Pais

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Eu sei. Eu sei.

Por aquele momento de silêncio, as palavras apenas ecoaram livres e cheias de significado, pela mente de Feyre e além.

Havia decepção nos olhos de seu parceiro. Tristeza, mas também alegria.

Sorrateiramente, Aelin se levantou do sofá.

— Vou deixar vocês a sós — e ela apertou a mão livre de Feyre com solidariedade.

Os olhos de Rhys não deixaram Feyre nem quando a rainha disse:

— Obrigada, Rhys — e ele assentiu.

E a curiosidade se tornou mórbida para saber sobre o que tratavam no momento que Rowan e ela entrou.

O macho também fez um aceno e completou:

— Se precisarem de alguma coisa, nos avisem — assim, deixaram o quarto mais rápido do que que se poderia notar.

Rhys se endireitou e soltou a mão de Feyre. Ele estava sentado à beira do sofá onde esta havia se deitado. Apoiando o cotovelo nos joelhos, seu parceiro encarou a mesinha de centro com interesse.

A fêmea amaldiçoou a própria burrice. Estivera tão concentrada e poupar Rhys do desespero e da preocupação, que não se importou em que consequências isso poderia trazer.

— Planejava me contar em algum momento? — A voz dele não passava de um sussurro.

— Rhys... — ela buscou se levantar, mas a onda de vertigem ainda estava ali, então voltou a se recostar nas almofadas felpudas.

— Jamais pensei que seria capaz de me esconder isso — a decepção era clara em sua voz.

E ela merecia. Aceitava aquele tiro no peito com prazer.

— Faz três semanas — começou ela, sentindo a garganta se apertar. Rhys não moveu o rosto para olhar para ela. Permaneceu encarando o vidro da mesinha de centro, arrasado. — Eu descobri e tudo que passou pela minha cabeça foi o desespero. Me lembrei do que me disse na época da guerra, no quão apavorado ficaria se eu ficasse grávida no meio da guerra...

Rhys se voltou para ela. Lágrimas marejavam seus olhos. O queixo dele tremia e ela teve de usar toda sua força de vontade para segurar as lágrimas que sufocavam sua garganta.

— Mas isso não quer dizer que eu não iria querer saber, Feyre! — Ele estava claramente frustrado. — Isso não quer dizer que eu não lutaria com tudo que estivesse em meu poder para manter você e nosso filho seguros.

Ele parou para respirar, levando a mão na boca. Uma lágrima cortou seu rosto e Feyre se segurou para não a limpar.

— Me diga que não estava pensando em... — mas ele não terminou a frase. Ao invés disso, se levantou, respirando pesadamente.

Feyre entendeu o que ele queria dizer quase imediatamente. Aquilo a feriu profundamente, mas ela podia entender o porquê de ele pensar isso, considerando o que escondeu. Com um esforço monumental, ela engoliu o resquício de enjoo e se pôs de pés, afundando as unhas nas palmas da mão.

— Acha que eu teria coragem de matar nosso próprio filho? Se acha isso, é um idiota! — sua voz saiu entrecortada pelas lágrimas que começaram a escorrer freneticamente.

— O que eu deveria pensar com você me escondendo isso? — Rhys estava confuso pelo choque. — Como conseguiu me escondeu isso, afinal?

— Madja — disparou, e foi como se tivesse acertado diretamente no coração de Rhys. — Ela me deu um elixir que retardava os sintomas da gravidez.

Ele soltou uma risada abafada pela incredulidade.

— Pela Mãe, Feyre — exclamou, atônito. — Isso poderia gerar efeitos colaterais.

— Eu estava pensando em você! — argumentou, entre arfadas, a mão na barriga. — Em como poderia adiar para poder achar o momento certo para contar a você. Nosso filho está bem. E desde o momento que soube da existência dele, tudo que fiz foi querer protege-lo também — e levou a mão na cabeça, quando a onda de vertigem a atingiu de novo.

Ela cambaleou, mas Rhys já estava lá, a envolvendo, a ajudando a se sentar.

Sem aviso, ele se ajoelhou diante dela, os olhos brilhando, e segurou seu quadril com a mão, puxando-a para frente. Feyre se preparou. O desejo e o alívio a atingiram conforme abria as pernas para deixar que Rhys se ajeitasse no meio dela. Seus rostos estavam pareados e ele ainda segurava seu quadril, os polegares fazendo círculos preguiçosos em seu ventre.

Feyre estremeceu.

— Vamos ser pais — ele saboreou as palavras conforme saíam de sua boca.

Ela fungou, limpando as lágrimas.

— Vamos.

Ele riu, contraindo os lábios. Depois, levou os lábios aos de Feyre e depositou um beijo suave ali.

— Não está com raiva de mim? — perguntou ela, quando ele se afastou.

Rhys a examinou minuciosamente.

— Ah, acredite, eu estou puto — assumiu. — Mas não com você e sim, com as malditas circunstâncias que a fizeram pensar que estaria me protegendo ao esconder que estava grávida. Com isso estou puto.

Exalando profundamente, Feyre deu uma risada fraca.

Rhys sentou sobre os calcanhares e puxou mais o quadril de Feyre para a beirada. Ali, ele depositou outro beijo demorado.

A onda de alívio a deixou tonta.

Quando ele ergueu os olhos, a esperança brilhava ali, tão branda e forte como quando ela disse que também queria um filho.

— O pequeno Rhendraek gosta de entradas dramáticas como o pai — observou Rhys, a mão acariciando a barriga de Feyre com devoção.

Ela franziu o cenho diante do nome.

— Desde quando sabe que é macho e desde quando escolheu o nome? E desde quando achou que eu concordaria com esse nome? — disparou a série de perguntas.

Rhys soltou uma risada de amante.

— Rhendraek é um nome tão imponente quanto Rhysand.

Feyre sopesou aquilo e se lembrou de um detalhe não claro naquela história toda.

— E como você descobriu?

Ele bufou, o sorriso sumindo quando a expressão se fechou.

— Gavriel deixou algumas memórias armazenadas em um lugar onde o poder de Bride não alcançou. Em uma dessas memórias, ela diz que você carregava um herdeiro. Imagine o meu choque.

Prendendo a respiração, ela imaginou. Como Rhys deve ter se sentido...

— O que mais?

Rhys hesitou.

— Rhys — advertiu ela. — Fale.

Ele a encarou profundamente e tudo parou quando explicou:

— Bride disse que eu não era apenas descendente de Nuada, mas que eu possuía os próprios poderes dela.

— E?

Sempre tinha um "e".

— Os descendentes seriam os únicos capazes de destruir o deus sombrio — murmurou ele, engolindo em seco.

Naquele momento, Feyre não temeu apenas pelo filho, mas pelo parceiro. Pelo futuro do mundo como o conheciam.


***

Bônus de hoje, coisinhas crueis e lindas. Até segunda :) 

(E peço desculpas por não estar conseguindo responder aos comentários. Mas saibam que eu vejo todos e adoro)

Corte de Fogo e GeloHistórias para pegar e não largar. Descubra agora