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As portas duplas da entrada de urgência dol Hospital Israelita Albert Einstein se abriram com um estrondo metálico quando a maca atravessou o corredor.

Os paramédicos corriam ao lado dela, mãos firmes segurando bolsas de soro, monitores portáteis, equipamentos que emitiam sons intermitentes e urgentes. As rodas da maca faziam um ruído agudo contra o piso encerado do hospital, ecoando pelas paredes brancas como um grito de alerta.

Clara estava imóvel sobre a maca.

Completamente imóvel.

O rosto dela, ou o que era visível dele sob os curativos, sob o sangue seco, sob a máscara de oxigênio que cobria nariz e boca, tinha uma palidez que não pertencia aos vivos. Uma palidez cerosa, quase translúcida, do tipo que faz os médicos trocarem olhares silenciosos e acelerarem o passo sem precisar de palavras.

De longe, qualquer pessoa diria que ela estava morta.

O corpo sem movimento, os olhos fechados, a ausência total de qualquer sinal visível de vida. Ela parecia uma boneca quebrada, um objeto inanimado sendo transportado por pessoas que ainda não tinham aceitado que não havia mais nada a fazer.

Mas o monitor cardíaco contava outra história.

Bip.

Bip.

Bip.

Fraco. Irregular. Espaçado demais para ser considerado normal. Mas presente. O coração de Clara ainda estava batendo, teimoso, relutante, se agarrando à vida com uma determinação que desafiava tudo o que o corpo dela tinha sofrido.

O médico plantonista, Dr. Renato Moreira, segundo o crachá preso ao jaleco branco, interceptou a maca no meio do corredor. Ele era um homem de cinquenta e poucos anos, cabelos grisalhos. Mas mesmo ele, com toda a experiência acumulada em três décadas de medicina de emergência, sentiu algo se apertar no peito quando viu a barriga proeminente sob o lençol manchado.

Grávida.

Uma mulher grávida em estado crítico era um pesadelo logístico e emocional que nenhum profissional de saúde queria enfrentar.

— Relatório. — ele disse, a voz cortante atravessando o caos do corredor enquanto pegava a prancheta das mãos de uma das socorristas. — O que temos?

A paramédica, uma mulher jovem, não mais que trinta anos, com o uniforme salpicado de sangue que não era dela, respondeu sem perder o ritmo:

— Mulher, aproximadamente vinte e cinco a trinta anos, gestante de trinta e duas semanas acredito eu. Vítima de colisão lateral em alta velocidade. Veículo tombou após o impacto. Tempo de extricação: vinte e três minutos.

Vinte e três minutos.

Vinte e três minutos com ela presa naquele carro, sangrando, perdendo fluidos, o corpo lutando contra danos que ninguém conseguia ver.

— Lesões visíveis? — Dr. Moreira perguntou, os olhos percorrendo a ficha enquanto acompanhava a maca em direção à sala de trauma.

— Trauma cranioencefálico evidente, laceração no couro cabeludo com sangramento controlado no local. Suspeita de fratura no ombro esquerdo e múltiplas costelas do mesmo lado. — a paramédica fez uma pausa, engolindo algo antes de continuar. — Contusões abdominais significativas. A região está sensível ao toque e apresenta rigidez.

A rigidez abdominal era um sinal de alerta vermelho.

Significava que algo estava errado por dentro. Sangramento interno, órgãos perfurados, o tipo de dano que não podia ser visto a olho nu mas que matava silenciosamente, enchendo cavidades que não deveriam ser preenchidas com sangue que deveria estar circulando.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora