De volta Ao Lar

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A neve caía e o vento corria entre as casas de Kaar. O chão pálido recebeu os pés dos patrulheiros naquele começo de manhã; seis homens. O líder deles, claro, Hezmund sobre o seu imponente carneiro, apontava a frente.

"Abram os portões!" – gritou o homem que estava na torre leste.

Dois homens removeram o pedaço de madeira que trancava o portão de duas aberturas, também de madeira.

Com o portão aberto, a Patrulha passou por ele. O caminho branco os levou para dentro da floresta.

As patas do carneiro colocavam-se a frente, mas os pensamentos de Hezmund não conseguia seguir o mesmo caminho. Somente duas expressões moravam em seu rosto: a raiva por não conseguir encontrar aquela que deu fim à vida de sua filha, e a tristeza por ter perdido sua pequena Seline, sua única filha.

Minutos depois de vagar pelas terras sem fim dos seus pensamentos, Hezmund gesticulou com a mão direita, um sinal claro para eles se separarem, assim cobririam uma área maior. Então, em dupla, dividiram-se.

Desceram dois terrenos e logo em seguida subiram outro, a leste. Não demorou muito e a paisagem abriu-se para eles: o Fim do Mundo. As lembranças voltaram sobre aquele local. Mas muito mais do que a batalha que ocorreu, Seline voltou a aparecer em seus pensamentos.

"Senhor" – chamou o seu parceiro. Mas nada. "Senhor" – foi chamado mais uma vez. Nada. "Hezmund!"

"Sim" – respondeu depois de despertar dos seus pensamentos.

"Está tudo bem, senhor?" – indagou o parceiro.

"Está" – confirmou Hezmund.

"É que não estamos sozinhos" - alertou o guerreiro. "Na floresta" – apontou.

"Certo. Vamos" – ordenou.

Quando entrou na floresta sobre seu carneiro, desembainhou seus dois machados; um na mão direita e o outro na mão esquerda, segurando a guia do seu animal.

"Olhos atentos" – alertou Hezmund.

Poucos foram os segundos para algo chamar a atenção deles.

"Ali" – apontou seu parceiro.

"Vamos!" – Hezmund foi a frente na captura.

Correram para leste, depois oeste, logo em seguia rumo ao norte.

O alvo perseguido, num súbito caiu. Hezmund parou com o seu carneiro e seu parceiro ao lado da figura suspeita.

Hezmund desceu do seu animal e aproximou-se. A pessoa tinha torcido o tornozelo. Armas semelhantes a facas, mas feitas de ossos, penduravam-se em sua cintura. Hezmund removeu o capuz que ocultava aquele rosto. E então... veio a surpresa. Era só uma criança. Mas não uma criança qualquer. Era Seline. Sua filha.

Seu coração acelerou. Não estava acreditando no que seus olhos estavam lhe mostrando. Ele tinha procurado por ela por muita luas, e nada. E agora os deuses colocaram-na diante de si. Seria isso possível?

"Filha?" – questionou. "Ah, filha... é você. Sim, é você" – percebeu que ela trazia uma cicatriz ao lado da testa. "Você está bem? O que houve?"

"Que? Filha? Quem é você?"

"Sim, Seline. Sou eu, Hezmund, seu pai. Você não lembra de mim?" – aquela indagação sobre ele bateu mais forte do que qualquer invasor que ele tivesse enfrentado.

"Ai" – ela gemeu pelo tornozelo torcido.

"Eu te ajudo" – sugeriu.

"Não" – ela recusou.

"Deixa eu te ajudar" – pediu.

"NÃO TOCA EM MIM!" – gritou. A negação machucou Hezmundo mais uma vez. Ela gritou ainda mais pela dor. Contudo, minutos depois de perceber que não conseguiria resolver sozinha, aceitou a ajuda daquele homem. Porém, nesse momento, a terra começou a tremer, as folhas a balançarem e as árvores abrirem-se diante deles.

"O que está acontecendo?" – perguntou o parceiro.

Hezmund rapidamente levantou-se e colocou-se diante deles com os machados-gêmeos a frente.

"BRUTUS, NÃO!" – gritou a jovem com a mão direita aberta.

Um imponente Encouraçado parou diante deles. Soltou sua respiração de suas largas narinas, que enrolou-se e dissipou-se no ar.

Hezmund permaneceu firme, porém, seu parceiro inclinou seus joelhos ao chão.

~~

A jovem foi levada para tribo de Kaar. Trataram dos seus ferimentos e uma grande festa foi feita em seu nome. Hezmund devolveu suas facas. Sim, era muita coisa para processar. Mas ela acostumou-se com aquele lugar. Aceitou aquelas pessoas. Agora não se sentia mais sozinha. Tinha uma casa. Amigos. Um pai. E agora ela tinha um nome. Foi complicado no começo, mas gostou de como ele era pronunciado. De como saía de sua boca.

Ela revelou a Hezmund como foi viver sem ninguém na praia, abaixo daquele enorme paredão branco. Como conheceu Brutus e de como concertou os seus chifres com pedras, galhos e cipós, depois de tê-lo encontrado com eles quebrados. Contou como sobreviveu a tudo.

Hezmund ouviu atentamente e não conseguiu esconder as lágrimas dos olhos.

Seline foi inserida na Patrulha, e assim, fez inúmeros patrulhamentos na proteção de Kaar. Porém, mesmo no meio daqueles guerreiros, alguns chamaram sua atenção, devido a um comportamento muito estranho.

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