Capítulo trinta e seis: procurado.

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Aquele início de tarde, para mim, estava sendo estranhamente prazeroso, quase como um presente sombrio que eu vinha desembrulhando com calma

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Aquele início de tarde, para mim, estava sendo estranhamente prazeroso, quase como um presente sombrio que eu vinha desembrulhando com calma. Uma coisa doentia, e deliciosa ao mesmo tempo.
O sol pálido e frio entrava pelas frestas das cortinas escuras da minha sala de tortura, jogando sombras tortas nas paredes pintadas de preto.
Finalmente eu havia conseguido capturar a loirinha que tanto havia me enlouquecido, Claire. Depois de um tempo a procurando, ansiando saber onde ela estava, a encontrei de forma boba e fácil, e agora ela estava ali, sentada na cadeira de madeira suja, as mãos presas por cordas grossas e firmes que a cortavam mais a cada leve movimento. Seus olhos escuros e negros, agora me encaravam com um misto de medo e incerteza, Ela estava à minha mercê, um brinquedo frágil que pertencia exclusivamente a mim naquele momento. Eu podia fazer o que quisesse com ela, e fiz, sem hesitar.
Não foi tudo oque eu queria, mas fiz.
Mas bom, um passo de cada vez, de certa forma se eu fizer tudo oque quero com ela de uma vez, não vai ter graça e ela vai morrer rápido.
E não é isso que eu quero, eu quero sentir cada segundo dela, quero desvendar os mistérios que ela tem.
Suas palavras doentias ainda ecoavam na minha cabeça, frases desconexas que ela soltara antes sobre a morte, como se a desejasse com uma intensidade que eu não conseguia entender. Era intrigante, quase hipnótico, e aquilo acendia algo em mim, uma chama que me deixava à beira da loucura. Enquanto segurava a faca, o cabo de madeira gasto pressionando minha palma suada, uma pergunta insistente martelava meu cérebro,
O que a faz querer morrer?
Eu não tinha resposta, mas a indiferença dela diante da dor que eu causava me tirava do sério. Horas antes, eu havia deslizado a lâmina afiada por sua coxa direita, cortando a legging preta com força e brutalidade, O tecido rasgou com um som seco, e o sangue começou a brotar, escuro e viscoso, manchando o chão de piso branco e limpo, Ela não implorou para que eu parasse, não gritou por socorro. Seus lábios tremiam, sim, e seus olhos se arregalavam com o choque, mas nunca havia ali um apelo por salvação. Era como se ela abraçasse a morte como uma velha amiga.
Ou como uma benção.
Quando puxei o moletom cinza dela, o tecido grosso roçando contra seus braços, algo me fez parar. Sob as mangas, foram revelados muitos cortes.
marcas profundas e antigas nos pulsos, cicatrizes entrecruzadas com feridas mais recentes, ainda vermelhas e inflamadas. E então descobri o óbvio, Ela se mutilava.
O brilho apagado em seus olhos, opaco como vidro embaçado, confirmava o que eu já suspeitava: Claire não se importava em morrer.
Me ajoelhei ao lado dela, o cheiro metálico do sangue enchendo minhas narinas, e estudei cada corte com uma curiosidade mórbida. Passando os dedos nos mesmos.
Eram retos, precisos, feitos com uma determinação que só podia vir dela mesma. Não eram rasgos caóticos de desespero, mas linhas calculadas, como se ela tivesse traçado um mapa na própria pele. Como se esse mapa a levasse para alguns meros segundos de paz e prazer, a libertando.
Resumidamente, o tempo correu rápido enquanto eu a mantinha ali, naquela sala vermelha que eu chamava de sala de tortura. O ar estava pesado, carregado com o som da respiração lente dela, entrecortada e fraca, se juntando com o eco de uma gota d’água caindo em algum canto escuro do quarto.
Mas porra...
Eu a fiz sofrer do jeito que eu queria.
Peguei a faca novamente, o metal frio brilhando sob a luz fraca de uma lâmpada pendurada no teto, e cortei novamente seus pulsos que já estavam bem feridos, dando mais novas marcas a sua pele, com um movimento lento e deliberado. O sangue jorrou em gotas quentes, e cheirando a metal, como eu já bem conhecia, pingando nas minhas mãos e formando uma poça escarlate no chão. E depois não satisfeito, ataquei sua outra coxa, rasgando a pele macia dela com golpes firmes, cada corte mais fundo que o anterior. O líquido vermelho escorria em riachos, manchando suas pernas e pingando em um ritmo hipnótico contra o concreto. O cheiro ferroso enchia o ambiente, e eu sentia o coração acelerado, o peito inflado de um prazer doentio que havia nascido comigo.
E então, mesmo sob uma dor que deveria ser infernal, a pele se rasgando, os músculos expostos tremendo com cada corte,  ela não gritava por ajuda. Seus dentes rangiam, e às vezes um espasmo violento sacudia seu corpo em forma e perfeito, mas tudo o que escapava eram gemidos baixos, quase inaudíveis, e gritinhos abafados que pareciam mais reflexo do que protesto. Era como se aquilo fosse parte dela, uma rotina que ela conhecia bem. E Eu, por outro lado, estava excitado pra caralho, com um sorriso doentio e insano, enquanto cortava sua pele branca como neve, transformando seu corpo em uma tela viva, manchada de vermelho. Torturar era minha arte, e ela, com sua sombria falta de resistência, era a vítima perfeita, a tela perfeita.
A garota que me atiçou e me enlouqueceu desde o primeiro olhar.
Logo, voltei ao que estava fazendo e
Continuei até que seus olhos rolaram para trás e ela desmaiou, seu corpo mole pendendo contra a cadeira.
Uh, então o sangramento acabou de levá-la ao limite...
Pensei, enquanto me levantava e larga a a faca, o som da lâmina caindo no chão ecoando no silêncio, e contemplei a cena. O sangue formava uma pequena poça brilhante ao redor da cadeira, refletindo a luz da lâmpada em tons rubros. Minha respiração estava pesada, o coração ainda disparado de excitação. Sorri de canto, saciado, pelo menos por agora.
Mas pensando bem...
Uhm,não. Claire não podia morrer.
Ela precisava sofrer mais. Se partisse agora, todo o jogo psicológico, o prazer de quebrar pedaço por pedaço dela, acabaria cedo demais.
- Uh, cacete.
murmurei, puto. minha voz grave cortando o ar enquanto eu esfregava o rosto com as mãos ensanguentadas, deixando marcas vermelhas na minha pele. E agora, eu teria que tratar os ferimentos que causei se quisesse que essa brincadeira durasse mais.
Então me ajoelhei novamente,  enquanto cortava as cordas que prendiam seus pulsos já vermelhos, a deixando livre, e antes que seu corpo mole e manipulável pudesse cair, Peguei ela no colo, o corpo dela leve como uma pluma, os braços fracos e soltos. Era como carregar uma boneca quebrada, frágil e à minha disposição. Eu poderia destruí-la ali mesmo se quisesse, mas me contive. Se fosse longe demais de uma vez, ela não resistiria.
Então, Subi as escadas estreitas do meu quarto vermelho, o som dos meus passos pesados ecoando na madeira polida, e a carreguei pela casa. De relance, olhei seu rosto: olhos fechados, pálpebras tremendo levemente, a pele suja de sangue seco e uma expressão que mesclava tristeza e serenidade. Seus cabelos longos e loiros, agora embaraçados e manchados de vermelho escuro, caíam sobre meu braço como fios de ouro sujos. Claire era, sem dúvida, uma vítima fascinante.
Além de linda e gostosa pra caralho, claro.
Puta merda...
Pensei, enquanto a olhava, com seu corpo a minha mercê, a apertando mais em meus braços.
Entrei no meu quarto, um espaço amplo com paredes cinza-escuras e uma cama king-size coberta por lençóis pretos. O ar ali era mais limpo, com um leve cheiro de lavanda predominando.
Deitei Claire na cama com cuidado, o colchão afundando sob seu peso leve, e fui até o armário pegar um kit de primeiros socorros. Abri a caixa de metal, o som das dobradiças rangendo, e peguei um lenço branco. Molhei o mesmo com água de uma garrafa que deixava na mesinha da cabeceira, o líquido frio escorrendo entre meus dedos, e comecei a limpar o sangue de suas coxas e pulsos. A cada passada, o tecido branco ficava vermelho, revelando cortes profundos que ainda pulsavam debilmente. Fiz curativos com gaze e esparadrapo, envolvendo as feridas com firmeza para estancar o sangramento. Depois, puxei um cobertor preto, pesado e de lã grossa, e a cobri até o pescoço, o tecido contrastando com a palidez de sua pele.
Fiquei alguns minutos ao lado da cama, os braços cruzados, a observando.
Seus seios enormes e macios subiam e desciam em respirações rasas, o coração ainda batendo, as veias dos pulsos pulsando sob a gaze. Estava viva. Ainda.
Perfeito.
- Sua filha da puta, não pense que acabou. Isso é só o começo da brincadeira.
sussurrei, minha voz baixa e rouca ecoando no quarto silencioso. E Saí, trancando a porta com uma chave que guardava no bolso, o clique da fechadura me dando uma satisfação sutil de que ela pertencia a mim.
Fui para a sala, meu canto favorito da casa. O espaço era amplo, com uma parede de vidro que ia do chão ao teto, oferecendo uma vista para a floresta escura que cercava a propriedade. O sofá de couro preto rangeu sob meu peso quando me sentei, o ar fresco do inicio da tarde entrando por uma janela entreaberta. Era ali que eu relaxava, fosse vendo TV, ouvindo o som grave de uma playlist que eu gostava ou bebendo algo forte. Caminhei até o balcão da cozinha, os azulejos frios sob meus pés descalços, e peguei um copo de vidro pequeno, o cristal refletindo a luz do lustre. Escolhi uma garrafa de uísque, o líquido âmbar brilhando enquanto o despejava até a metade do copo. Voltei ao sofá, o cheiro quente e defumado da bebida subindo até mim, e liguei a TV em um canal aleatório. A voz de uma repórter invadiu o ambiente, enquanto eu me sentava dando um suspiro forte e grave, passando a mão pelo cabelo, o deixando pra trás.
- Nesse último ano, cadáveres foram encontrados no antigo centro comunitário de Nova York, um prédio abandonado onde Rafael Wild coincidentemente também foi torturado. A polícia investiga com cautela, pois as digitais do jovem foram identificadas nos corpos em decomposição. apontando que ele tenha sido o autor do crime.
Logo traremos mais informações. Aqui é Lianna Parker, com seu jornal da tarde.
- porra.
resmunguei, o copo parando a meio caminho da boca. A polícia estava no meu pé. Que caralho. Meus dedos apertaram o vidro com mais força, o líquido tremendo levemente. Mas eles não me encontrariam tão fácil. Eu estava em Nova Jersey, escondido em uma casa isolada no meio do nada, enquanto eles vasculhavam as ruas sujas de Nova York. Respirei fundo, o ar frio enchendo meus pulmões, e tomei um gole longo do uísque, sentindo o calor descer pela garganta. Não, eles não me pegariam assim. Não tão cedo.
Nem fodendo.
Tenho que matar mais... Tenho que fazer oque fui designado a fazer, e enquanto eu não for pego, não vou parar de sujar minhas mãos.
Continuei assistindo ainda puto, a voz da repórter ainda ecoava na sala, cortando o silêncio com aquele tom mecânico e ensaiado que eu já conhecia bem demais. O noticiário continuou, a tela da TV mostrando imagens granuladas de um lugar velho e ferrado que eu conhecia bem, em um dia frio e escuro em Nova York. com luzes de sirenes piscando ao fundo. A câmera fez um close em uma fita amarela de isolamento balançando ao vento, as palavras “ Não atravesse” em letras pretas destacadas.

- A polícia de Nova York confirmou há poucos minutos que as vítimas, dois jovens adolescentes entre 18  e 16 anos, apresentavam sinais de violência extrema antes de serem mortos. Fontes próximas à investigação revelaram que os corpos foram encontrados em estágios avançados de decomposição, alguns com marcas que sugerem longos períodos de tortura. As autoridades vão encaminhar os corpos ao IML para descobrir a identidade das vítimas, mas acredita-se que Rafael Wild, o principal suspeito, pode estar ligado além desse, também a outros casos não resolvidos na região. Contendo um perfil psicológico preliminar que indica que estamos lidando com alguém insentimental, possivelmente obcecado por controle e sofrimento prolongado.

Dei uma risada seca, o som saindo rouco e baixo enquanto o uísque queimava minha língua. “insentimental, obcecado por controle,” repeti mentalmente, quase como se estivesse provando as palavras. Eles não estavam errados, mas também não tinham ideia do quanto eu gostava disso. O quanto eu precisava disso. A tela mudou para uma foto minha antiga, tirada anos atrás, quando eu ainda era burro o suficiente pra deixar rastros. Cabelo bagunçado, olhos fundos, um sorriso torto que não entregava nada do que eu realmente era. Agora eu era mais esperto. Mais limpo. Ou pelo menos, achava que era.

- Rafael Wild, é considerado extremamente perigoso tendo em vista oque tem feito, A polícia pede que qualquer informação sobre seu paradeiro seja reportada imediatamente. Ele foi visto pela última vez em nova york quando ainda era adolescente, mas agora com o tempo que se passou, acredita- se que ele deve ter mudado, mas não torna impossível sua captura, ainda que há indícios de que possa ter deixado a cidade ou o estado. Uma lei de execução imediata ao serial killer está sendo montada em Nova York, mas as autoridades admitem que a falta de certeza de onde encontrá-lo dificulta a captura, Além disso, novos relatórios trouxeram à tona um incidente perturbador do passado de Wild. Há 5 anos atrás, ele tentou realizar um massacre na antiga escola onde estudou, aqui e nova york.
O plano, que incluía explosivos caseiros e armas de grande porte como duas escopetas que foram encontradas, foi frustrado por falhas no equipamento e pela rápida intervenção de seguranças. Mas Ainda assim, Rafael conseguiu matar 12 pessoas,  alunos e funcionários. antes de fugir. O caso, na época, chocou a comunidade e agora é visto como um prenúncio de sua escalada de violência. Moradores locais relatam um clima de medo crescente na cidade, com muitos evitando áreas isoladas após o anoitecer, temendo que ele ainda esteja na espreita.

Desliguei a TV com um clique seco do controle remoto, o silêncio voltando a engolir a sala como uma onda. O copo estava quase vazio agora, e eu o girei entre os dedos, o vidro frio contra minha pele ainda manchada com o sangue seco de Claire.
Uh... O massacre... Esses filhos da puta ainda lembravam disso. Aliás, como esquecer? eu ainda tinha lembranças vivas desse dia, quase podia sentir o cheiro de pólvora e o som dos gritos abafados daquele dia. O foda é que tinha sido um fiasco, os explosivos não detonaram direito, e eu subestimei aqueles seguranças idiotas. Doze? Caralho, Poderia ter sido cinquenta, talvez mais, se tudo tivesse saído como planejei. Mas isso foi antes. Antes de eu aprender a refinar minha arte, a escolher minhas vítimas com calma, a saborear cada momento em vez de explodir tudo de uma vez.
Levantei do sofá, o couro rangendo de novo, e caminhei até a janela enorme. A floresta lá fora estava quieta, os galhos das árvores balançando levemente com o vento da tarde. O sol já estava baixo, pintando o céu de um laranja doentio que se misturava com tons de cinza. Pensei em Claire, lá em cima, desmaiada na minha cama. Ela era o presente que eu não esperava, uma surpresa que caiu no meu colo como um animal ferido pedindo pra ser dissecado. Mas agora, com a polícia farejando mais perto do que eu gostaria, eu precisava ser cuidadoso. Não podia me dar ao luxo de deixar ela morrer rápido demais, ou de cometer um erro que me entregasse.
Voltei ao balcão e enchi o copo de novo, o uísque caindo com um som leve contra o cristal. Enquanto bebia, minha mente girava. O noticiário tinha dito “outros casos não resolvidos”. Isso significava que eles estavam começando a conectar os pontos, juntando os corpos que eu deixei pra trás como migalhas. E agora, com a história da escola ressurgindo, eles tinham mais uma peça do quebra-cabeça. Eu sabia que tinha sido descuidado no começo, anos atrás, quando a adrenalina era mais forte que o planejamento. Mas agora? Agora eu era uma sombra. Um fantasma que eles não pegariam tão fácil.
Ou pegariam também, que se foda. Eu só quero matar mais... E continuar me saciando até meu último suspiro.
Logo, ouvi um barulho fraco vindo do andar de cima, um gemido baixo que mal atravessou as paredes grossas. Claire. Ela estava acordando. Sorri de canto, o gosto do uísque ainda na boca, e larguei o copo no balcão com um som seco. Peguei a chave no bolso, o metal frio roçando minha pele, e subi as escadas devagar, cada degrau rangendo sob meu peso. O jogo ainda não tinha acabado. Na verdade, estava só começando a ficar interessante.

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