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A cirurgia durou mais quatro horas depois que Theo nasceu.

Quatro horas de sutura meticulosa, de cauterização cuidadosa, de mãos experientes trabalhando em silêncio para reparar o que o acidente tinha destruído. O baço de Clara precisou de reconstrução parcial. Três costelas fraturadas foram estabilizadas. Um hematoma na parede abdominal foi drenado. O útero, que tinha sido aberto às pressas para tirar o bebê, foi fechado camada por camada com pontos que precisavam ser perfeitos.

Dr. Moreira trabalhou até as mãos doerem.

Até os olhos arderem sob as luzes cirúrgicas.

Até ter certeza absoluta de que tinha feito tudo, tudo, que a medicina permitia.

E então, finalmente, ele recuou.

— Ela está estável. — ele disse, tirando as luvas encharcadas de suor e sangue. — Pressão normalizando, sangramento controlado, todos os reparos feitos. — Uma pausa. — Ela vai precisar de tempo. Mas ela passou pelo pior.

A equipe soltou um suspiro coletivo.

Não de celebração, ainda era cedo demais para celebrar. Mas de alívio. O alívio de quem tinha lutado contra a morte por horas e, pelo menos por enquanto, tinha vencido.

Clara foi transferida para um quarto privativo no sexto andar às três e quarenta e sete da madrugada.

A maca deslizou pelos corredores silenciosos do hospital, empurrada por enfermeiros que trabalhavam com a eficiência automática de quem tinha feito aquele trajeto milhares de vezes. Os tubos e fios que a mantinham conectada à vida, soro, monitores, oxigênio acompanhavam como tentáculos mecânicos, cada um cumprindo sua função de manter o corpo dela funcionando enquanto a mente descansava.

O rosto de Clara estava pálido sob a luz fluorescente.

Os olhos fechados, a expressão relaxada de uma forma que só a anestesia conseguia produzir. Uma gaze cobria o lado esquerdo da testa, onde o corte do acidente tinha sido suturado. Os braços descansavam ao lado do corpo, um deles imobilizado por causa do ombro fraturado.

Ela parecia pequena.

Vulnerável de uma forma que não combinava com a mulher que ela era.

Mas ela estava viva.

Respirando.

O peito subindo e descendo em ritmo constante, o monitor cardíaco ao lado da cama emitindo bipes regulares que eram a coisa mais bonita que qualquer máquina já tinha produzido.

O som da vida continuando.

No andar de baixo, Theo fazia sua própria jornada.

A incubadora que o transportava era uma cápsula de tecnologia e cuidado, temperatura controlada, umidade perfeita, sensores monitorando cada batimento, cada respiração, cada movimento do corpo minúsculo que tinha sido obrigado a chegar ao mundo oito semanas antes do previsto.

Dr. Felipe caminhava ao lado, os olhos nunca deixando o bebê que ele tinha trazido de volta à vida.

Theo estava diferente agora.

A cor roxa que tinha assustado todos na sala de cirurgia estava cedendo lugar a um rosa pálido, ainda não o rosa saudável de um recém-nascido a termo, mas infinitamente melhor do que o tom de morte que ele exibia vinte minutos atrás. Os olhos continuavam fechados, os punhos ainda cerrados, mas o peito... o peito se movia.

Subindo.

Descendo.

Subindo.

Descendo.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora