Sacrifício

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O trovão ecoou no céu e abalou as estruturas da terra, anunciando a chegada da chuva. A janela fechada da pequena cozinha mostrou esse sinal para o homem e a mulher em volta da mesa de madeira.

"É isso que você quer fazer?" – questionou o marido.

"Já tomei minha decisão" – respondeu a mulher depois de deixar a mesa e ficar de frente para a lareira.

"Você vai privar o nosso filho" – o marido levantou-se.

"Não!" – disse a esposa. "Eu estarei dando liberdade a ele" – saiu de frente da lareira.

"Você não vai com esse tempo, né?" – perguntou o marido.

"O quanto antes melhor" – falou de costas para ele por sobre o ombro esquerdo.

"Você não está pensando direito" – comentou numa tentativa de fazê-la mudar de ideia.

"Você não entende!" – ela disse. "Prefere ele submisso ao reino?"

"Ele estará vivo"

"Preso" – lembrou ela.

"Você irá mata-lo!"

"Não" – ela disse. "E você sabe muito bem disso. Eu estarei livrando-o da morte"

"Por favor, não faça isso" – implorou.

"Já está decidido" – ela disse convicta de sua escolha. E saiu.

Por sobre a rua, seguiu alguns metros à frente. Virou uma esquina para a direita, depois para a esquerda e direita de novo. Seus olhos teimaram em escorrer sobre seu rosto. Mas ela rejeitou esse sentimento e enxugou suas lágrimas com as duas mãos.

"Eu não sou uma mãe ruim" – sussurrou. "É para o seu bem, meu amor. Porque eu te amo"

Trovejou e alguns pingos caíram sobre os telhados.

Uma rua estreita abriu-se diante dela. Cinco casas passaram por ela, mas a sexta ficou. Olhou para os dois lados, vendo se não tinha ninguém seguindo seus passos, nem observando seus movimentos. Ajeitou o capuz que cobria sua cabeça e ocultava seu rosto. E bateu na porta de madeira. Uma pequena abertura no meio da porta abriu-se e logo fechou-se. E então, ela foi convidada a entrar.

Quem a colocou para dentro, foi uma mulher de idade avançada. Seus cabelos grisalhos não escondiam o seu tempo.

"Por aqui" – pediu a velha.

A senhora levou-a até um quarto. Afastou a cama. Inclinou-se e levantou uma parte do piso de madeira. Uma escada e níveis inferiores mostraram-se aos seus olhos.

"Venha" – chamou a velha.

Desceram o estreito corredor iluminado pelo fogo que pendurava-se nas paredes. Uma segunda porta mostrou-se diante delas pela luminosidade das chamas ao final do corredor. A velha colocou a mão na maçaneta.

"Depois daqui, não há mais volta" – alertou a senhora.

"Vamos" – aceitou o destino.

Um outro cômodo revelou-se. Tochas nas paredes. Uma mesa de madeira no centro. E ao lado, outra mesa, mas de estrutura menor, com alguns objetos.

A mulher não esperou pela ordem da senhora e logo despiu-se da cintura para baixo.

"Pode deitar" – pediu a velha.

A mulher obedeceu.

"Abra as pernas"

Assim fez a mulher.

Os raios rasgaram o céu. O mundo lá fora gritava, assim como aquela mulher debaixo da terra. A chuva dissolvia dos telhados, e o sangue escorria por baixo da mesa.

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