A Árvore Dos Eternos

8 0 0
                                        


Ela não sorria. Mesmo se alguém fizesse uma brincadeira, seu rosto continuava o mesmo, não mudava. Ela não era assim o tempo todo, mas nessa época, a alegria não saía dela.

As crianças estavam uma do lado da outra. Arcos nas mãos e alvos na frente. Gallyty passava séria atrás delas, numa das salas de treinamento sobre a copa das árvores. Sky, deitado, assistia um pouco afastado. A Caçadora sempre encontrava um motivo para chamar atenção dos jovens: podia ser um movimento errado, posicionamento do corpo... a respiração. Tudo a incomodava.

Um dia antes, ela repreendeu uma garota quando estavam caçando, dizendo que ela não tinha ficado escondida direito, oculta dos olhos da presa. No final, o animal foi trazido para a vila, mas aquele comportamento foi inadmissível por ela.

Coldy percebeu que alguma coisa estava errada. Tentou aproximar-se, mas em vão. Foi rapidamente repreendido. Ela não queria ninguém. Então, o Rebelde foi até Laie, a representante da vila. A mãe dela.

Coldy passou por duas passarelas e por três longos galhos que ligavam as árvores umas às outras. Chegou onde Laie, juntamente com outras pessoas do conselho costumam ficar. Ali, o Rebelde indagou-a sobre o que estaria acontecendo com Gallyty. Então, Laie, a Sombra, falou pra ele que esse era um período de muita vulnerabilidade para sua filha.

"É um momento complicado para alguns" – disse Laie ao lado de uma janela. "Ela era muito próxima ao pai" – falou com os olhos para a Vila e com o dedo estendido para que seu passarinho, Kíki pousasse sobre ele. "A Árvore dos Eternos"

"Sim. Já ouvi falar algumas vezes entre os membros da Vila"

Laie tocou numa folha de um galho que estava ao seu lado.

"Temos o costume de visitá-la. Ela tem pendurada as flechas daqueles que não estão mais conosco. Então, atiramos uma flecha para o alto, em silêncio..." – passou a mão em seu arco. "Para lembrarmos deles e não esquecermos que, assim como as flechas atiradas dos arcos..." – parou e olhou para ele. "Nós partimos também" – aproximou-se dele e colocou sua mão esquerda em seu ombro esquerdo. "Cada um vive o luto de um jeito, entende? "

"Sim" – respondeu Coldy.

Quando deixou aquele local e passou por mais algumas passarelas, encontrou-se com a Caçadora novamente, mas seus olhos falaram o que sua boca não dizia: "Quero ficar sozinha". Assim ele o fez. Pois lembrara-se do tempo que tinha vivido em Nidon, na enorme Praça dos Lembrados; local onde as pessoas passam para não esquecer os que tinham partido e mantê-los vivos em suas memórias, mesmo que ele não tivesse ninguém cravado naquelas colunas de mármore negro.

Gallyty ficou distante, assim como Coldy, ficou longe, bem longe dela. Deu espaço. Tempo.

~~

Os dias passaram-se. A aurora vinha anunciando a grande estrela da manhã. Fora os Vigilantes que protegiam a Vila, alguém levantou bem cedo, parecia que nem tinha dormido.

Os galhos sentiram as patas, mas foi o céu que recebeu as asas abertas. Sky planou por alguns segundos. Bateu suas asas uma, duas... três vezes. Planou de novo. Não demorou muito e o local já estava debaixo dele. O felino pousou.

O terreno desse lado não tocava a face do outro. Um vale estendia-se no meio. O grande vale não temia em exibir suas sete quedas, exaltando suas belas cachoeiras semelhantes a cortinas. As espumas como as nuvens do céu, e as águas vestiam-se com o mais puro dos azuis. Celeste. E por sobre o terreno, destacando-se no horizonte, uma árvore. Uma soberana diante das outras. A Árvore dos Eternos. Não há quem possa abraçar seu tronco. Suas copas, seus galhos... estendiam-se como se fossem cobrir o mundo. Nem as Árvores-mães que são grandes, comparavam-se a ela.

Sky olhou para o lado. Ele não estava sozinho. Gallyty estava com ele. Ela olhou para o alto. Sentiu-se pronta. A Caçadora prendeu-se a árvore e subiu. Outrora, agarrou-se aos cipós. Minutos depois, chegou-se ao topo. Várias flechas penduravam-se em todas as direções, juntamente com faixas que traziam nomes escritos sobre elas, representando cada um dos seus membros. Como se fossem uma digital, uma marca, um registro. Mas uma era especial. A do seu pai. Vínci, a Primeira Flecha. E lá estava ela, no ponto mais alto da árvore, presa ao galho. Gallyty aproximou-se e a tocou sutilmente. Chorou.

"Sinto sua falta"

Logo em seguida, levou sua mão direita para trás e pegou uma flecha. Sky observou ela indo um pouco mais à frente do galho. Ficou diante dos primeiros raios solares. Embaixo dos seus pés o Vale-das-sete-Quedas. Ela armou o arco feito das Árvores-espinho, que seu pai deu a ela. Respirou fundo. Ergueu-o. Uma lágrima escorreu e a flecha foi atirada. Somente o farfalhar das folhas e o som das águas ecoaram no local.

Então, ela virou-se, e a surpresa pegou seus olhos.

"O que você está fazendo aqui? – ela questionou.

Coldy tocou na flecha do pai dela. Armou sua balestra no pulso direito e atirou para o alto uma flecha. Não tinha motivos para fazer isso. Vínci não era nada dele, mas mesmo assim, ele fez.

"Você disse que queria alguém do seu lado" – respondeu o Rebelde.

Os olhos da Caçadora molharam-se. Ela correu até ele e o abraçou. Coldy recebeu suas lágrimas e a deixou dentro dos seus braços.

The GuardiansHistórias para pegar e não largar. Descubra agora