— Amor, faltam quantas caixas ainda?
A pergunta saiu com uma risada nervosa que eu não consegui segurar, aquela risada que escapava quando o corpo já estava no limite mas a mente ainda tentava fingir que estava tudo sob controle.
Joaquín apareceu no corredor carregando mais duas caixas, uma equilibrada sobre a outra de um jeito que desafiava as leis da física e provavelmente algumas normas de segurança. Ele se movia com aquela naturalidade irritante de quem estava apenas passeando no parque, não carregando peso suficiente para fazer a maioria das pessoas implorar por misericórdia.
Eu, por outro lado, era a própria definição de desastre. Estávamos quase o dia todo ali.
Meu rosto estava vermelho, não o vermelho charmoso de quem fez um pouco de exercício, mas o vermelho preocupante de quem estava a dois graus de derretimento completo. O cabelo, que eu tinha prendido em um rabo de cavalo otimista no início da manhã, tinha abandonado qualquer pretensão de organização e agora grudava na minha testa em mechas úmidas e revoltadas. Sentia cada poro do meu corpo suando, cada célula protestando, cada músculo questionando as escolhas de vida que me tinham levado a tentar ajudar numa mudança aos sete meses de gravidez.
Enquanto isso, Joaquín parecia ter acabado de sair de um ensaio fotográfico.
— Acho que mais algumas. — ele disse, depositando as caixas no canto da sala com uma facilidade que eu invejava profundamente. — Essas são suas roupas. Ainda faltam os seus livros e as minhas roupas.
Eu suspirei.
Não foi um suspiro delicado ou discreto. Foi um suspiro que veio do fundo da alma, que carregava consigo todo o cansaço acumulado, toda a exaustão de um dia que parecia não ter fim, todo o peso, literal e metafórico que eu estava sentindo.
Joaquín parou o que estava fazendo.
Os olhos dele me encontraram, e eu vi o exato momento em que a preocupação substituiu a concentração. Era até bizarro a capacidade dele quase assustadora de ver, de perceber mudanças mínimas no meu estado que eu às vezes nem notava em mim mesma.
— Amor. — ele disse, se aproximando, a voz mais suave agora. — Vai tomar água. Você tá suando feito um picolé no sol do meio-dia.
— Isso foi uma comparação muito específica.
— E muito precisa.
Eu queria argumentar, mas ele tinha razão. Eu estava derretendo. Literalmente. Se ficasse ali parada por mais cinco minutos, provavelmente ia formar uma poça no chão do nosso apartamento novo, e isso definitivamente não combinava com a decoração que eu tinha planejado com tanto cuidado.
Me levantei da poltrona onde tinha me jogado, um movimento que exigiu mais esforço do que deveria, a barriga tornando cada manobra um exercício de logística corporal e me direcionei para a cozinha.
A cozinha.
Minha cozinha.
Mesmo exausta, mesmo suando, mesmo questionando todas as minhas decisões de vida, eu ainda sentia aquela pontada de orgulho toda vez que entrava naquele espaço.
Os móveis tinham chegado há alguns dias, móveis planejados, porque eu tinha feito questão absoluta de criar algo único, algo que fosse nosso de verdade e não apenas uma combinação de peças de catálogo. As bancadas de baixo eram de um tom de verde oliva que eu tinha escolhido depois de aproximadamente quinze amostras diferentes, e que contra toda a lógica de design combinava perfeitamente com o branco não tão branco das bancadas superiores. Era um contraste que talvez não deveria funcionar mas funcionava, que dava personalidade ao espaço sem ser agressivo.
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Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
