi um riso quase animalesco. E eu me arrependi. Não de ter falado. De não ter ido para o camarote. Minha mãe havia me oferecido. Disse que ficar nas cadeiras inferiores poderia ser uma experiência mais... "intensa", com o público, com o calor do jogo. Mas agora tudo que eu conseguia pensar era na expressão dela me dizendo, com aquele ar triunfante e irritante: "Eu avisei, Clara."

Ele estava ficando cada vez mais insuportável.

A voz dele subia de tom como um alarme de veículo disparado em madrugada silenciosa. Falava alto, gesticulava, balançava o copo de cerveja com tanta força que os respingos já tinham atingido a perna de uma moça do outro lado do corredor, que bufou, mas não falou nada. Eu, por outro lado, já estava perdendo a paciência.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora