O Salão Dos Viventes

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O rei do Azul-celeste já inclinava-se sobre as montanhas. A criança estava pronta, assim como sua mãe. Era a primeira vez dele, agora que tinha alcançado a idade suficiente para isso. Segurou na mão de sua mãe e saíram.

A casa ficava próxima do centro, perto da grande fonte. Andaram duas, três ruas a frente. Passaram sob longos tecidos que amenizavam o calor. Viraram uma esquina, e então, chegaram. O rosto do garoto foi recebido com trinta degraus. Logo em seguida, os olhos foram preenchidos com uma grande estrutura: oito colunas à frente e quatorze nas laterais. Qualquer pessoa perto da imponente construção, tornava-se semelhante a uma formiga.

No alto, em grande destaque, o letreiro exibia o nome do lugar: O Salão dos Viventes.

A mãe e o menino entraram.

O Salão ampliou-se em uma área circular. Grandes estátuas mostravam-se delimitando o círculo. Duas Bacias-flamejantes acomodavam-se em volta de cada uma. O teto abobadado não ocultava os corpos celestes. Escadas de poucos degraus estendiam-se ao lado das imagens. Atrás delas, nada podia ser capturado pelos olhos, pois estava oculto pelo véu da noite. Adiante um corredor levava a outras câmaras, assim como as passagens laterais, que não eram escondidas, mas mostravam a luminosidade de cada recinto.

O menino conduzido pela mãe, desceu as escadas e adentraram o corredor que estava à frente deles. Depois de duas câmaras, finalizaram na terceira. Era exatamente igual as outras: um ambiente circular com estátuas ao redor.

A mãe, juntamente com o filho, aproximara-se da estátua de um homem. Sua imagem não foi desenhada com armaduras, mas de roupas simples. Ele era ferreiro. Uma doença o havia tirado de sua mulher e filho. A mãe, então, ajoelhou-se e tocou nos pés do seu falecido esposo, incentivando o filho a fazer o mesmo. O menino hesitou.

Então ela olhou para ele.

"Não há o que temer" – disse a mãe. "Estamos todos na mesma estrada" – explicou para o filho que isso era o destino de todos.

O menino obedeceu, e entendeu que o pé significava o percurso, e o ato de tocá-lo, reforçava o entendimento de não temer o caminho.

Por fim, levantaram-se e retornaram para a saída. Lá, uma menina entrou com uma lamparina nas mãos. O rei do céu não encontrava-se em seu lugar, pois este, já estava sendo ocupado pela governanta da noite; a Lua.

A menina desceu as escadas e aprofundou-se no Salão pelo lado direito. Seu caminho foi iluminado pelas Bacias-flamejantes, pela prata da lua quando passava pelas câmaras e também pela luminosidade que carregava nas mãos. Mas no final do seu trajeto, não houve claridade, apenas a escuridão.

Levantou a mão direita diante a parede e inúmeras placas iluminaram-se. E todas traziam a mesma palavra: Morte. Ela, então, deu dois passos para a esquerda e tocou numa placa específica. Passou seus dedos naquelas letras frias.

Seu pai trabalhava nas minas, mas foi acusado de roubo. A Arena foi o seu destino e lá ele ficou. Sua mãe não tendo mais recursos, decidiu satisfazer os desejos dos homens para que sua casa não caísse, e assim ela fez. No final, a cama descansou seu corpo.

Sua família vivia longe do centro. Era inferior. Mas mesmo assim, todos vinham para o mesmo lugar. A diferença era que alguns podiam exibir seus nomes e suas imagens, enquanto que outros, não tinham nome e nem imagens para serem exibidas. Ficavam atrás das estátuas, oculto dos olhos e envolvidos a escuridão.

Ela chorou, pois, seu pai estava morto, mas não estava ali. E sua mãe estava morta também, mas nem seu nome, nem sua imagem estavam com ela. Somente a documentação de sua morte.

O Salão dos Viventes observou aquela jovem deixa-lo com os olhos molhados. E manteve em sua posse os pés das estátuas iluminados pelas Bacias-flamejantes e suas faces banhadas com a prata da lua. Mas as placas nas paredes, longe da luz, e envolvidas a escuridão.

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