A lâmina bateu mais uma vez na árvore. O homem passou as costas da mão direita sobre a testa, estava claramente cansado. Mas a lenha tinha que ser coletada. O tronco recebeu outro golpe, e outro, e mais outro. A árvore caiu. Assim, o homem aproximou-se dela e foi quebrando os seus galhos.
Voltou para a casa. Telhado de palha e paredes de madeira. Subiu cinco degraus. Levou a mão direita a porta e abriu. O cômodo o recebeu com um tapete de pelos no chão por sobre folhas. Levou seus passos à frente e colocou os troncos ao lado da lareira que ficava na parte central da casa, rodeada de bancos, também de madeira. Mas, muito mais do que ser recebido pela sala e seus objetos, foi ser recebido pelo beijo de sua esposa.
"Nossa" – ele disse. "Está tão feliz"
"Sim, estou muito feliz" – disse ela com outro beijo nele. "Estou sentindo, meu amor. Será a nossa vez" – outro beijo.
Ele abraçou-a e deram dois giros.
"Conseguimos" – ele disse diante os olhos dela.
"Conseguimos" – ela confirmou perante os olhos dele.
Foram 365 dias de luta. De expectativas, sonhos... frustações. A estação não era mais a mesma. A esposa estava convicta. Ela sabia. O corpo dela tinha mudado. Ela estava diferente. Sempre olhava seu reflexo na água, a mão na barriga e um sorriso no rosto. Nada e ninguém iria tirar isso dela.
~~
Ele atirou a lança na água, mas só atingiu as pedras ao fundo. Tentou mais uma vez, e nada. Outra vez, e outra, e mais outra. Até que por fim, conseguiu. Retirou o peixe da água e o colocou preso ao tronco, junto aos outros cinco. Colocou o madeiramento por sobre o ombro esquerdo e voltou para casa.
Levou seus pés aos degraus e entrou. A lareira estalava por causa da madeira consumida pelo fogo. Deixou os peixes de lado, mas desta vez, sua mulher não o recebeu com um beijo. Estava aos fundos da casa cortando alguns legumes, quieta.
Seus olhos estavam sem brilho. Ele aproximou-se dela e abraçou-a. Ela parou de cortar e uma lágrima escorreu sobre sua bochecha. Ela virou-se até ele e abraçou-o. Olhou pra ele logo em seguida.
"Desculpa" – mais lágrimas. "Eu estou tentando"
"Ei, calma" – acariciou seus cabelos. "Tudo bem" – beijou sua testa.
"A culpa é minha. Eu quero, mas não consigo"
"Olha pra mim" – ele pediu. "Você não tem culpa de nada"
"Eu não sou boa o suficiente. Os deuses não me veem como uma boa mãe" – olhos tristes. "Mas eles prometeram!" – lembrou ela.
"Você é boa e é uma ótima mãe" – incentivou-a.
"Mas não temos filhos" – lembrou ela para ele.
"Não importa" – ele disse depois de acariciar seus longos cabelos novamente. "Mesmo sem filhos, eu a vejo como uma boa mãe" – beijou seus lábios.
"Por que você é tão bom comigo?"
Ele sorriu para os olhos tristes dela, e assim, ela descortinou um sorriso para ele também.
~~
Ele estava aos fundos da casa, na parte de fora, limpando alguns animais. Retirando o couro, separando para a casa e proteção para o corpo, contra o frio daquelas terras pálidas. Ele e ela não encontravam motivos para continuarem tentando, já haviam perdido as esperanças.
Porém, seus corações continuavam inquietantes. Ele sonhara com labaredas de fogo rodeadas de gelo por todos os lados, e o fogo não se apagava. Sua esposa compartilhou algo semelhante, mas o gelo estava dentro do fogo e ele não derretia.
"Será um sinal dos deuses?" – questionou ela para ele.
"Talvez" – respondeu.
"Eu não quero me frustrar e nem magoar você"
"Não, não, não..." – ele disse. "Olha pra mim. Eu estou aqui. Eu sempre estarei aqui"
"Não sei mais o que fazer" – a tristeza cobriu sua face.
"Nem eu. Mas de uma coisa eu sei" – ele comentou. "Eu te amo"
Os olhos dela escorreram sobre o rosto.
"Eu te amo" – falou pra ele.
~~
TEMPO DEPOIS...
Lá fora, as árvores não tinham folhas para segurar, mas dentro daquela casa, os braços da mulher ficaram ocupados. Hassir havia ganhado um novo habitante. Um pinguinho de gente. Seus cabelos não eram negros como a noite e nem castanhos como as árvore. Mas eram brancos como a neve e laranja-avermelhado como o fogo. Seus olhos traziam as mesmas cores dos cabelos; branco para o olho esquerdo e laranja-avermelhado para o olho direito.
Certo dia, o pai mostrou um martelo para o filho, dizendo que essa seria sua arma. Mas o menino foi tirado dos seus braços pelo irmão de sua mulher que veio ver a criança.
"Claro que será um machado" – mostrou sua arma com o menino em seu colo. "Ele é um Makífi" - referindo-se ao nome da família.
"Parem com isso" – alertou a mãe depois de pegar o filho dos braços do irmão. "Ele é só uma criança" – lembrou ela. "Né, meu amor?" – falou para o filho. "Eu sou uma criança, ainda" – mudou o tom de sua voz. "E eu estou com soninho" – levou-o para dormir.
~~
O manto negro cobriu as terra brancas de Hassir. Mas aquela noite não seria uma noite comum como as outras.
Hassir foi invadida. Seus moradores saíram para proteger seus animais. Luke, a Promessa dos Deuses, ficou em casa e viu tudo pelo arco de sua janela. Viu escudos, espadas, machados e lanças... gritos. E um grande animal. Os dentes semelhantes a facas, e o pelo iluminado pela lua, vermelho como o sangue, rasgar os corpos em sua frente.
Tudo isso mexeu demais com as suas emoções.
No meio do confronto, os pais do menino foram chamados atenção. No terreno elevado, não acreditaram no que seus olhos mostravam para eles. Uma casa em chamas. A casa deles estava pegando fogo.
"NÃO!" – gritou a mãe.
Foram rapidamente para lá. Quando aproximaram-se, Metade da casa estava em chamas, mas a outra... completamente congelada. Não entenderam muito bem, mas entraram mesmo assim. Avistaram o menino sentado de cabeça baixa entre os joelhos, no meio do fogo e do gelo. Chamaram pelo seu nome, mas ele não respondeu. Chamaram novamente, mas nada. Então foram socorre-lo, mas foi em vão. O pai foi queimado vivo. Um pedaço do telhado em chamas caiu sobre a mãe, matando-a no mesmo instante. O menino gritou e projeteis de gelo perfuraram o seu tio quando aproximou-se, prendendo-o contra a parede de gelo.
A casa foi consumida pelo fogo. E ao mesmo tempo... congelada... brutalmente.
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The Guardians
FantasyO universo de "The Guardians" é repleto de fantasia, no qual, encontra-se bondade, maldade, companheirismo, individualismo. Por ironia, sorte ou azar, eles foram selecionados minuciosamente com habilidades distintas pelo destino. Explore esse unive...
