Decisão

8 0 0
                                        


O grupo foi muito bem recebido. Suas mãos não voltaram vazias, lebres e alguns cervos foram trazidos sobre os ombros para o meio da tribo e logo foram levados para serem limpos.

Minutos depois, outro grupo veio, este já estava fora há dias. Poucos membros. Adentraram a tribo. Questionamentos sobre a caça foram feitos. Suas expressões não eram boas, mas logo sorriram, brincando com a situação. Apontaram para aquele que estava atrás deles: Empereur.

Os passos eram lentos, mas firmes. A corda esticada vinha por sobre o ombro direito, e atrás... patas amarradas, boca e narinas amarradas também... o Encouraçado. Ao Norte, o Preza-de-Gelo era o animal mais imponente, mas ao Sul, quem ocupava esse cargo era o poderosíssimo Encouraçado. Um animal solitário, reservado, mas de grande poder destrutivo.

Empereur foi recebido pela tribo e principalmente por seu pai; Morin, o Senhor da Neve. Depois de toda turbulência que tiveram, conseguiram manter uma boa relação. Mesmo que essa relação precisou ser construída através da morte trágica de Kedra, sua mãe.

Quando a noite cobriu as terras pálidas, todos reuniram-se no Grande-Salão. As cumpridas mesas foram ocupadas pelos moradores. A grande fogueira ao centro mostrava sua presença. Pratos fartos e copos transbordantes. Na frente, Morin sentava-se na Cadeira-de-Carvalho, enquanto que seu filho o acompanhava do seu lado.

Um banquete estendia-se a frente deles.

Todos deleitaram daquele momento, pois, raros eram os dias que conseguiam caçar bastante coisa, e ainda assim, trazer para casa um Encouraçado. Os deuses foram agradecidos sobre as mesas dentro do Grande-Salão.

Tudo parecia bem... parecia. Mesmo com a normalidade dos dias no interior da tribo, Empereur sabia o que realmente estava acontecendo. Saudade... a saudade da sua mãe batia forte em seu peito, e ela vinha com dor e raiva. Ele não sabia se expressar muito bem. Não sabia usar as palavras. Então, ele usava o que sabia fazer de melhor; os machados.

Empereur isolava-se da tribo em alguns períodos do dia no meio das florestas, quando sentia esses sentimentos consumirem todo o seu coração. Ali ele travava os machados em seus dedos e batia-os com brutalidade contra os troncos juntamente com gritos; uma forma de esvaziar-se. Todos pareciam ter superado, mas... ele tentava. Esforçava-se para esquecer... mas não conseguia.

Os dias passaram-se, mas alguma coisa não estava normal; olhares e burburinhos aos cantos. Não era sobre o clima severo de Hurander, as caças... ou possíveis tribos invasoras, mas o assunto era sobre medo, insegurança.

A lua estava no céu. Os moradores em volta da grande fogueira. Morin na Cadeira-de-Carvalho e Empereur ao seu lado. Uma reunião tinha sido convocada. Os moradores relataram a instabilidade do comportamento de Empereur, através dos olhares das crianças que o observaram aos arredores da tribo.

Empereur acreditava que estava sozinho, mas a sua solidão estava sendo observada por olhares inocentes. As crianças, apesar de não serem permitidas fazerem isso, devido a não terem idade suficiente, afastavam-se da tribo, curiosas para saber como era o mundo para além das suas casas.

"Vocês sabem o que ele fez por vocês" – falou Morin. "Por todos vocês"

"Ele diz que tem controle sobre isso" – um morador apontou para Empereur. "Mas... e se esse monstro possui-lo por completo? O que será de nós? Mulheres, crianças... não podem ser ameaças por este animal"

"Isso jámais vai acontecer" – informou Morin.

"Já aconteceu antes" – falou outro homem. "Ou vocês se esqueceram das histórias? A Máscara-de-Lobo" – aproximou-se um pouco mais de Morin sentado atrás da mesa. "O homem que foi possuido por ela, e perdeu sua humanidade"

"A máscara foi quebrada" – falou Morin. "Eu vi com os meus próprios olhos quando o encontrei desacordado"

"Pior ainda" – alertou o homem. "Vejam o rosto dele" – apontou. "A cicatriz. Ele foi marcado. A besta está dentro dele!"

"Não podemos ir contra os deuses" – bradou Morin. "Se assim eles quiserem, assim será. E Vocês sabem disso"

"Sim, mas os deuses não permitirão que o povo seja amedrontado" – falou o homem. "E eu sei que você fará a escolha certa"

"Que escolha?"

"Você sabe"

"Está sugerindo que eu prenda o meu filho?" – indagou.

"Estamos querendo que faça alguma coisa" – disse.

Morin olhou para todos ali presente.

"Ingratos!" – gritou. "Todos vocês! Ingratos!"

"Então, Morin, o que vai ser? O seu filho ou Uren?" – questionou um terceiro guerreiro a frente.

As pessoas começaram a gritar no interior do Grande-Salão: Escolhe! Escolhe! Escolhe!

"Basta!" – levantou-se Morin da Cadeira-de-Carvalho. "Isso é um absurdo! É claro que eu escolho..."

"Uren"

"O que ?" – questionou o Senhor da Neve.

"Uren" – repetiu o filho, que estava todo aquele tempo calado, ouvindo e observando a tudo. "Ele escolhe Uren"

Morin o olhou sem entender.

"Sim, pai" – disse Empereur. "acho que o senhor estava certo" – colocou a mão em seu ombro direito. "É na ausência que protegemos quem amamos"

"Filho..." - disse Morin quase em sussurro quando pegou-o pelo braço.

"Já que vocês querem assim..." – disse Empereur. "Que assim seja" – tirou a mão do pai do seu braço, saiu de trás da mesa, desceu três degraus, passou pelo povo, contornou a fogueira e chegou a porta. Parou por alguns segundos. Todos o olharam. Morin, seu pai, o Senhor da Neve, o olhou com os olhos lacrimejados.

Então, Empereur, o filho, o Espirito da Noite, o Lobo, deixou a tribo.

The GuardiansOnde histórias criam vida. Descubra agora