Sardinha

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Mulheres passavam entre os homens com suas bandejas nas mãos, transbordando os copos e enchendo os pratos deles. Homens de chapéu, carecas, barbas, gordos e magros... deleitavam-se com as mulheres que os serviam.

No meio deles, um magralo exaltava seus feitos dentro da taverna.

Conhecido entre eles como "Sardinha", gesticulava, fazia caretas e alterava o som de sua voz. Quando estava para contar outra de suas grandiosas aventuras sobre o Mar Silencioso, uma mulher passou com uma bandeja com bebidas perto dele. Ele deu um tapa atrevido abaixo de suas costas. A mulher olhou com reprovação. Por mais que elas gostassem dos comportamentos dos homens que frequentavam aquele estabelecimento, elas não aprovavam ele.

Mas Sardinha bebeu e sorriu.

"Ela gosta. Então... como eu ia dizendo..."

"Ah, cala boca! " – falou um pescador depois de levantar-se.

"É verdade! " – retrucou Sardinha.

"Mentiroso" – comentou outro com o dedo apontado.

"Vocês falam isso, porque não estavam lá" – soluçou. "Mas é tudo verdade" – bebeu mais um pouco. "O mar é testemunha" – sorriu.

"Ah, sai daqui! " – foi jogado para fora da taverna. "Tá estragando a minha bebida"

A brisa salgada de Sanin bateu em seu rosto sobre o chão. Colocou a força em seus braços e nos membros inferiores. Levantou-se.

"Eles têm é inveja" – trançou um pouco suas pernas quando caminhou. "Porque eu navego e pesco muito melhor que eles. Pesco" – cambaleou. "Pego umas piranhas diferenciadas também" – deu uma risadinha e fez biquinho. Tropeçou e foi de cara na parede. "Ai! Doeu" – tirou a cara dos tijolos. "Hum... vou mijar" – falou. "Olha pra lá. O tubarão aqui é meio nervoso. HÁ! HA! – colocou a testa na parede novamente. "Quentinho" – suspirou.

"Eu lembro de você" – disse uma voz grossa.

"Todos lembram de mim" – falou. "Isso é bom" – sorriu com os olhos fechados.

"Você estava lá" – continuou.

"Claro que eu estava" – Sardinha afirmou. "Lá onde? "

Sentiu algo aproximando-se. Olhou para o lado: dentes pontiagudos fora da boca, pele pálida, cabelo negros, lisos e molhados. Um polvo no ombro esquerdo e no lugar do braço direito, uma enorme pinça de caranguejo.

"Vocês me abandonaram"

Sardinha caiu de medo. Arrastou-se de costas. Kahur com seu corpo curvo, foi em sua direção. De repente, Sardinha disparou por entre as vielas sob a noite estrelada.

Virou-se para o lado, depois para o outro. Passou por três estabelecimentos e mudou seus passos para a esquerda. Colocou as mãos sobre os joelhos para recuperar o folego. Depois de alguns segundos, levantou-se.

"AAAAA! " – gritou com a imagem de Kahur na frente dele.

Sardinha, então, girou sobre seus calcanhares para o outro lado, mas Kahur estava lá. Virou-se para o outro, e ele estava lá também.

"Quem é você? "

"Não sabe quem sou eu? " – indagou Kahur. "Pois eu sei quem é você" – falou com sua face pálida, molhada e cheia de dentes diante o rosto dele. "Você me deixou para morrer"

"Eu? Eu não, cara! " – disse Sardinha, disparando logo em seguida para o final da rua, rumo ao porto.

Correu, correu, correu.... mas parou. Deu um passo, dois... mas ao completar o terceiro, seus joelhos foram ao chão. Olhou para baixo. Seu peito tinha sido perfurado por um arpão inteiramente feito de ossos.

Caiu.

Seu corpo foi puxado lentamente para o interior da viela. Kahur pegou-o com sua enorme pinça de caranguejo e colocou diante dos seus olhos.

"Nenhum peixe escapada de mim"

Apertou o pescoço até ouvir um estalo. Deixou-o cair. Sardinha ficou estirado ao chão ao lado de uma moeda.

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