O formão e o martelo não cessavam. Os lábios sob o grosso bigode aproximaram da madeira e assopraram. O vento passou entre os sulcos feitos pelo formão e rolou-se no ar. O senhor afastou-se para ter uma melhor visão de sua obra. Mas, muito mais do que sua arte abstrata, era ver o seu filho, não de sangue, porque não eram compatíveis. A mãe deixara o pai e o pai engolido pelas águas, mas era vê-lo seguindo seus passos.
Porque nesses momentos, o artesão não se sentia sozinho, Tales estava lá, ao lado dele, assim como sua esposa fazia, antes dela ser morta por eles. O casal compartilhavam isso, esses momentos eram só deles... particulares, íntimos. Agora, os dois dividiam esses encontros. A solidão não existia ali, pois tinham um ao outro.
Tales gostava de fazer artesanato com o seu pai, mas ele queria poder expressar ainda mais seus talentos. Ele não queria ficar limitado só a terra, ele queria mais. Muito mais. Os olhos do garoto não desgrudavam do horizonte. Ele velejava sobre as águas em pensamentos.
Águas... seu pai era muito bom com ele. Concedia, permitia tudo o que o filho queria, mas apenas uma coisa era negada: o mar. Mas era isso que Tales tanto desejava. Ele queria a inspiração do mar, seus mistérios, sua vida. Porém, seu pai, reprimia os sentimentos do garoto em relação a isso. Era para o seu próprio bem.
No ateliê que eles ficavam, oposto aos portos, na parte de trás da ilha, onde mostrava-se a floresta, Tales saiu para buscar mais madeira, pois estava com um novo projeto em mente. Seu pai assim permitiu, mas o jovem mudou seus pés de direção, foi rumo os portos.
Quando chegou onde os veleiros atracavam, Tales esgueirou-se atrás de uma parede, depois outra e outra. Ele não podia enfrentar o mar, não tinha idade suficiente para isso, mas sua vontade era maior do que a proibição colocada sobre ele.
Correu até uma das ruinas da antigas estátuas da Rainha dos Mares e escondeu-se atrás dela. A Mulher-peixe estava com o seu tridente erguido na mão direita, mas sua cabeça não existia mais.
"Vamos, homens!" – ouviu uma voz grossa. "Temos que ir. Se demorarem para despedirem-se, não entrarão no barco" – era um homem gordo e careca. "Quanto mais cedo partirmos, mas cedo retornaremos" – finalizou quando entrou no veleiro.
Tales disparou para perto de algumas caixas que estavam sendo recolhidas próximo ao barco e num piscar de olhos, entrou em uma delas. Não precisou esperar muito. Sentiu ser retirado do chão e recolhido.
~~
Tales navegou por dias, semanas... meses, dentro do veleiro escondido. Passou por inúmeras estrelas, cruzou os mares... e nessas viagens conseguiu registar algumas criaturas aterrorizantes e extraordinárias.
Em uma das pequenas madeira que tinha levado, moldou nela com o seu formão um peixe. Na parte superior do seu corpo, as barbatanas eram semelhantes a espinhos e sua boca era comprida e fina, lembrando uma espada. Ele era muito rápido. Conhecido como, o Guerreiro. Em outro dia, esboçou outro ser vivo, mas este parecia uma criança, era muito brincalhão. Sempre pulava em volta do barco. Seu nome era Gargalhada, devido ao som que ele emitia. Três semanas depois, em um pedaço de madeira, ele fez o temor dos marinheiros. As conversas que ouvia em oculto relevaram que a viagem era para isso. Porque era esse terror que fazia o porto, as ruas e as casas de Sanin terem luz. A Anciã-das-Águas. Os pescadores diziam que ela derrubava as embarcações. Sua cauda cobria os horizontes e o chafariz que saía da parte superior do seu corpo, era semelhante a um pilar totalmente branco que tocava o céu.
Tales presenciou a noite cobrir todo o Azul-celeste e a lua revelar a temível criatura. A batalha percorreu todo o véu noturno e cessou-se quando aquele corpo colossal foi tirado das águas e colocado diante daqueles homens. Foi uma experiência que o jovem jámais se esqueceria. Entretanto, as emoções não acabaria ali. O terror que sentira, transformou-se em admiração uma semana depois, quando seus olhos puderam capturar e seus dedos deram forma a essas extraordinárias criaturas.
Os peixes eram semelhantes a prata. Suas bocas compridas, pareciam uma prisão. Os dentes eram expostos para todos os olhos. As barbatanas nas laterais dos corpos lembrava o vidro, de tão transparentes que eram, e quando abriam-se, eram semelhantes as asas das aves do céu. Os cardumes dividiam o tempo dentro das águas e sobre elas. Eram conhecidos como Mar-céu.
Entretanto, as águas de Sanin são traiçoeiras. Quando retornavam para a ilha, o horizonte deu a eles um mar revolto e um céu furioso.
~~
As águas cobriam e descobriam a areia. Ao fundo, a parede rochosa mostrava sua abertura. Lá dentro, Tales estava de modo fetal. A sua volta, as esculturas de madeira: o Guerreiro, um Gargalhada, a Anciã-das-Águas, a réplica de um Mar-céu...a fogueira estalava a sua frente. Sim, fazia vários dias que ele habitava dentro da gruta depois do incidente. Sozinho. Todas as noites sempre o mesmo pesadelo. Não, não o dia que ele desobedeceu seu pai, aventurou-se no mar e sofreu com a tempestade. Sim, tinha alguma coisa naquelas águas. Mas não foi isso. Todas as noites ele sonhava com o seu retorno para a casa, o seu pai olhando para ele. Olhando, olhando... e o rejeitando.
"Sai!" – disse o pai indo para trás.
"Pai" – falou Tales para ele.
"Fique longe de mim"
"Sou eu pai"
"Você é um deles" – disse o pai. "Como você pôde?"
"Não pai" – falou o filho.
"Não chega mais perto"
"Por favor" – pediu Tales.
"Você é das profundezas agora" – disse o pai.
"Não... por favor, não faça isso" – as lágrimas escorreram sobre seu rosto. Tales correu, correu, esticou os braços, mas não conseguiu alcançar seu pai, ele sumiu. Então acordou.
Seus dedos estavam nas mãos, mas seus braços estavam largos. Seu pescoço tinha guelras. Sua pele clara, tinha mudado de cor, ficou esverdeada... seu corpo não era mais o mesmo.
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The Guardians
FantasyO universo de "The Guardians" é repleto de fantasia, no qual, encontra-se bondade, maldade, companheirismo, individualismo. Por ironia, sorte ou azar, eles foram selecionados minuciosamente com habilidades distintas pelo destino. Explore esse unive...
