Eu queria estar sozinha. Não apenas fisicamente, mas de uma forma que a solidão pudesse me consumir por completo, como um abraço sufocante que, paradoxalmente, me trouxesse algum alívio. Algo dentro de mim morreu, não de uma vez, mas em pedaços, como folhas secas desprendendo-se de uma árvore outonal. Quando percebi que nosso relacionamento havia mudado para sempre, foi como se o chão sumisse sob meus pés, e eu caísse em um vazio que não fazia sentido.
Parte de mim se recusava a acreditar. Nunca imaginaria aquilo. Nunca pensei que o amor que ardia tão intensamente dentro de mim pudesse se transformar em cinzas tão frias. Eu o amava. Amava com todas as minhas forças, com todas as brechas da alma, com todas as partes que nunca ousei mostrar a ninguém. E justamente por amá-lo tanto, sentir que aquilo estava se esvaindo por silêncios não ditos, por distâncias não confessadas era como morrer um pouco a cada hora do meu dia.
O pior de tudo? Ele nem sequer fazia ideia, não por frieza ou indiferença. Estava alheio porque não sabia. Porque eu não disse.
E então, lentamente, tudo começou a desmoronar. As fundações daquilo que éramos começaram a trincar sob o peso das palavras não ditas, das ausências não percebidas. Pequenos colapsos diários que, juntos, formaram um terremoto.
Eu tentei sustentar as ruínas sozinha. Tentei ser forte, fingir normalidade. Mas há um limite para a resistência de quem sente demais. Um dia, os escombros começaram a cair de verdade. E foi só quando alguns destroços o atingiram em cheio que ele pareceu acordar, talvez pela primeira vez, para o caos que já me engolia há muito tempo.
— Você só precisa me dizer, Clara. Eu não quero brigar. — Joaquín disse, com os braços cruzados, a voz firme, mas sem raiva. Ele me olhava como quem não entendia o que estava acontecendo, como quem estava tentando alcançar um lugar dentro de mim que há dias se tornara inacessível. — Eu não fiz nada pra você... e você tá me estranhando o dia todo. Isso vem acontecendo há dias, não vem?
Eu estava na cozinha, preparando um sanduíche que eu mal pretendia comer. Ele estava apenas a alguns metros de mim, mas mesmo assim me parecia absurdamente distante. Eu podia sentir seu olhar sobre mim, quase suplicante, mas não consegui retribuí-lo. Fingir que não o vi era mais fácil do que sustentar o peso daquilo que eu vinha guardando.
Queria dizer que ele estava mentindo, que tudo isso era culpa dele. Mas seria inútil. Porque, no fundo, nós dois sabíamos que ele estava dizendo a verdade. Eu estava estranha. Fria. Distante. E o pior: não era por algo que ele tivesse feito. Era por tudo o que estava dentro de mim e que eu não sabia mais como explicar.
Então apenas peguei o sanduíche, como quem termina uma cena sem dizer sua fala mais importante, e saí da cozinha. O deixei ali sozinho. Atrás de mim, ouvi um suspiro, aquele tipo de suspiro que carrega frustração, tristeza e um pedido mudo por respostas.
— Você precisa falar comigo. Você não pode me deixar se sentir culpado. — ele insistiu, vindo atrás de mim enquanto eu me sentava no sofá e ligava a televisão. O som da tela preencheu o ambiente com vozes que diziam tudo, menos o que realmente importava.
— Clara. Eu tô tentando falar com você. — ele continuou, a voz embargada por uma mistura de exaustão e medo. — Por que você tá me evitando? O que eu fiz pra você?
Ele não ia parar. E, de algum modo, eu sabia que ele merecia mais do que o meu silêncio. Então o encarei. Por alguns segundos que pareceram uma eternidade, deixei meus olhos encontrarem os dele.
Os olhos dele... estavam vazios. Não de sentimentos, mas de certezas. Esperavam por mim, por algo que os preenchesse, por qualquer explicação que aliviasse o peso invisível entre nós. Ele estava tentando entender. E eu... não conseguia lhe dar nada.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Amor em Jogo - Piquerez
FanfictionO que fazer quando o seu coração entra em uma partida sem avisar? Clara sempre preferiu viver longe dos holofotes que envolvem a fama de sua mãe, Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Enquanto se dedica aos estudos de publicidade e tenta encontra...
