O Distrito Dos Suspiros

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As botas passaram pelo portal. Os dois guardas a frente das colunas observaram a figura encapuzada. Não, não era estranho. Os caminhar já era conhecido, assim como os outros que faziam a mesma coisa naquelas horas. O sol deslizava para o horizonte e o horizonte pronto para recebê-lo.

A figura encapuzada deixou a Cidade-alta e passou pela Entre-cidades. As casas grandes deu lugar a casas médias, assim como as ruas largas deram lugar para as mais estreitas. Lugar onde o comércio, mostrava-se sempre ativo.

A face oculta pelo capuz negro passou pelas outras faces reveladas pelo fogo pendurados nas paredes, e direcionou-se ainda mais fundo em sua caminhada.

Chegou na Cidade-baixa, a paisagem não igualava-se com a anterior. As casas eram pequenas. A aparência mais degradante. As ruas não eram ruas, mas vielas que espalhavam-se em todas as direções. Tinha-se algumas áreas abertas como praças, mas tudo parecia estar consumindo-se pelo tempo.

As botas de couro chegaram a uma viela, mas não era uma viela comum como as outras, era um lugar de desejo, sedução...o Distrito dos Suspiros . Mulheresem em pé nas portas e outras debruçadas sobre as sacadas. Várias pernasdescobertas e vestes leves revelando a nudez dos ombros. A rua era comprida,e entre elas, becos nasciam e ziguezagueavam entre si. Um labirinto de prazer.

A figura olhou para o alto. Uma mulher brincava com seus cabelos entre os dedos. A mão do ser encapuzado foi até a porta. Seus dedos eram ásperos. Entrou. A mulher colocou-se presente. Tirou o capuz do rosto oculto. A face foi revelada. Ela já sabia quem era, pois quem escondia-se já era frequente para os seus olhos e para aquela casa.

Era o Comandante da Guarda. Beijaram-se.

~~

Uma regra foi estabelecida entre eles: não ultrapassar a linha. Porém, tal regra não durou por muito tempo.

A mulher virou mãe. Teve um menino. Ela não poderia tê-lo, mas o sonho de conceber uma criança, carregar em seus braços, chamar de sua, dar amor... foi maior. Contudo, a realidade a acordou. Pegou o sonho dela, jogou-o no chão e pisou em cima dele. Como cuidar? Como manter agora duas bocas? Subir para a Cidade-alta não poderia. Iriam despreza-la. Então convenceu o filho. Mandou antes que os Coletores viessem busca-lo. Melhor seria deixa-lo ir, do que vê-lo sendo tirado dos seus braços.

"Não, mãe"

"Sim, filho. Vai ser melhor pra você e para mim"

"Mas..." – tentou falar a criança.

"Lá você terá o que comer e o que vestir" – disse a mãe. "Terá uma vida boa, Hantter"

"Mas eu quero ficar"

"Por favor, filho, não torne as coisas mais difíceis. Obedece a mamãe. Eu só quero o que é bom para você" – passou a mão em seu rosto. "Promete que vai obedecer a mamãe? – enxugou as lágrimas que rolaram sobre as bochechas do menino.

"Prometo" – disse com os olhos para baixo.

"Esse é meu garoto" – afagou seus cabelos.

Hantter arrumou as poucas coisas que tinha e colocou em um saco e jogou por sobre o ombro direito.

"Por que papai não voltou mais pra casa?"

"Seu pai é um homem muito ocupado"

"Vocês não podem ficar juntos?"

"É complicado" – disse a mãe. "Coisas de adultos. Mas não fique triste, você vai conhecê-lo"

"Como eu posso ficar feliz, se vou deixa-la triste?"

A mãe recebeu aquelas palavras, mas não conseguiu responder ao filho. Apenas o abraçou e beijou sua testa.

"Agora vá"

Hantter continuava com os braços envolvidos a mãe.

"Vai, filho, vai!" – disse a mãe. "Agora!" – tirou os braços do menino do seu corpo.

O filho foi para trás com os olhos na mãe.

"Sai daqui!" – gritou. Seu grito saiu desesperado, doloroso... encharcado pelas lágrimas dos seus olhos.

~~

Hantter parou os dois pés na frente dos guardas. O sol inclinava-se e suas sombras estendiam-se sobre o chão. Então, ele ergueu os olhos e lembrou da frase que sua mãe falava para ele. Não sabia que ela já estava preparando-o para este momento.

"As crianças são o futuro da nação"

Um dos guardas chamou outro e este o conduziu para dentro.

~~

Emom, a Torre Indestrutível, um dos membros dos Coletores, visitou a mãe do menino, procurando por crianças. A mãe falou que já o tinha entregado ao reino. Emom olhou para o soldado que estava com ele na busca e não acreditaram. Muitos tinham o costume de mentir, para não entregarem seus filhos. Mas ela insistiu.

"Procurem por Hantter e saberão que falo a verdade"

Emom deu ordem ao soldado para verificar. Minutos depois de retornar da Cidade-alta, confirmou que havia verdade nas palavras da mulher.

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