O Cruel

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Afastado um pouco da tribo, Hezmund posicionou-se atrás de um pinheiro caído, ao lado de sua filhinha. Pequenas facas ajuntavam-se entre os dedos da garotinha, enquanto que na mão direita, girava uma lâmina entre os dedos.

A menina respirou fundo e atirou. Num piscar de olhos, a faca fincou-se no tronco, a alguns metros a frente, porém, não no alvo marcado na superfície da madeira.

Outra faca colocou na mão direita. Concentrou-se e lançou. Mais um barulho seco sobre a madeira. A lâmina pegou na margem da marcação.

"Ah, eu não consigo" – disse a menina desapontada.

"Claro que consegue" – afirmou seu pai.

"Não sou como você" – falou ela quando abaixou a cabeça.

"Você é mais" – comentou ele depois de passar as mãos em seus cabelos castanhos. "Muito mais"

Ela olhou-o por alguns segundos.

"Mais uma vez" – disse Hezmund.

A pequena pegou outra faca, girou entre os dedos da mão direita e respirou fundo. Seu pai posicionou seu corpo. Falou para ela relaxar os músculos e direcionou seu braço no ângulo correto.

A menina olhou fixamente para o alvo, levou o braço para trás e atirou. A faca girou cinco vezes no ar e finalizou seu percurso com uma forte batida sobre o alvo. Bem no centro. As bochechas da menina alargaram-se em um sorriso.

"Consegui! " – pulou de alegria. "Eu consegui! " – abraçou seu pai.

"Parabéns! " – elogiou Hezmund. "Muito bom"

A menina, então, saiu de trás do pinheiro caído e pegou as facas na árvore toda empolgada. Quando retornou para o lado do seu pai, ele estava acompanhado por um membro da tribo.

"Filhinha, papai tem que resolver algumas coisas, está bem? "

"Sim, papai" – respondeu ela.

"Vai treinando, ok? "

"Ok"

Hezmund, juntamente com aquele homem, afastaram-se do local.

"Qual a situação? " – questionou Hezmund.

"Se todo mundo racionar..." – comentou o homem de cabelos curtos e barba. "Temos uma semana...duas no máximo"

Todos sabiam que caçar não era fácil sobre aquelas terras pálidas. A pouca comida que conseguiam juntar, não supria as necessidades da tribo.

No dia seguinte, Hezmund foi até o Barracão-da-Limpeza. Troncos na parte superior barravam a neve de cair dentro daquele local. Degraus feitos de pinheiros levavam até sua entrada.

O homem de cabelos curtos e barba por fazer, foi ter com Hezmund novamente, mas quando entrou na grande construção, espantou-se: corpos pendiam-se do teto. Alguns não eram inteiros, eram partes de corpos. Homens, mulheres...nus. A carne totalmente exposta amarrada pelos pés.

Espantado com tudo aquilo que seus olhos mostraram a ele, esboçou girar sobre seus calcanhares, mas foi impedido por dois guerreiros que o jogaram ao chão.

"Me larga! Me larga!" - exclamou o homem.

"Mas o que está acontecendo? Não era pra vocês estarem de guarda?" - questionou Hezmund.

"Não achamos que ia aparecer alguém" - falou o guerreiro de espada e escudo por sobre o homem caido.

"Merda!" - irrtiou-se Hezmund.

"Me solta!"

"Cala a boca!" - ordenou o outro guerreiro, com um martelo em volta de sua cintura, depois de chuta-lo.

"O que...?" - engasgou em suas palavras devido ao golpe que sofrera. "O.. que você fez?" - sua indignação saiu sob tosses e dores.

"Você faz o que é preciso para sobreviver" – falou Hezmund diante dele.

A maioria da tribo não sabia sobre aquilo. Poucos eram os homens que tinham aquele conhecimento. E aquele homem, agora, fazia parte desse grupo.

~~

Hezmund reuniu seus companheiros de caça e foram atrás de um grande animal, conhecido naquela região como Encouraçado.

"Papai vai atrás de comida" – ajoelhou-se diante da filha.

"Mas papai..." – ela não queria que ele fosse.

"Não se preocupe, querida" – tranquilizou-a. "Eu volto logo" – beijou sua testa. Levantou e  montou em seu animal de patas como o cobre. Pelos semelhante a prata. E os chifres que circulavam sua cabeça eram como o ferro. O carneiro foi em direção a grande porta de madeira na entrada da tribo. Hezmund olhou por sobre o ombro direito. 

"Vai ficar tudo bem"

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