— Tá pronto?
A pergunta saiu num sussurro tão frágil que quase desapareceu no silêncio da cozinha. Minha voz falhou como se carregar aquelas duas palavras fosse demais, como se o peso do momento tivesse roubado o ar dos meus pulmões antes mesmo de eu tentar falar.
Joaquín já sorria. Aquele sorriso dele que nasce primeiro nos olhos, iluminando as íris escuras antes que os lábios se movam, antes que o resto do rosto entenda o que está acontecendo. Era ansiedade pura traduzida em luz.
Estávamos sozinhos na cozinha do nosso apartamento. Completamente sozinhos. O relógio da sala marcava o tempo com seu tic-tac metódico e indiferente à revolução que acontecia aqui dentro. Eu ouvia minha própria respiração: rápida, irregular, entrecortada e ouvia a dele também, um pouco mais profunda, um pouco mais controlada, mas igualmente acelerada.
O mundo lá fora deixou de importar. As buzinas da avenida, os vizinhos, a vida acontecendo do outro lado das paredes, tudo isso foi apagado. Reduzido a nada. Como se alguém tivesse apertado um botão de mudo no universo inteiro e só restássemos nós dois, essa mesa, esse momento suspenso no tempo como uma bolha frágil que qualquer movimento brusco poderia estourar.
Eu queria que esse momento fosse eternamente nosso. Privado. Sagrado. Um segredo guardado entre meu coração e o dele.
Cada um segurava um cupcake. Simples, quase humilde na sua ordinariedade, massa fofa coberta com glacê branco liso e confetes prateados que brilhavam sob a luz da tarde entrando pela janela. Nada elaborado, nada que gritasse atenção. Mas em um deles, escondido como um tesouro enterrado, estava a resposta que nos mantinha acordados à noite há semanas: menino ou menina. Filho ou filha. O futuro inteiro da nossa família codificado em açúcar colorido.
Nossos olhares se encontraram e grudaram. Não consegui desviar mesmo querendo, mesmo sentindo que olhar diretamente para ele naquele momento era quase doloroso de tão intenso. Era como olhar para o sol. Os olhos dele brilhavam não apenas de alegria superficial, mas de algo mais profundo, mais denso. Expectativa misturada com medo, esperança misturada com vulnerabilidade. Tudo exposto, tudo nu, tudo verdadeiro.
Senti vontade de chorar antes mesmo de morder o bolinho. As lágrimas já se acumulavam por trás dos olhos, pressionando, pedindo permissão para cair. Minha garganta apertou dolorosamente. Do outro lado da mesa, Joaquín segurava o cupcake e eu via, eu via claramente suas mãos tremendo. Um tremor sutil, mas inconfundível, como se a emoção estivesse vazando pelos dedos, impossível de conter.
O ar cheirava a baunilha. Doce, reconfortante, caseiro. O tipo de cheiro que deveria acalmar, mas que naquele momento apenas intensificava tudo, tornava tudo mais real, mais imediato, mais irreversível.
Minha mãe havia insistido numa festa. Queria algo grande, teatral, instagramável.
Allianz Parque com balões gigantes, fumaça colorida, fotógrafo profissional capturando cada segundo, mesa de doces cara, convidados aplaudindo. "Você tá me roubando a chance de ser avó do jeito certo," ela disse, e a mágoa na voz era real, cortante. "É só uma festinha."
Mas eu não queria plateia. Não queria perfeição encenada para câmeras. Já tivemos exposição suficiente nas nossas vidas, suficiente para mil vidas. Julgamento público, invasão de privacidade, opiniões não solicitadas sobre cada decisão, cada respiração. Aquele momento precisava ser diferente. Precisava ser só nosso. Tão íntimo quanto as memórias que guardávamos daquele estádio onde nos conhecemos, aquele lugar enorme que, paradoxalmente, guardava nossos segredos mais privados.
No fim, ela aceitou fazer parte à maneira dela. Tornou-se a guardiã do segredo. Foi até a confeitaria que conhecia, entregou o envelope lacrado da médica com as mãos trêmulas de emoção contida, encomendou os cupcakes especiais. Seis ao todo, agora dispostos na nossa frente como soldadinhos em fila. Cinco neutros, mentirosos inocentes. Um com a verdade escondida no centro. Uma roleta russa doce.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
