O Bastardo

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O quarto era grande. Seis camas divididas uma sobre a outra em pares, espalhadas pelos três cantos do cômodo. Hantter deitou-se juntamente com outros garotos, mas não esqueceu o nome falado por sua mãe: "Mespher, Mespher, Mespher" – pronunciou em pensamentos.

Mespher, o Comandante da Guarda... era seu pai.

~~

Sua mãe estava certa. Ele tinha de tudo do bom e do melhor. Comida, bebida, roupas... treinamentos. Sim, treinamentos. Porque do lugar de onde ele vinha, as regiões abaixo da Cidade-alta, as crianças não tinham escolha. Tudo o que eles tinham era a submissão ao reino.

A escolha de sua arma foi fácil, muito rápida. Antes mesmo de Kassia, a Dama da Guerra, terminar de falar sobre a arma que escolhe a pessoa e não ao contrário, Hantter já estava com um arco e flechas nas mãos.

Hantter treinava todos os dias. As vezes era ataque com Kassia, defesa com Velfhus, o Líder dos Escarlate... ou em alguns momentos com os dois juntos.

Em um desses treinamentos, Hantter ouviu o nome tão esperado. Olhou em volta e encontrou soldados conversando um pouco afastados do campo de treinamento. E mais uma vez o nome Mespher surgiu naquela roda, e os soldados direcionavam-se para um homem específico de armadura negra e pesada. Hantter sentiu seus batimentos acelerarem, não pelo treinamento, mas pelo momento chegado.

Chamou-o, mas nada. Chamou-o mais uma vez. Quem sabe poderia convence-lo a voltar com sua mãe, e não ficar tanto tempo ocupado com o trabalho. Porque ele descia para vê-la, mesmo ela rejeitando, muita das vezes, a presença dele. Sim, escondido. Era proibido descer para a Cidade-baixa. Crianças que subiam não podiam mais retornar para baixo. Mas lá estava o momento. Não podia perder está oportunidade.

Deixou o treinamento e chamou mais uma vez, mas desta vez, não o chamou pelo nome, mas por um título de grande valor e poder.

"Pai!" – gritou Hantter.

De repente, pareceu que o tempo tinha parado. Tudo ficou em silêncio. Segundos tornaram-se eternos. Todo mundo olhou para ele, inclusive o homem do seu interesse. Mas da maneira que tinha começado, acabou. O ambiente voltou ao normal. Hantter ficou parado, olhando para o homem. Entretanto, o Comandante da Guarda, virou-se e deixou as costas para o garoto.

~~

Hantter tinha acabado de amarrar as botas. Acostumou-se com o local e sua rotina. Desceu as escadas do dormitório e foi rumo ao campo de treinamento, mas ante de ir para lá, foi puxado de súbito para um corredor ao lado.

Mespher, o Comandante da Guarda, pressionou-o contra a parede.

"Nunca mais repita isso" – falou sério. "Eu não sou seu pai" – deu um tapa na cara do garoto.

Mespher negou o título que o jovem tinha lhe dado: Pai. Mas o Comandante da Guarda não podia negar que os cabelos loiros escorridos sobre os ombros do menino, eram os da mãe, e os olhos azuis, eram iguais aos dele.

Mas Hantter, não disse uma única palavra. Apenas foi para o treino.

~~

Quando o sol já havia se inclinado atrás das torres e dos muros, os treinamentos haviam terminados e Hantter direcionava-se para o seu dormitório, mas foi neste momento que ouviu burburinhos no corredor ao lado.

"Você fez isso mesmo?"

"Estão falando que era você"

"Eu nunca me deitaria com uma p***"

Hantter conheceu a voz. Era de Mespher. E mais uma vez não disse nada. Suportou tudo, mas não escondeu o silêncio.

Não subiu para o dormitório. Vagou pelos corredores, salões, pátios... até sair no Bosque-Rubro, e ali sobre o banco, chorou. Chorou sob a prata da lua.

Um determinado tempo depois, sentiu algo em suas botas que o trouxeram de volta. Olhou para baixo. Seus cadarços estavam desamarrados. Eram jogados de uma lado para o outro. Mordidos e jogados de novo. A bolinha de pelos negros como a noite, olhos verdes semelhantes a duas esmeraldas... um par de pequenas asas que saiam dos dedinhos minúsculos das patas da frente e por fim, quatro caudas de ferrões em suas pontas, semelhante a lanças, brincava com eles. Um gatinho.

Tirou a bota e colocou-a em seu colo, assim como o gato.

"Cadê sua mãe?" – disse Hantter. "E o seu pai?" – o gatinho mordia o cadarço. "Será que você foi proibido de ver a sua mãe, e o seu pai não o aceita como filho? – passando a mão sobre o gatinho e acariciando suas orelhas. "O que eu estou falando? Claro que você vê sua mãe. O seu pai está sempre com você..." – seus olhos escorreram sobre suas bochechas. "Desculpa, mas... eu não queria chorar" – segurou o gatinho em sua frente por alguns segundos. "Eu tenho que ir. Levanto cedo amanhã e acho que você deveria ir também" – colocou o gatinho no banco e enxugou as lágrimas. "Sinto muito" – falou. Foi para a bolinha de pelos ou para ele mesmo? "Não deixa eles preocupados" – Amarrou a bota e saiu.

O gatinho miou. Hantter olhou pra trás. O gatinho miou novamente sentado sobre o banco. O jovem olhou para ele e mais uma vez seus olhos molharam sua face.

"Você também está sozinho" – disse Hantter. O gatinho continuou o encarando. "Tem razão. Não podemos ficar sozinhos"

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