Capítulo trezentos e dezoito

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Second season:three hundred and eighteen
Porque você vale a pena ★

Abri os olhos e encarei o teto, tentando afastar os pensamentos que insistiam em me manter ali. Eu podia sentir Victor tremendo de frio, e ele me abraçou mais forte, como se estivesse buscando o último resquício de calor. Passei a mão pelos seus cabelos encharcados, num gesto automático, quase carinhoso. A água estava realmente gelada, especialmente para uma noite de outono.

Ele suspirou, quebrando o silêncio.

— Babi... você só usa preto? É alguma promessa ou coisa assim? — Ele perguntou, com uma voz levemente embriagada, e eu ri suavemente.

— Eu só fico bem de preto.

— Você é linda de qualquer jeito — ele disse, e eu senti minhas bochechas queimarem. — Ah, você tá com vergonha.

— Não precisava falar isso — resmunguei, tentando me recompor. — Odeio quando as pessoas me deixam sem graça. Mas... você desperta um lado meu que nem eu sabia que existia. É estranho... mas eu gosto.

Ele sorriu de lado, aquele sorriso meio torto que sempre fazia meu coração disparar.

— Babi... me desculpa.

— Pelo quê?

— Por tudo. Eu sei que você ficou chateada... Você diz que não liga, mas eu conheço seu jeito. Quando te dei o colar, queria que a gente parasse de brigar. Só queria que você parasse de me odiar.

Suspirei profundamente, sem coragem de olhá-lo nos olhos.

— Eu nunca te odiei, Victor — confessei, desviando o olhar para o chão. Aquela era a primeira vez que eu dizia isso em voz alta.

— Não parece... — Ele começou, mas eu o interrompi.

— É sério — insisti, soltando-me de seus braços, embora ele não tivesse intenção de me deixar ir. Coloquei as mãos no rosto, sentindo o peso de tudo que eu vinha guardando. Lá fora, o som da chuva batendo forte na janela encheu o silêncio entre nós. — Por que você ainda insiste em nós dois?

— Porque você vale a pena — ele respondeu, mas antes que pudesse continuar, as luzes da casa se apagaram. A água gelada de repente ficou ainda mais fria, nos fazendo tremer. — Ah, que droga...

Desliguei a ducha, e ele finalmente me soltou. Joguei uma toalha para ele e fui direto para o quarto, tentando me aquecer. Minhas roupas estavam encharcadas, e o frio já começava a me fazer bater os dentes. Meu celular estava sem bateria, e não havia muito o que fazer além de esperar a energia voltar. Me sentei no carpete ao pé da cama, abraçando os joelhos, perdida em pensamentos.

Victor entrou no quarto logo depois, ainda meio grogue.

— O que você tá fazendo no chão, anã gótica? — ele murmurou, e eu revirei os olhos. A luz de emergência que ele tinha não iluminava muito, mas dava para enxergar. Agora ele estava com uma calça de moletom azul e uma blusa de manga longa cinza, seus cabelos ainda molhados e bagunçados. Ele parecia exausto, mas ainda assim não resistia a me provocar.

— É carpete, tá confortável — resmunguei, sem dar muita importância.

— É outono — ele rebateu, e eu apenas dei de ombros, encarando minhas próprias mãos.

— Já voltou ao normal ou ainda é um bêbado sem noção?

— Defina "normal" — ele respondeu, fazendo aspas no ar. Eu o encarei com desdém, e ele riu antes de se jogar na cama. — Obrigado por ter ficado.

— Por que eu não ficaria? — provoquei, com uma ponta de frieza.

— Porque você sempre diz que a gente não vai dar certo, e vive mandando eu ficar longe de você — ele falou, com um tom melancólico que me pegou de surpresa.

— Tá chateado? — perguntei, irônica.

— Tô — ele respondeu com sinceridade. Eu ri, mas não havia realmente humor naquilo.

— Você não é o único.

— O que você quer que eu faça? — ele perguntou, com um toque de sarcasmo ainda embriagado, e sua voz soava embargada. Eu não consegui encará-lo.

— Já te dei todos os motivos para se afastar, Victor. Eu não tenho mais nada pra dizer.

— Então você tá deixando a decisão comigo? Ou vai continuar me afastando?

— Eu só não quero te magoar.

— Tarde demais, Babi. Eu já estou magoado. Mas... eu não vou me afastar.

E eu também não queria que ele se afastasse. Não consegui dizer isso em voz alta, mas estava lá, no fundo da minha mente. Suspirei.

— A gente não pode só... esquecer isso por hoje e parar de brigar por um tempo? — murmurei. Sabia que, no dia seguinte, nada daquilo importaria. Ele concordou em um sussurro, e eu me levantei.

O quarto de Victor tinha um aroma forte de perfume, misturado com aquela vibe nerd que ele tanto adorava. Havia pôsteres de filmes de ação, heróis, e todos os tipos de quinquilharias de hacker. A cama era enorme, convidativa, e eu senti meus músculos cansados implorando por descanso.

— Vai embora? — ele perguntou, com uma voz triste e esperançosa ao mesmo tempo.

— Não — respondi, quase num sussurro. — Você tem alguma camiseta preta?

— No armário — ele indicou com a cabeça, já ficando sonolento.

Fui até o armário e peguei uma camiseta preta, que chegava até metade das minhas coxas. Tirei minhas roupas molhadas e vesti a camiseta. Mesmo na penumbra, senti o olhar dele sobre mim. Por um instante, fiquei com vergonha. Mas então ele suspirou e bagunçou o próprio cabelo, como se estivesse tentando se manter acordado.

— Vai deitar ou não? — Ele perguntou, com uma voz manhosa.

— Tá me chamando pra dormir com você? — provoquei, rindo.

— Por favor... — ele implorou, num tom suave e carente.

Desviei o olhar, mas cedi. Eu estava cansada demais para ir embora. Deitei ao lado dele, e ele sorriu, abraçando-me com cuidado. Deitei minha cabeça em seu peito, sentindo seus braços me envolverem com gentileza. Ele afastou meu cabelo e depositou um beijo suave na minha bochecha, depois na minha testa. Fechei os olhos, deixando aquela sensação me acalmar. Seus braços em volta da minha cintura me deram uma sensação de paz que eu não sentia há muito tempo.

Não demorou muito para eu pegar no sono, completamente envolvida por ele.

case thirty nine:season twoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora