A Pedra Dos Perpétuos

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Tentou uma, duas... na terceira vez conseguiu abrir os olhos. Sentiu uma leve brisa cobrir o seu rosto. Olhou em volta ainda tentando se recuperar e ouviu burburinhos lá fora. Esboçou levantar-se, mas sentiu um pouco de dor na região de suas costelas. Passou a mão e seus dedos sentiram faixas em volta do seu corpo. Reconheceu a casa, era sua. Uma pontada veio em seu peito. Sua mãe não estava mais do seu lado. Não estava mais naquela casa. Não estava mais na sua vida.

Esforçou levantar-se. Sua cabeça ainda doía um pouco. Mas conseguiu ficar de pé. Ao lado havia uma bacía com água sobre uma mesa de madeira. Aproximou-se e colocou seu rosto sobre ela. Viu seu reflexo dentro da água, mas muito mais do que isso, viu uma cicatriz, uma marca. Pegava todo o rosto em diagonal. Era semelhante as garras de um animal.

Empereur tocou a ponta dos seus dedos nos caminhos que demarcavam sua pele e olhou por alguns segundos, mas logo foi desperto por uma voz atrás dele.

"Não há o que temer. Eles conhecem você e sabe o que fez por eles"

"Você que..."

"Sim. Eu o encontrei" – respondeu Morin, seu pai.

Ele o havia cuidado mais uma vez.

~~

Depois de três dias desacordado, Empereur tentou voltar a sua rotina, ao normal, mas não estava sendo fácil. Seu coração não era mais o mesmo. Era inquietante todas as vezes que ficava em silêncio e principalmente quando tinha que passar pelo centro da tribo.

Ele era um excelente guerreiro. Protegia o povo muito bem dos invasores. Sentia a dor do outro, mas era muito mais difícil quando sentia a própria dor. Quando vinha de dentro. Quando olhava para ela e via todos aqueles nomes cravados na pedra. Na Pedra dos Perpétuos.

A sua existência nunca tinha o machucado tanto, não como agora.

Nomes conhecidos, mas intimamente estranhos. Mas havia um nome. Conhecido. Profundamente íntimo, que clamava para ser escrito, mas ele não conseguia. Empereur não tinha foças para isso.

Ele a olhava de longe. Resistia. Fugia.

"Você é forte" – disse seu pai na porta do Grande-Salão. "Mas não tente segurar a força" – completou Morin.

"Eu falhei" – Empereur falou ajoelhado de cabeça baixa diante a Cadeira-de-Carvalho. Vazia.

"Não, filho" – comentou Morin, passando pela fogueira e ajoelhando do lado de Empereur. "De todos, eu sou quem mais falhou. Não sou digno nem de escrever o nome dela. Mas você é"

"Não, pai" – chorou.

"Será melhor pra ela" – disse ele. "Sua mãe iria querer que você fizesse isso" – colocou a mão direita no ombro do filho. "Não eu. Mas você. Não tenha pressa. Faça no seu tempo"

Empereur chorou e seu pai o envolveu dentro dos seus braços. Suas lágrimas escorriam do seu rosto e a grande fogueira abraçava a dor de seus corações.

~~

Sete dias passaram-se. Quinze dias passaram-se. Trinta dias passaram-se. O sol já havia caminhado pelo céu, e preparava-se para repousar atrás das montanhas.

Empereur caminhou para o centro da tribo. Muitas pessoas já haviam entrado para suas casas. Na mão direita um martelo e na esquerda, uma pequena haste de ferro. Colocou-se diante da pedra. Olhou para aqueles nomes, aquelas vidas... e posicionou as mãos no espaço que encontrara. Respirou fundo e começou a bater.

K-E-D-R-A... assim, ao final da tarde, Empereur deixou registrado o nome de sua mãe...

Kedra Hyden, a Líder de Uren. 

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