A Artista

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As crianças estavam sentadas ao lado dos seus pais, outros ficaram em pé junto com seus filhos. Burburinhos ressoavam entre eles. Mas segundos depois, foram cessados pelas cortinas que abriram-se sobre o palco a frente deles.

Essa era a vida de dois artistas: Boris, um senhor careca, bigode bem expressivo em seu rosto, vários bonecos e Samantha, uma menininha de franja, tranças e vestido, percorrendo as praças da capital de Dunsan e as ruas simples das cidades que pertenciam ao reino, cercados de aplausos inocentes, sorrisos contagiantes e olhares curiosos.

O começo não foi fácil. Apresentações vazias, ou no máximo um olhar curioso, mas que não ficava por muito tempo, logo ia embora. Entretanto, a paciência é uma arte. Eles eram artistas.

Os shows começaram a ter público, começaram a ter aplausos e pedir mais. De repente, um só lugar passou a ser dois, três, cinco... muitos lugares. Muito trabalho. A fama tinha chegado. Desconhecidos passaram a ser conhecidos.

Mas até para ter sorrisos e aplausos tem um preço. A cobrança veio de fora e de dentro. Apesar que de dentro, nunca deixou de existir. Sempre esteve lá.

Os aplausos chegaram aos ouvidos de Casclan, o Rei. A fama dos artistas foi colocada diante seu rosto, e ele não gostou. A arte mexia com a cabeça das pessoas. Esse mundo de fantasia dava possibilidades a eles e isso era uma ameaça ao reino.

Foram caçados.

As apresentações passaram a ser escondidas, sigilosas. Mas isso não era nada diferente do que Samantha passava por trás das cortinas, oculta dos olhos. Boris, seu tio, a tratava com mão de ferro. Era muito severo com ela. Errar um passo... ou esquecer um texto, era inadmissível.

Depois da morte dos seus pais, seu tio ficou responsável por ela. A arte passou a ser sua vida. Mas nunca poderia imaginar que para ganhar um abraço, seu corpo teria que ser marcado primeiro.

Fugir. Uma menina tão pequena num mundo tão grande, parecia fácil. Mas ela não tinha ninguém além do seu tio. Então, ela fez o mais difícil, sorriu. Suportou tudo com um sorriso no rosto.

Quando a apresentação acabou na casa de um morador, os vizinhos, parentes, amigos, começaram a retirar-se do local, porém, esse simples ato teve que ser contido. Soldados apareceram, dentre eles, Saikon, a Espada de Dunsan e Vanrror, o Major dos Royal. Alguns escaparam, mas muitos não tiveram a mesma sorte. O Poço dos Condenados estava esperando por eles. Um a um foram empurrados. O último implorou, mas o pedido de Boris não foi ouvido. Silenciou-se ao final do buraco.

Samantha continuou a fazer aquilo que ela foi ensinada: arte. Levar sorrisos e leveza aos corações das crianças e de todo aquele povo. Mas quando suas apresentações eram ameaçadas, ela colocava a frente dela a marionete de madeira que ela mesma tinha feito. Era semelhante ao seu tio em tamanho e batizou-a com o mesmo nome dele, para derrubar aqueles que queriam ver ela no chão.

Por que ela sempre dizia...

"O show tem que continuar" 

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