O casal teve uma menininha. Pele levemente bronzeada. Ela chegou sem nenhuma pressa. O casal teve paciência e esperou pelo momento certo, o momento que eles estivessem prontos.
Ariela, nome este dado por sua mãe, gatinhou pela casa, e depois correu em volta da mesa. Cresceu com os carinhos da mãe e os ensinamentos do pai. Cabelos negros como o carvão, olhos semelhantes a mogno e uma singela pinta abaixo do olho esquerdo. Uma jovem de rara beleza.
Ariela era muito apegada a família. Não era de sair, apesar dos pais sempre falarem pra ela conhecer pessoas, principalmente da idade dela. Mas isso não passava pela cabeça jovem. Ariela podia ser o que ela quisesse, ela tinha o poder da escolha... cantar, dançar..., infinitas possibilidades a vida proporcionava para ela.
Mas dentro dessas inúmeras possibilidades que o mundo colocava diante dela, a vida sempre tinha uma caixinha de surpresas.
Aquele dia não foi igual aos outros como de costume, ele foi diferente. A família de três, agora era de dois. Sua mãe não estava mais com eles. O sentimento, a dor... Somente o silêncio conseguia falar nesses momentos. E foi nesses momentos que Ariela começou a afastar-se e isolar-se de todos, ficando somente com ela mesma. Parecia que ninguém a compreendia mais. E para piorar, seu pai estava com outra pessoa. Como isso era possível? Então é assim que é o luto? Ele tem tempo? Prazo de validade? Passageiro? Não. Não para Ariela. Pra ela, o luto era eterno.
"Por que você está me evitando?" – questionou o pai quando percebeu a filha aproximando-se da sacada.
"Tenho que explicar?" – respondeu Ariela girando sobre seus calcanhares, mas pega pelo pulso.
"Ela não vai substituir sua mãe"
"Então manda ela embora" – soltando da mão do pai.
"A vida não pode parar, filha" – concluiu ele.
~~
O pai entrava e saía do palácio. Tinha livre acesso ao Salão-da-Coroa e ele era de grande relevância para o reino.
Numa dessas entradas e saídas para tratar de assuntos importantes com o rei e também com os conselheiros, ele passou pela Praça-dos-Lembrados e seus olhos avistaram uma pessoa, à princípio, achou estranho, mas quando prestou mais atenção, conheceu que era Ariela, sua filha, conversando com Kassia, a Dama da Guerra. Rapidamente mudou a direção dos seus pés e passou entre as colunas de mármore negro até sua filha.
"O que pensa que está fazendo?" – ele perguntou quando a pegou pelo pulso.
"Me solta" – pediu a filha.
"Volta pra casa"
"Aqui é minha casa" – disse ela. "Eles são a minha família"
"Sua família está em casa e aqui na sua frente"
"Não, pai" – tirou a mão dele do seu pulso bruscamente. "Família não abandona"
"Mas quem te abandonou?"
"Você, pai!" – disse Ariela. "Você abandonou a mamãe"
"Mas, filha" – falou o pai. "Ela morreu"
"E parece que você já se esqueceu dela" – andou para o lado. "Foi fácil pra você, né? Já colocou outra em seu lugar"
"Não foi fácil pra mim, se é isso que quer saber, tá!" – disse o pai aproximando-se da filha. "Só porque não ve o sofimento dos outros, não significa que não estejam sofrendo"
"Ah, pai, por favor! Você não sabe nem mentir"
"Eu não estou mentindo"
"Sei" - confirmou ironicamente.
"Só quero que entenda que a vida não pode parar por isso. Sim, eu sei, é difíciu. Sua mãe é, e sempre sera a melhor mãe do mundo. Nós só não podemos parar no tempo" – colocou as mãos no ombro dela que estava de costas para ele e chorando. "Vamos para casa. Vai ficar tudo bem"
"Não, pai" – disse ela. "Não dá pra mim continuar assim"
"Filha..."
"Sinto muito" – saiu.
"Ariela" – chamou por ela, mas não foi atendido.
Ariela passou pelas colunas de mármore e foi embora. O pai ficou do outro lado da Praça-dos-Lembrados vendo a filha sumir diante dos seus olhos. E o nome da mãe cravado na coluna da mármore negro, observou o distânciamento dos dois.
~~
Ela não falou mais com o pai. Entrou para o exército. Seus treinamentos eram bem agressivos, bem mais do que qualquer outro membro do grupo. Pouca eram suas palavras. E assim, no meio deles, ficou conhecida como Ariela, a Revoltada.
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The Guardians
FantasiO universo de "The Guardians" é repleto de fantasia, no qual, encontra-se bondade, maldade, companheirismo, individualismo. Por ironia, sorte ou azar, eles foram selecionados minuciosamente com habilidades distintas pelo destino. Explore esse unive...
