CÓPIA E PLÁGIO É CRIME!!!
DIREITOS AUTORAIS RESERVADOS!
Uma garota com tendências suicidas
cruza o caminho de um
Assassino em série.
Oque pode dar errado?
TUDO.
Rafael foi diágnosticado com psicopatia aos treze anos de idade,
e entendeu o motiv...
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Ainda estou viva... Pensei, enquanto a água quente caia sobre mim, mas não derretendo o gelo que eu carregava dentro do peito. O vapor encheu o banheiro, embaçando tudo, enquanto me encostei na parede de azulejos, os ombros pesados, como se ainda carregassem cada dia que passei internada. Semanas no hospital, tubos me prendendo à vida, máquinas zumbindo como um lembrete cruel de que eu falhei. Em mais uma inúmera tentativa de suicídio. Eu não queria estar aqui. Não queria abrir os olhos naquele quarto branco, com o cheiro de desinfetante queimando meu nariz e os murmúrios dos médicos me cercando. Eu queria o fim. O silêncio. Mas a vida, como sempre, me puxou de volta, me forçando a enfrentar o que sobrou de mim. E isso dói. Dói como uma ferida que não fecha, uma melancolia que sussurra que estar viva é um fardo que tenho que carregar de qualquer jeito. Olho para meus pulsos, expostos sob a água. As cicatrizes estão lá, vermelhas, tortuosas, formando um padrão que me faz engolir em seco. Não são apenas cortes. São letras. Rafael. O nome dele, cravado na minha pele como uma marca que não posso apagar. Cada traço é uma lembrança do quanto me perdi nele, do quanto deixei ele me moldar, me quebrar. Toco as cicatrizes com dedos trêmulos, e a dor não vem da pele, mas de algum lugar mais fundo, onde meu coração ainda sangra. Estar viva é carregar isso. É saber que ele ainda está em mim, mesmo depois de tudo o que fez. Mesmo depois de estar morto. Morto... Ah... Eu preciso enterrá-lo também... Sim. Droga. Desligo o chuveiro, e o silêncio me engole. Enrolo a toalha no corpo, os cabelos loiros pingando no mármore frio. Caminho até o espelho, limpo o vapor com a mão e encaro meu reflexo. Meus olhos estão mais opacos que nunca, escuros como o fundo de um poço e profundos como um espiral, já que, eu lidava com o fato de mais uma vez estar viva, e de ter me tornado quem eu mais temia... Alguém como ele. Alguém com sangue sob os ombros, os tornando pesados. Mas, pelo menos o peso do que causei será encerrado hoje, vou acabar com isso. Na casa dele. Onde os corpos de Lizzie e Laurie ainda estão, jogados, destruídos. Preciso enterrá-los e fingir que nada aconteceu, Não por elas, mas por mim. Por Ethan. Porque ele não merece ser puxado para o abismo que eu criei. Para essa bagunça que sou. Mesmo se oferecendo pra me ajudar, eu neguei. Já que não quero envolvê-lo nisso, Ethan é um anjo, um doce anjo, e eu só queria ser pra ele a Claire que ele conheceu antes, a partir do momento em que colocasse um fim em todos aqueles corpos: eu queria voltar a ser a Claire doce, gentil, amável e inofensiva. E eu seria, pra ele. Meu liam... Que tanto cuidou de mim e me protegeu, por mais que eu não merecesse... Sinto que... O amor que tanto busquei em Rafael que na verdade, nunca me amou, estava o tempo todo nele. Em Ethan. Sempre esteve. Mas então, enquanto seco os cabelos, minha mente me trai, como sempre, e me leva de volta a Rafael. logo quando eu estava pensando no quão doce Ethan tinha sido comigo, no quanto ele realmente me amava, mas as lembranças vêm sem pedir licença. Talvez porque vou voltar à casa dele agora, onde tudo desmoronou. Ou talvez porque ele ainda é uma ferida aberta, mesmo que eu queira arrancá-lo de mim. Eu o conheci numa sorveteria, num dia que parecia querer me engolir inteira. Eu estava com Ethan, tentando escapar dos meus pais, que não paravam de ligar, suas vozes cortantes saindo pelo celular "Volta pra casa agora, Claire! Ingrata, inútil!" Cada ligação era um soco, e eu mal conseguia andar direito, Ethan tentava me distrair, falando sobre qualquer coisa, mas eu estava tão perdida que mal ouvia, e as ligações insistentes dos meus pais me deixavam ainda mais perdida. Então fui até o banheiro, e com as mãos trêmulas atendi o telefone, sendo chingada e maltratada por eles mais uma vez, rapidamente desliguei, e chorei ao ser machucada novamente pelos meus pais com palavras, e então, sabendo que eu não poderia ficar a vida toda ali, sai do banheiro, chorando e tremendo, fora de mim, até que esbarrei em alguém. Um sorvete caiu, manchando a camisa de um cara alto, e quando olhei pra cima de relance pude ver melhor, ele tinha cabelos pretos suavemente penteados pra trás e olhos que pareciam ver através de mim. Ele me segurou pela cintura com cuidado, firme, mas não agressivo, e perguntou, com uma voz calma que contrastava com o caos na minha cabeça: "você está bem?" Eu não estava. Não estava nada bem. Mas ele não me soltou até eu assentir, atordoada, murmurando um pedido de desculpas. Ele sorriu, e não se importou com a mancha do sorvete, não me julgou por estar à beira das lágrimas. Eu, desesperada e me chingando mentamente por ser tão desastrada, disse que pagaria a ele outro sorvete, mas ele recusou com um olhar suave, e disse que o importante era que eu estava bem. Mas então, senti meu celular vibrar de novo com mais uma ligação dos meus pais. Ele percebeu, eu acho. Não disse nada, mas seus olhos me seguiram enquanto eu me afastava com Ethan. Naquela noite, decidi voltar para casa sozinha, mesmo com a chuva caindo forte. Eu precisava enfrentar meus pais, ou pelo menos era o que eu dizia a mim mesma. Mas no caminho, sob o aguaceiro, percebi que alguém me seguia. Um homem velho, com um casaco surrado, os olhos brilhando com algo que me fez gelar. Ele se aproximou, murmurando coisas que não entendi, mas que fizeram meu coração disparar. "Vem cá, garota," ele disse, a voz arrastada, e eu congelei, o medo me travando. Foi então que Rafael apareceu. Não sei como ele estava ali, mas ele estava. Ele não hesitou. Puxou uma arma, e antes que eu pudesse processar, o som de um tiro cortou o da chuva. O velho caiu, o sangue se misturando às poças no chão, a cabeça agora era nada, e seus miolos haviam se transformado em fogos de artificio, manchando o chão de vermelho. Rafael então abaixou a arma, e em pé diante de mim, com sua grandeza e força, Disse baixo, com sua voz grave e rouca, com uma calma e naturalidade que me assustou: "Uh... Que estrago." E então, a partir daquele dia, nossos caminhos se cruzaram para sempre. Em um imenso loop de loucura, me mantendo cativa entre amor e mortes, e além de tudo, sem saida, eu me agarrei a ele, porque ele era tudo o que eu nunca seria: grandioso, forte, perigoso, e também... Carinhoso as vezes, e como eu nunca fui amada corretamente pelos meus pais, eu cai. Cai nos braços dele. Enfim, foi esse o nosso início. E agora, ele chegou ao fim. Pego o pente e passo pelos cabelos molhados, os fios loiros se emaranhando antes de cederem, enquanto eu ainda pensava. Rafael não era um herói, muito longe disso, na verdade ele era um predador, e eu era a presa perfeita. Ele gostava de me ter frágil, dependente, uma garota que ele podia salvar só para mantê-la sob controle. "Você é minha, Claire," ele dizia, e eu sorria, porque achava que era assim que o amor funcionava. Eu não sabia que amor não prende. Não sabia que amor não deixa marcas que você precisa esconder. E então vieram as mãos. As mesmas que me seguraram com cuidado naquela noite agora apertavam forte demais, deixando hematomas que eu cobria com mangas compridas, ou que arrancavam meus cabelos com força, Os beijos e os carinhos viraram moedas de troca, e eu não os teria se não me quebrasse inteira por ele. Mas como eu estava tão acostumada a ser machucada pelos meus pais, deixei acontecer. Porque achava que merecia. Porque sempre me fizeram acreditar que eu não valia nada. E então veio a traição que me quebrou de vez. Lizzie e Laurie. As garotas que passaram anos me destruindo com bullying, com risadas cruéis, bilhetes no armário dizendo que eu era um erro. Eu as odiava, sim, pelos apelidos, pelos empurrões, pelas humilhações. Mas o que me fez matá-las não foi só isso. Foi Rafael. Ele me traiu com as duas. Ao mesmo tempo. Na minha frente, na casa dele, como se fosse um jogo. Eu os vi, os corpos entrelaçados na sala, na mesma sala onde dançamos juntos pela primeira vez ouvindo a droga da música do Bruno Mars. Moonshine. Ah, agora eu vou odiar essa maldita música pra sempre... Eles continuaram enquanto eu ficava ali, paralisada, o coração se despedaçando. Lizzie olhou para mim, com aquele sorriso de veneno, e disse: " Ah, ótimo, a suicida chegou" E " sai daqui garota, não vê como estamos ocupadas aqui com o seu namoradinho?" E ele, Rafael... ele só me encarou, como se estivesse me desafiando a reagir. Como se quisesse me ver perder o controle. E então algo em mim estalou. Não era mais dor. Era raiva. Uma raiva tão grande que apagou tudo. Peguei a faca que estava na cozinha, e quando dei por mim, as duas não passavam de dois cadáveres. O som dos gritos delas ainda ecoa na minha cabeça, mas naquela noite, eu não senti nada. Só o vazio, maior, mais profundo, me engolindo inteira. Abro o armário e pego uma calça jeans azul escura, colada nos quadris e larga dos joelhos pra baixo, e uma blusa curta de mangas compridas preta, algo discreto, que não chame atenção. Algo fácil de limpar. Enquanto me visto, penso no que farei. Rafael matou meus pais, sim, mas fui eu que dei fim a maldita vida daquelas duas vadias. E agora preciso apagar as provas, e sozinha, porque Ethan não pode ser arrastado para isso. Ele já fez demais, me segurando quando eu estava caindo, me trazendo de volta quando eu só queria sumir. Calço um all star preto também, amarrando os cadarços com dedos firmes, embora por dentro eu esteja tremendo. Pego meu celular, colocando-o no bolso. E antes de sair do quarto, olho para o espelho uma última vez. Meu rosto está pálido, meus cabelos como sempre, estão cobrindo os olhos, mas eu estou decidida. Não é coragem. É necessidade. Rafael me marcou, me traiu, me transformou em algo que eu não reconheço. Mas hoje, vou enterrar o que sobrou disso tudo. do que aconteceu naquela casa, e de toda essa droga de relacionamento que tivemos. Desço as escadas, o eco dos meus passos preenchendo a casa silenciosa. Penso em Ethan, no café da manhã que ele preparou, no jeito que ele me olhou como se eu ainda fosse algo que valesse a pena salvar. Ele não sabe sobre a traição de Rafael com Lizzie e Laurie. Não sabe que foi isso que me levou a sujar as mãos de sangue. E eu nem sequer sei como contarei a ele. Abro a porta da frente, o sol timido, cinza e frio batendo em minha pele, mas então, sinto passos apressados e uma mão em minha cintura. - Claire? a voz de Ethan é ofegante, e ele gira meu corpo com delicadeza, me fazendo encará-lo. Seus olhos estão arregalados, e o jeito como ele me segura é como se temesse que eu evaporasse se ele me soltasse por um segundo. - Você ia sair sem dizer nada? ele pergunta, com a testa franzida, antes que eu pudesse dizer algo. Suspiro, desviando o olhar, os cabelos caindo sobre o rosto, cobrindo os olhos. - Eu preciso ir e terminar com isso tudo logo, e preciso fazer isso... s-sozinha. Levantei minimamente o olhar para ele, enquanto ele negava. - Não, Claire, não... ele balança a cabeça com força, como se minhas palavras o ferissem. -Você não tem que fazer nada sozinha, até porquê você não está mais sozinha, então porfavor... Me deixe ir com você, me deixe te ajudar, me deixe... Estar ao seu lado, meu anjo... - N-Não posso... Eu disse, o cortando com a voz baixa. - Por quê? a dor na voz dele me fez estremecer. - Você não pode me deixar te acompanhar porquê está tentando me proteger de uma coisa que eu já escolhi enfrentar quando decidi ficar do seu lado? Eu não digo nada. Só o encaro, vendo meu doce Ethan, mesmo comigo em uma situação tão deplorável e nojenta, sabendo quem agora sou, se doar por completo para estar comigo, independente do que tenha acontecido. Ou do que eu tenha feito. - Olha, m-meu anjo... ele abaixa o tom, mais suave agora, mas ainda firme. - Eu sei que você acha que vai me afundar junto se eu for com você. Mas quer saber? eu já me afundei. Me afundei em você. E se for pra afundar de vez, que seja ao seu lado. Minha garganta aperta. Ele continua: - Eu te amo. Mesmo com todas as partes quebradas, Mesmo com tudo que você acha que me afastaria, você ainda é a minha Clarinha, sempre será... Sinto meus olhos arderem, mas não deixo cair nenhuma lágrima. Não posso. Não agora. - Ethan... sussurro. - m-mas você não entende, eu sou uma assassina, uma maluca, Rafael acabou comigo, acabou com tudo, não restou nada... - Restou sim. ele responde sem hesitar. - E com o tempo eu vou te mostrar isso, eu juro. Ele se aproxima, com a respiração quente perto do meu rosto, e coloca a mão em meu rosto com tanta ternura que chega a esquentar, naquele frio tão doloroso. - Então por favor, Claire. Me deixa ir com você. Nem que seja só pra te segurar se você quiser cair de novo. Fecho os olhos, por um instante apenas, e o peso de tudo ameaça me esmagar ali mesmo, então eu respiro fundo, sentindo as palavras dele me atravessarem como um trem em alta velocidade. Ethan... sempre ele. Tão inteiro, tão disposto a entrar na tempestade só pra me alcançar. Por um segundo, eu quase cedi. Quase disse "vem comigo", quase me joguei nos braços dele e deixei que cuidasse de tudo, como sempre fez. Mas isso... isso é meu. Essa parte podre da história, essa sujeira, essa bagunça... ela é minha. Levo a mão até o rosto dele, devagar, e passo os dedos pela pele quente da sua bochecha. Ele fecha os olhos por um instante, como se tentasse guardar o toque. E então eu falo, baixo, firme, com a garganta doendo. - E-Eu também te amo, Ethan... Os olhos dele se abrem, surpresos, um brilho nascendo neles, mas eu continuo antes que ele possa responder. - Mas é justamente por te amar que eu não posso te levar comigo. Aquilo que eu vou fazer... que eu preciso fazer, é meu, é coisa minha, coisa que eu mesma comecei e eu mesma tenho que terminar, então fique aqui, porfavor, eu prometo que volto, eu... Eu juro que volto. Ele balança a cabeça, como se quisesse lutar contra, como se tivesse um milhão de argumentos na ponta da língua, mas no fim... ele apenas assente, lentamente. Um cansaço triste se instala no olhar dele. Algo entre amor, medo e resignação. - Você promete mesmo? ele pergunta, a voz quebrada. - Sim, eu prometo. E eu vou cumprir. Vou voltar, Ethan... Ele engole em seco, e então solta a cintura onde ainda me segurava, como se estivesse soltando um pedaço dele mesmo, irritado, com medo, e preocupado. Dou dois passos pra trás, ainda sem conseguir respirar direito, e puxo o celular do bolso. Meus dedos tremem um pouco, mas eu disfarço, digitando o número de uma companhia de táxis local. Quando a atendente responde, minha voz sai firme, sem hesitação: - Bom dia. Para o parque Treton. Que fica na saída da cidade. - Onde isso fica? Ethan pergunta franzindo a testa, e eu então faço uma pausa rápida, o respondendo. - Dei como referência um lugar perto da casa de Rafael... Não posso ser deixada exatamente lá, você sabe... Ele então assentiu, e cruzou os braços enquanto olhava para o chão, preocupado. Mas bem, claro que não digo o destino exato. não sou tão ingênua. A casa dele... aquele túmulo a céu aberto... eu alcançaria a pé, pelas ruas de terra atrás do parque. Um caminho escondido, como os segredos que carrego. Finalizo a ligação, e o silêncio entre mim e Ethan agora é feito de despedidas que nenhum dos dois quer dar. - Se você demorar, eu vou atrás de você. ele diz, num último fôlego, a voz agora mais firme, como o Ethan líder que eu bem conhecia. Eu sorrio de lado, um sorriso frio, sem humor, e o respondo. - Sim... eu sei. E é por isso que vou ser rápida. Ele então assentiu, e ficamos ali, em frente a minha casa, naquele dia frio, escuro e cinza, em completo silêncio, pensando no que viria a seguir, no que aconteceria, e então um som logo pode ser ouvido, cortando o silêncio avassalador o qual estávamos imergidos. Era o táxi. Ele parou na frente da calçada, e eu me virei pra ir até o carro, mas então, sinto ele puxar minha mão de uma forma suave e doce. - Ei, espera... Me virei, e logo, suas mãos me abraçaram forte e seu rosto se aproximou do meu de forma gentil e leve, assim como uma garoa refrescante caindo dos céus, e me puxou para um beijo rápido, mas intenso, cheio de amor, como se tivesse medo de que algo ruim fosse acontecer. - Cuidado, tá? Me liga quando terminar. Ele disse, enquanto encerrava o beijo, a respiração ainda pesada de preocupação, e ansiedade. Eu assenti, e então entrei no carro. O motorista, um senhor de barba grisalha, me cumprimenta com um bom dia entediado. Eu apenas confirmo o destino com um aceno de cabeça e olho pela janela uma última vez. Ethan ainda está lá. Me vendo ir embora, seu rosto preocupado e triste se afastando quilômetros e quilômetros enquanto o carro seguia viagem, e eu me encostei no banco de trás, tentando segurar as lágrimas ao saber que veria tudo aquilo novamente, todas aquelas lembranças, e aqueles corpos. Então os minutos foram se arrastando como horas, oque fez o trajeto até o parque Treton ser silencioso. O motorista não falou muito além do necessário, e eu agradeci por isso. Não queria conversa, não queria distrações apenas o som do carro deslizando pelas ruas e o mundo lá fora, me engolindo devagar. A cidade parecia em luto. O céu era um pano de fundo cinzento, denso, como se as nuvens estivessem prestes a desabar a qualquer momento. Não era só o céu, tudo parecia apagado, desbotado, como se a cor tivesse sido drenada do mundo inteiro. As árvores balançavam levemente ao vento, sem vida, os galhos secos arranhando o ar, e o asfalto refletia o brilho de um sol morto, assim como os cadáveres que estavam naquela casa. Quando o táxi parou no ponto combinado, eu desci, sentindo o frio me abraçar de imediato. Um vento cortante passou pelo meu corpo como dedos de gelo, arrepiando cada parte da minha pele sob a blusa de manga comprida. O parque estava quase deserto, só algumas folhas sendo arrastadas pelo chão úmido e um ou outro banco vazio, abandonado, como se até os fantasmas tivessem decidido não aparecer hoje. Agradeci ao motorista com um aceno curto após pagar a corrida e comecei a caminhar, me afastando da estrada principal. As ruas logo deram lugar a uma trilha de terra batida, escondida entre árvores retorcidas e altas, a cada passo, o silêncio parecia mais denso, preenchido apenas pelo som abafado dos meus passos e o bater do meu próprio coração. O céu, agora mais escuro, ameaçava desabar. O cheiro de chuva pairava no ar, forte e metálico, como o gosto de sangue na boca. Era o anúncio de algo inevitável. Olhei para o horizonte e vi os contornos da casa de Rafael surgindo entre as árvores , pequena à distância, mas monstruosa em peso, significado, e a cada vez que meu corpo se aproximava dela. A cada metro que eu andava, o frio aumentava. Não só o do vento, mas o que nascia dentro de mim, se espalhando pelos ossos, sufocando tudo. Eu sabia o que me esperava ali. O fim de algo. Ou talvez o começo de algo ainda mais doloroso. Mas eu continuei andando. Porque agora, não havia mais volta, nem se eu quisesse. Segui caminhando enquanto pensava, a mente quase explodindo, e o frio congelando minha pele, atravessando a blusa de mangas compridas, o céu, escuro e cinzento, esmagava qualquer traço de esperança. A casa de Rafael surgia entre as árvores, suas paredes tortas e janelas escuras como olhos sem alma, me encarando com um silêncio que era mais pesado que a morte. Meus pés avançavam, não por coragem, mas por um vazio estranho que me consumia. e logo na entrada pude ver a cena, o ar fedia a podridão e terra úmida. Lizzie e Laurie estavam lá, jogadas entre as ervas altas, não mais pessoas, apenas restos de pele acinzentadas e olhos vazios que não viam nada. Peguei a pá enferrujada encostada na parede, o metal gelado tocando minhas mãos, e comecei a cavar. O chão era teimoso, duro como pedra, cada golpe da pá um grito abafado contra o silêncio. Meus braços tremiam, o suor escorria, mas eu não parava. Parar seria deixar a dor me alcançar. Finalmente, toda a dor, o bullying, os espancamentos, acabaram. - Que cova rasa, meu bem. Você é péssima nisso. Cave mais fundo. A voz de Rafael rasgou o ar, grave, zombeteira, como se ele estivesse respirando no meu pescoço. Soltei a pá, o coração disparado, e virei tão rápido que quase cai, os olhos arregalados, o peito subindo e descendo rapidamente, esperando vê-lo. Mas não vi nada. Só as árvores se curvando ao vento, os galhos retorcidos dançando como fantasmas. Ele não estava ali. Não podia estar. Estava morto. Mas sua voz... ela vivia em mim, um veneno que rastejava, rindo da minha fraqueza. Engoli o medo, a garganta ardendo, e voltei a cavar. Mais fundo. Não por ele, mas para selar isso tudo. - D-Droga... eu... estou ficando maluca... Sussurrei baixo entre gaguejos enquanto continuava. O buraco cresceu, escuro, uma boca aberta que parecia me querer também. Arrastei os corpos em seguida, Lizzie, pesada como minha culpa, e Laurie, leve demais, como se nunca tivesse sido nada. Rolei as duas para dentro como se fossem bonecas quebradas, o som dos baques engolido pela terra. Cobri tudo, alisando o chão com a pá, espalhando folhas secas por cima. Não havia marcas. Não havia elas. Só um pedaço de terra qualquer, como se o mundo nunca as tivesse conhecido. Pronto... Agora... O bullying acabou. Será que agora eu conseguiria me formar em paz? Será que agora eu poderia finalmente ser feliz? Será que... Nunca mais vou sofrer com cicatrizes feias? Eu pensei, enquanto entrava na casa pela porta dos fundos. O fedor de sangue me sufocou, um peso denso, mas que não surpreendia mais. A sala era um túmulo vivo, o tapete manchado de sangue, o sofá torto, a faca no chão, a lâmina negra de sangue seco. na cozinha, onde ficavam os produtos de limpeza, peguei uma garrafa de alvejante e sacos de lixo na cozinha. Minhas ações eram frias e mecânicas. Esfreguei o tapete até minhas mãos arderem, o alvejante queimando meu nariz. As manchas desbotavam, mas não sumiam, teimosas como as cicatrizes nos meus pulsos. Passei para o chão, as paredes, cada canto onde minha raiva havia feito Lizzie, Laurie e Rafael sangrar. e de repente já não era mais sobre limpar. Era sobre apagar. Elas, ele, eu, tudo. Terminei com o corpo exausto, as mãos trêmulas, mas a casa não era mais a prova de um crime. Era só uma casa. Morta. Vazia. Guardei a faca, os trapos, as luvas no saco de lixo. Mas então, parei. Meus olhos se perderam no canto da sala, onde a sombra parecia mais densa. Rafael. Ele estava ali, no chão, como o dia em que me segurou pela primeira vez, os cabelos pretos penteados para trás, a roupa preta e sofisticada, a voz que prometia amor enquanto me destruía. Ele ainda estava aqui. E eu precisava enterrá-lo também. Droga... Suspirei fundo, sentindo meu peito doer e voltei ao quintal, a pá na mão, agora uma extensão de mim. Escolhi um canto escondido, onde as árvores eram mais negras, suas sombras engolindo o chão. Comecei a cavar outra cova, a terra cedendo como se soubesse que era para ele. Mas enquanto a pá afundava, as lembranças vieram. Lembrança de quando Rafael me segurou na sorveteria, sua mão firme, o sorriso que parecia luz a primeira vista. As noites em que ele dizia que eu era dele, e eu acreditava, porque nunca soube o que era amor sem dor. Os beijos que eram doces antes de virarem correntes, as promessas que viraram hematomas. O quanto ele me tomava para si, me possuindo por inteira, me fazendo gritar até esquecer meu nome... E depois... Quando me acariciava e me levava pra jantar com ele... Imperceptívelmente, as lágrimas caíram, quentes, indesejadas, enquanto eu cavava. Não era justo. Ele não merecia meu choro. Ele me quebrou, me traiu com Lizzie e Laurie, riu enquanto eu desmoronava. Mas ali, com a terra se abrindo, eu não via mais o Rafael traidor, eu via o Rafael que dançou comigo, que me fez rir enquanto eu o maquiava e viamos filmes juntos, que me levava pra jantar, que me presenteava, que me acariciava, que me tomava pra si como se eu fosse a última garota na face da terra...E isso cortava mais fundo que qualquer faca. E então, o buraco estava pronto, profundo, um vazio que parecia me chamar. Depois voltei a sala, onde seu corpo estava, a pele pálida, os olhos fechados, o peito parado. Arrastei seu corpo, o peso dele me puxando como sempre fez. No quintal, rolei o mesmo para a cova. Ele caiu com um baque pesado, a terra tremendo, e então... eu desabei. Sim, eu desabei. Eu cai, no choro, e na cova. Não fiquei ao lado. Cai para dentro da cova, me deitando ao lado dele, meu corpo contra o dele, frio, morto, mas ainda tão familiar. A chuva começou, primeiro um sussurro, depois mais forte, batendo na minha pele, nos meus cabelos loiros, na terra ao nosso redor. Chorei, os soluços se misturando ao rugido da água gelada e congelante que deixava meus lábios roxos, um lamento doloroso que ecoava no vazio. Minha mão tocou o peito dele, como se pudesse sentir o coração que nunca bateu por mim. As lágrimas caíam, quentes contra o frio, e o mundo parecia desabar comigo naquele dia frio, escuro e cinza. - V-Você parecia me amar tanto... murmurei, a voz quebrada, engolida pela chuva forte e eminente. A água encharcava minha roupa, pesando contra meu corpo, mas eu não me movia. Queria ficar ali, com ele, no fim que nós dois criamos, no fim que aquela loucura nos levou, o céu rugia, trovões como risadas cruéis, e as árvores dançavam, negras contra o cinza, testemunhas de um túmulo que ninguém mais veria. Mas então, me tirando de onde eu estava mentalmente, imersa naquele último momento, um som cortou a tempestade. Passos. Pesados, mas cuidadosos. Levantei os olhos, a chuva embaçando tudo, e lá estava ele. Ethan. A silhueta dele emergia em meio ao dilúvio, o rosto pálido, os cabelos cacheados e castanhos encharcados, os olhos cheios de uma dor que eu sabia que em tese, eu era culpada. - Não, não parecia, era tudo enganação! disse ele, a voz firme, mas tremendo de frio, cortando o som da chuva. Ele se aproximou da borda da cova, a água escorrendo pelo seu rosto como lágrimas que não eram dele. se ajoelhou, estendendo a mão para mim, os dedos abertos, querendo desesperadamente me puxar de volta. - Sai daí, meu anjo, Vamos pra casa! Ele disse em um tom mais alto para que eu o ouvisse em meio a chuva forte. Olhei para ele, para a mão que me oferecia, e depois para Rafael, frio e silencioso ao meu lado. A chuva batia no meu rosto, apagando as lágrimas, mas não o peso. Ethan estava ali, inteiro, disposto a me puxar do abismo que eu mesma cavei, literalmente, E eu... eu não sabia se podia subir. ou se era digna, Mas sua voz, seu olhar, o jeito como ele me chamava de anjo, isso era real. Mais real que qualquer coisa que Rafael já me deu. Então, devagar e tremendo, estendi a mão e toquei a dele. Seus dedos se fecharam em volta dos meus, quentes, vivos, me puxando para fora da cova. Saí, a terra grudando na minha roupa, o frio me envolvendo, mas Ethan estava lá, me segurando como se eu fosse desmoronar. E talvez eu fosse. Ele não disse mais nada. Só me abraçou forte, a chuva caindo sobre nós, enquanto a cova de Rafael ficava para trás, aberta, como uma ferida que eu nunca fecharia. Mas com Ethan ali, com seus braços em volta de mim, eu podia sentir que, por um momento, havia um caminho de volta. Mesmo que doesse. Mesmo que Rafael ainda sussurrasse na minha cabeça, ou mesmo que eu nunca mais fosse a Claire que Ethan merecia.
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