Levou o copo a boca. A borda do recipiente metálico tocou a barba por fazer. Dois goles e retornou o copo a mesa ao lado dos outros quatro grandes copos metálicos. Limpou a boca com a mão esquerda. Deixou algumas moedas no balcão e saiu. Seu turno havia acabado.
Caminhou até sua casa. Suas pernas trançavam um pouco e seus pés não conseguiam seguir uma linha reta. Seguiu três ruas a frente. Virou duas esquinas para a direita e três para a esquerda. A lua, toda redonda, observou o soldado de Ahnatnom entrar em sua casa.
Duas portas foram precisas para leva-lo onde ele queria; o quarto de sua filha. Luna sabia quem era. A noite iria se repetir. O pesadelo tinha forma e rosto. Era conhecido. Por isso que dava tanto medo.
Luna nem esperou ele falar, sentou-se na cama. As mãos do pai foram em seu cabelo, rosto... pernas. Os lábios dele até sua boca inocente. Ela gritava, mas ninguém ouvia. A presença do seu pai calava seus pedidos de socorro. Muitas vezes se lavava com pedras. Esfregava com brutalidade sua pele, na tentativa de tirar a vergonha, o nojo e a sujeira que cobria o seu corpo. Mas só se feria ainda mais. E a desculpa devido ao medo, era que estava com sintomas alérgicos.
Sua mãe, Amaris, não ficava atrás, também sofria nas mãos do marido. O pai possuía a filha e abusava de sua autoridade perante sua mulher.
Mãe e filha eram vítima de um monstro.
Dia a pós dia, as dores se repetiam, porém, ouve um momento que não continuaram mais, chegaram ao fim, mas não como elas queriam.
Amaris descobriu o que seu marido fazia com a própria filha, contudo, ele também descobriu que foi descoberto. E silenciou as duas para sempre, enterrando os seus corpos.
~~
DIAS DEPOIS...
"Hoje você vai para a Torre oeste" – ordenou um soldado.
"Sim, senhor" – respondeu ele.
Subiu vários degraus em espiral até chegar a parte superior. De um lado, toda a cidade e do outro... toda a vastidão do mundo feito de areia. E sobre sua cabeça, as estrelas e os governantes do cosmo. Ali ficou por uma hora com os seus olhos nas ruas e por sobre os telhados das casas. Seu turno só havia começado.
"Você tem uma dívida"
"Hã?"
"Hora de pagar"
"Quem está ai?" – questionou com sua espada em punho. Não tinha ninguém em volta. Até que reparou numa sombra projetada na parede. Não havia forma, mas os olhos totalmente brancos brilhavam dentro dela.
"Intruso! Intruso!" – alertou.
"Não adianta" – a sombra falou. "Eles estão dormindo por um tempo. Mas o teu sono será diferente"
A espada moveu-se duas, três vezes... mas só cortou o vento.
"Hora de pagar sua dívida, Rheet" – foi para o outro lado.
"Quem é você?"
"Você deveria preocupar-se com sua dívida" – disse. "E não em querer saber quem eu sou"
"O que você está falando?" – ainda com a espada a frente.
"Luna e Amaris"
"Quê?"
"Luna e Amaris" – materializou-se diante o soldado, revelando seu amplo chapéu e suas vestes gastas que cobriam todo o seu corpo.
"Não conheço" – desferindo um golpe, mas foi em vão. Então fugiu.
"Não minta pra mim" – disse Bill, o Cobrador, em sua forma fantasma.
Rheet correu por alguma ruas, passou pela grande fonte da cidade... subiu os trinta degraus e adentrou a colossal estrutura: O Salão-dos-Viventes.
"Ninguém foge do Cobrador" – argumentou Bill na perseguição.
Rheet caminhou lentamente por entre os corredores e atrás das paredes com sua espada em mãos.
Bill chegou ao Salão-dos-Viventes. Levou sua mão para trás, pegou seu rifle e colocou-se numa posição estratégica.
Tudo ficou preto e ao mesmo tempo branco dentro do seu campo de visão. Mas uma cor ficou em destaque. O vermelho. E o vermelho tinha forma. A forma de um homem. A forma de Rheet segurando sua espada atrás das paredes.
Três tiros. As balas não destruíram nada, apenas atingiram o alvo em destaque.
Perna.
Ombro esquerdo.
E a última no meio das costas.
Rheet caiu e arrastou-se pelo chão. Bill aproximou-se dele. Guardou seu rifle e ajoelhou. Rheet tentou levantar-se, mas sem sucesso. Apenas ergueu seus olhos diante daquele ser. Observou-o brevemente, e nesse curto momento, viu o colocando o dedo diante do rosto sem forma onde era pra ser a boca, que estava oculta a panos, e fazer um sinal de silêncio.
"Todos pagam suas dívidas, Rheet" – disse Bill quando deixou o Salão-dos-Viventes em sua forma fantasmagórica.
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The Guardians
FantastikO universo de "The Guardians" é repleto de fantasia, no qual, encontra-se bondade, maldade, companheirismo, individualismo. Por ironia, sorte ou azar, eles foram selecionados minuciosamente com habilidades distintas pelo destino. Explore esse unive...
