Capitulo duzentos: os corpos.

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Acordei lentamente, sentindo o sol da manhã entrar pela janela e aquecer meu rosto com uma luz suave e dourada

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Acordei lentamente, sentindo o sol da manhã entrar pela janela e aquecer meu rosto com uma luz suave e dourada. Virei de lado e lá estava Claire, deitada ao meu lado, ainda profundamente adormecida. Seus cabelos estavam espalhados pelo travesseiro, e seu rosto parecia tão sereno, sem as tensões do dia anterior. Um sorriso discreto surgiu nos meus lábios, acompanhado por um calor confortável no peito. Eu queria guardar aquele momento, como se fosse único.
O silêncio preenchia o quarto, quebrado apenas pela sua respiração suave. Fiquei ali por um tempo, apenas observando, admirando a paz que ela transmitia. Sem pressa, me aproximei um pouco mais, sentindo meus cachos, agora bagunçados caírem sobre minha testa enquanto me inclinava. Com um carinho quase imperceptível para não acordá-la, depositei um beijo suave em sua testa.
- Você é linda dormindo… Meu anjo.
Murmurei quase sem som, mais para mim mesmo do que para ela.
A admirei enquanto dormia, seus lindos cabelos loiros e longos brilhando na luz amarelada e suave do amanhecer, como fios de ouro valiosos, caramba...
Como pode...?
Como pode uma garota ser tão... Perfeita?
Depois de alguns instantes, inspirei fundo e me afastei devagar, tentando não fazer barulho. Meu corpo estava relaxado, mas uma sensação estranha me acompanhava. Eu estava em um lugar que não era meu, e isso sempre me causava um certo desconforto. A casa de Claire era diferente de tudo o que eu conhecia. Luxuosa, espaçosa, com uma elegância que parecia saída de um catálogo. O tipo de ambiente que me fazia sentir deslocado.
Caminhei até a cozinha, tentando ignorar essa sensação. O lugar era impecável, com eletrodomésticos modernos e bancadas de mármore brilhantes. Me sentia um pouco fora de lugar ali, mas uma ideia me trouxe uma sensação de controle: preparar o café da manhã.
Abri a geladeira e analisei o que tinha. "Vamos ver o que dá para fazer." Encontrei ovos, queijo, presunto e suco de laranja. Nada muito complicado, apenas algo simples, algo que ela fosse gostar.
Claire era muito fã de chá, e amava praticamente todos, o cheiro da erva doce pela manhã era tudo que ela mais adorava saborear, e óbvio que eu faria chá pra ela.
Ela era fã de oolong e matte, então eu tive que escolher um dos dois.
Escolhi o matte, já que é mais doce e ela ama doces.
E então Com a calma de quem já aprendeu a improvisar, comecei a preparar tudo. O presunto queimou levemente na frigideira antes de ficar dourado, e os ovos foram mexidos com cuidado. O cheiro da comida tomou conta da cozinha, e, a cada movimento, me senti um pouco mais à vontade. Pelo menos, cozinhar era algo que eu podia controlar.
O chá ficou pronto, e o aroma quente e doce tomou conta do ambiente.
Me sentei por um instante na bancada, observando a vista da janela. O sol já estava mais alto, iluminando a cidade. A casa de Claire continuava me impressionando, mas minha mente não estava ali.
Pensei na noite anterior. No quanto tudo mudou tão rápido.
Horas antes, Claire estava à beira do abismo, literalmente... O corpo dela estava fraco e desacordado no banheiro daquele maníaco do namorado dela, ensanguentada, com os pulsos cortados, e logo o medo e o pânico me atingiram, quando percebi que ela poderia simplesmente... Partir.
E então, depois disso, depois de segurá-la, de impedi-la, de tentar trazê-la de volta para mim, aconteceu algo que eu nunca imaginei. Ficamos juntos. Como se aquela quase perda tivesse sido o gatilho para algo que eu sempre quis, mas nunca achei que aconteceria. Eu passei tanto tempo querendo Claire, e agora ela estava ali, tinha dormido comigo, agarrada a mim, me beijado. Mas ao custo de quase tê-la perdido.
Isso me assustava.
Me assustava o quanto a linha entre perda e conquista era tênue. O quanto, em um único instante, tudo pode mudar.
Soltei um suspiro longo, passando a mão pelos cabelos.
Mas não importava mais como tinha acontecido. O que importava agora era garantir que ela ficasse bem.
Foi então que ouvi passos leves no corredor. Virei-me e vi Claire parada na porta da cozinha. Seus cabelos estavam penteados, brilhando na luz dourada do sol e seus olhos se focaram em mim com um suave e doce sorriso.
- B-Bom dia... Dormiu... Bem?
Sua voz soou suave e doce, mas ainda sonolenta, dando um leve bocejo.
Levantei da bancada e sorri, deixando de lado os pensamentos por um momento.
- não poderia ter dormido melhor, meu anjo. mas acordei o quanto antes. Você saiu do hospital hoje mais cedo bem cansada e provavelmente iria acordar com fome, então eu achei que poderia fazer o café da manhã para nós, mesmo que já seja um pouco tarde.
Ela olhou ao redor, notando a mesa posta, o cheiro de comida espalhado pelo ambiente. e seus olhos brilharam em surpresa.
- Ah... v-você fez tudo isso?
Dei de ombros, com um sorriso enquanto a olhava.
- Só usei o que tinha. Mas espero que goste, eu... Uhm... Fiz chá matte pra você.
Puxei a cadeira macia e sofisticada da sala de jantar pra ela se sentar, e ela se acomodou à mesa. Servi os pratos: ovos mexidos, presunto dourado e fatias de queijo derretido. Coloquei uma xícara de chá na frente dela, observando o vapor subir suavemente.
- V- Você fez... Meu chá favorito...
Ela sussurrou baixinho enquanto eu percebia suas bochechas fofas e macias ficarem vermelhinhas aos poucos.
- Ah, eu tentei, na verdade. não sou nenhum chef, mas fiz o que pude, espero que esteja gostoso.
Ela pegou a colher e provou um pouco. Seus olhos encontraram os meus, brilhando de forma genuína.
- Está maravilhoso. Você acertou em cheio no açúcar. Uhmmm...
Soltei uma risada curta, um pouco envergonhado.
- Sério meu anjo?  Que sorte, bom, fico feliz por isso...
Ela me olhou com um sorriso doce enquanto tomava seu chá, e naquele instante, o ambiente ficou mais leve. Começamos a comer, conversando sobre coisas simples, sobre a noite anterior, sem pressa. O cheiro do chá, o som da comida sendo saboreada, a tranquilidade daquela manhã, ou quase tarde, porquê eram quase meio dia... Enfim, era tudo o que precisávamos.
Mas então, enquanto eu pegava uma fatia de queijo, uma inquietação que eu tentava ignorar voltou à tona. Olhei pra ela, hesitando antes de falar.
- Claire… E seus pais? Eles… Eles não vão aparecer por aqui, vão? Quer dizer, já é quase meio-dia, e eu… Bem, você sabe que eles não gostam muito de mim.
Minha voz saiu mais tensa do que eu queria, o medo deles voltando e me encontrando ali, na casa deles, com ela, essa ideia me apertava o peito.  Já que os pais dela nunca me viram com bons olhos, sempre me trataram como se eu não fosse digno da filha perfeita deles. E agora, depois de tudo, a ideia de que eles me vessem ali e até descontassem a raiva nela, como sempre fizeram, a machucando por minha causa, me fazia me odiar.
Claire sendo espancada por minha causa...
Não...
Isso não pode acontecer, não pode.
Ela então congelou por um instante, a xícara de chá parada no ar. Seus olhos se perderam em algum ponto da mesa, e o sorriso doce deu lugar a uma expressão distante. Ela mordeu os lábios de leve, pensativa, enquanto o vapor do chá continuava subindo, alheio ao peso que cresceu entre nós.
- Você sabe, eu... Não quero causar problemas pra você, não quero que eles te espanquem por minha causa! Seus pais são doentes, eles vão querer te machucar novo meu anjo!!
Falei em um tom um pouco mais alto devido ao desespero e a preocupação que perfurava meu peito, mas ela então negou com a cabeça.
- E-Ethan... Não precisa se preocupar com eles, não mais.
Não... Mais? Oque é que isso significava?
Droga, eu... Estava completamente confuso.
E óbvio que eu não queria bombardeá-la com perguntas, mas...
Eu precisava saber...
- Oque houve com eles? Me diga, porfavor...
Falei em tom baixo, mas sério, enquanto a olhava, havíamos até mesmo parado de comer, por conta do rumo que nossa conversa, simples e matinal, tomou.
- Eu... Uhm... Logo você saberá,  prometo que te contarei tudo, eu só...
Então, rapidamente associei oque ela havia dito dos pais, com oque eu vi na casa do maníaco do namorado dela...
E logo, as lembranças daquela noite, cortaram o silêncio na minha mente como uma lâmina afiada. Eu vi de novo, claro como se ainda estivesse lá: os corpos das garotas que fizeram bullying com Claire, lizzie e laurie, jogados na casa daquele namorado insano dela. Uma delas caiu na parte externa, os cacos de vidro da parede quebrada do andar de cima cravados no corpo e na garganta, o sangue escorrendo pela grama, pintando a mesma de vermelho, e a outra, na sala, deitada de bruços, as costas abertas por golpes de faca, a carne exposta num vermelho grotesco. E então eu me lembrei...
Incrívelmente, não foi Rafael quem fez isso. Foi ela. A Minha Claire, com aquelas mãos delicadas que agora seguravam a xícara de chá, eram as mesmas mãos que tinham despedaçado elas. Eu vi quando a encontrei em sua casa, suja de sangue, e eu estava preocupado, pensando que ela havia se machucado de novo.
Mas não, ela havia me olhado nos olhos, sentada no chão frio de seu quarto, com aquele olhar de perdição que sempre teve, me encarando o mais profundo que podia, e disse em tom serene:
" Eu não estou machucada, você não vê? Então se não estou, é porque eu não me feri, esse sangue não é meu"
Ela mesmo havia confessado, e se ela fez a mesma coisa com os pais? Isso era uma possibilidade...
Mas bom, eu não sinto raiva. Nem medo, não consego na verdade, afinal de contas era Claire, meu anjo, a mesma que eu quase perdi, a mesma que me abraçou na noite passada como se eu fosse tudo que restava pra ela. a mesma garota que sofreu bullying durante todo o ensino médio por aquelas garotas, então não a condeno por ter matado aquelas duas, por mais que tudo tenha sido feito se forma grotesca e hedionda...
Claire estava sofrendo, ela... Em algum momento, chegaria a esse ponto... E eu sabia disso, lá no fundo.
Mesmo que aquela cena ainda me assombrasse um pouco... Eu sabia que era inevitável.
Na verdade, desde aquele dia em que ela espancou as duas garotas na escola e eu tive que pará-la, já percebi isso.
Então, decidido a tentar entender oque havia acontecido com os pais dela, e se realmente era oque eu estava pensando, suspirei fundo e a olhei, uma expressão séria tomando meu rosto.
- Deu á seus pais o mesmo fim que deu a Lizzie e Laurie?
Claire congelou de novo, a xícara tremendo levemente em suas mãos. O vapor do chá matte continuava subindo, mas agora parecia carregar um peso que eu não conseguia ignorar. Seus olhos, que antes brilhavam com uma mistura de sono e ternura, agora estavam vidrados, fixos em algum ponto invisível na mesa. Ela não respondeu de imediato, e o silêncio entre nós ficou denso, quase sufocante.
Eu senti um frio na espinha, mas não era medo dela. Não, nunca seria. Era algo mais profundo, uma mistura de preocupação e impotência. Eu queria entender, precisava entender.
- Claire… olha, pode me dizer, pode contar comigo. Eu não vou te julgar, você sabe disso. Só… Me deixa entender o que aconteceu.
Minha voz saiu baixa, quase um sussurro, tentando trazer ela de volta pra mim. Ela piscou devagar, como se estivesse acordando de um transe, e finalmente levantou o olhar. Seus olhos encontraram os meus, e havia algo ali, uma sombra, um vazio que eu não tinha visto antes. Mas também havia ela, a Claire que eu conhecia, a que eu amava.
- Ethan…
Ela começou, a voz trêmula, quase falhando.
- M-Meus pais... Não fui eu que dei o fim que eles tiveram...
Meu coração apertou. Meu peito pesou como se alguém tivesse jogado uma pedra ali dentro, mas eu mantive o rosto calmo, esperando ela continuar. Claire respirou fundo, colocando a xícara na mesa com cuidado, como se temesse quebrá-la.
- T-Tempos atrás Rafael insistiu em vir comigo pra cá e meus pais estavam aqui. Eu não queria, mas ele veio mesmo assim... e também eu não tinha muito o que fazer porque precisava pegar algumas roupas, enfim, quando chegamos, ele ficou na porta e me disse  "Vou te esperar aqui fora. Se eu ver você machucada ou com qualquer ferida que seja causada pelos malditos dos seus pais, eu entro na casa e mato os dois". E então eu entrei, e meus pais… Eles estavam lá, como sempre, prontos pra gritar, pra me culpar por tudo. Rosie levantou a mão pra mim de novo, e eu… Eu tentei me defender, mas ela me acertou com um tapa no rosto, e eu achei que não mas... Ele... Tinha visto tudo...
Ela parou, mordendo o lábio com força, os olhos marejados. E eu me inclinei um pouco mais pra perto, querendo estender a mão, mas me contive. Ela precisava falar, precisava tirar aquilo de dentro dela.
- Ele... Entrou lá, matou meu pai que estava no andar de baixo e depois matou minha madrasta que estava no meu quarto...  Na minha frente, o sangue dela respingou em mim, e naquela hora eu me senti culpada, mas... depois... Eu me senti livre...
As palavras dela caíram sobre mim como um trovão silencioso. Rafael. O namorado insano dela, o mesmo que a destruiu, tinha feito isso bem na frente dela. Meu estômago revirou, mas não por nojo. Era por ela. Por me lembrar de tudo oque ela havia sofrido com os pais dela desde anos atrás, das marcas em seu corpo, dos hematomas em seu rosto, dos novos cortes aparecendo a cada dia...
- Claire…
Minha voz saiu rouca, carregada.
- então você…está me dizendo que o Rafael matou eles...?
Perguntei, a olhando.
Ela assentiu devagar, quase imperceptível, os olhos fixos nos meus, como se esperasse que eu me afastasse, que a rejeitasse. Mas eu não podia. Não queria. Em vez disso, me levantei da cadeira e contornei a mesa, parando ao lado dela. Meus cachos caíram sobre a testa enquanto eu me abaixava pra ficar na altura dos olhos dela.
- Ei... olha pra mim, meu anjo. Eu não vou te abandonar. Nunca. Entendeu? O que o Rafael fez… Por mais doentio que seja, eu não vou mentir, foi certo, Seus pais te machucaram a vida inteira, te trataram como lixo. Ele te livrou desse sofrimento, Claire. Ao menos isso de bom ele fez, mas agora você não precisa mais carregar esse peso sozinha. E eu… bom, agora eu vou estar aqui, pra te ajudar com tudo.
Ela me encarou, surpresa, as lágrimas finalmente escorrendo pelo rosto. Sua mão tremia quando segurou a minha, apertando com força, como se eu fosse a única coisa a mantendo ali.
- Ethan, Você… Você acha mesmo que ele fez algo certo? Eu… Eu entendo que sofri muito nas mãos deles mas, foi terrível, eles foram mortos como animais em um abatedouro, Rafael, ele... Não é uma pessoa normal, ele é alguém terrível...
Ela disse, enquanto abaixava a cabeça.
Ainda com pena dos pais que tanto a maltratavam... Deus... Claire realmente é um anjo, um anjo tão doce... Tão amável...
Que mesmo depois de tudo oque passou nas mãos deles, de seus pais controladores e narcisistas... Ela ainda sente pena deles, da maneira a qual foram mortos...
- Eu sei, meu anjo. Eu soube da pior maneira, você se lembra, não é?
Suspirei fundo, sentindo o peito apertar enquanto me lembrava daquele dia maldito onde ele fez... Sexo com ela na minha frente.
Droga.
Eu poderia decapitar minha própria cabeça, mas nunca vou esquecer desse inferno o qual passei.
- S-Sim, infelizmente...
Ela disse, abaixando a cabeça, os longos cabelos loiros caindo sob seus olhos como uma cortina tentando escondê-la de mim, das minhas perguntas.
- Sobre Laurie e Lizzie, porfavor, me conte tudo, eu só... Só quero entender.
Eu juro, minha pequena. Que não vou te julgar ou te condenar.
Falei enquanto a olhava, e levava minha mão até a dela pra tentar encorajá-la.
E não, eu realmente não iria julgá-la.
Claire sofreu muito, desde criança, sendo maltratada e espancada por todos a sua volta, por coisas que nem sequer foram causadas por ela.
Me lembro dos dias em que ela ia pra escola com os cabelos presos, porque estavam sujos e ela não podia lavá-los por conta dos ferimentos que seus pais e as garotas causaram nela, de tanto a puxarem pelos cabelos.
Me lembro de quando ela estava em casa, machucada, ferida por conta de mais um dia sofrendo bullying, e seus pais a agrediram novamente, dizendo que ela era uma inútil, que só causava problemas, sendo que na verdade, ela é que era a vítima de tudo isso, de tudo oque passava...
- Eu... Bom, de qualquer maneira você saberia, mas vou dizer... as garotas… Lizzie e Laurie… Eu matei elas, Ethan. E os corpos ainda estão lá, na casa dele, mas... Não as matei pelo bullying... O motivo... É outro. É claro que as odeio pelo que fizeram comigo, mas o motivo principal é bem pior.
Eu puxei ela pra mim, envolvendo-a num abraço apertado. Seus cabelos loiros caíram sobre meu ombro, e eu senti o calor do corpo dela contra o meu. Meu coração batia rápido, mas minha voz saiu firme.
- Eu entendo sem nem sequer ouvir o restante, Claire. Eu sei de tudo oque você passou nas mãos delas, de toda a dor, toda a humilhação, por isso estou com você nisso, por mais que isso seja... Uhm... Errado. Já que mais errado ainda foi todo o bullying que você passou!!
Ela então me abraçou de volta, firme, enquanto eu sentia ela molhar meus ombros com lágrimas.
- Eu sei que... V-você quer estar comigo, e eu também quero muito estar com você, mas é melhor ficar longe, Ethan. De mim. De todos esses problemas que eu causei... Sabe, tudo oque aquelas duas fizeram comigo é um dos motivos do pelo qual sujei minhas mãos com o sangue delas, m-mas como eu disse, o motivo base é o pior, e você não tem nada haver com isso, eu... Quero que fique fora disso, porfavor.
Ela disse visivelmente preocupada, enquanto me olhava, e levava uma mão para acariciar meu rosto.
Ah, Deus...
É a mesma sensação de sentir um vento suave de verão tocando meu rosto...
Que sensação incrível...
Parece até mesmo um sonho.
Mais especificamente, um daqueles sonhos onde eu sonhava exatamente com oque está acontecendo agora.
Mas então, saindo daquele transe doce e hipnotizante o qual o toque dela me prendeu, voltei minha atenção a nossa conversa, e levei minhas mãos até as dela, as segurando e as apertando firme.
- Olha meu anjo, eu não ligo, não me importa oque você fez, não me importa qual foi o motivo base, eu não vou ficar fora disso, sabe... escuta, Rafael é um maluco, mas seus pais eram monstros. Ele te deu uma chance de respirar, de viver sem eles te esmagando. E as garotas… Você fez o que fez porque elas te quebraram por anos. Eu não te julgo por isso. E aqueles corpos… A gente vai dar um jeito. Eu te ajudo, Claire. Vamos ocultar tudo, fazer sumir. Ninguém precisa saber. Só eu e você, tá bem?
Ela então se inclinou, e enterrou o rosto no meu peito, os soluços abafados contra minha camisa. E eu passei a mão pelos cabelos dela, sentindo os fios macios deslizarem entre meus dedos. A cozinha, com seu cheiro de chá e comida, parecia distante agora. Era só eu e ela, presos naquele momento.
Bom, e ruim também. Já que agora, tudo fazia sentido.
Droga...
Antes era ela, se machucando e tentando inúmeras vezes contra a própria vida, e agora...
Ela matou duas pessoas.
E eu... Eu realmente não ligo.
Só eu sei o quanto ela sofreu nas mãos daquelas garotas terríveis e insentimentais.
Mas então, afastando esses meus pensamentos por um segundo, ela se afastou um pouco, enxugando o rosto com as costas da mão. Seus olhos ainda estavam vermelhos, mas havia um brilho diferente ali, algo que parecia alívio misturado com gratidão, e medo também, e talvez até... Susto.
- E- Ethan… Você… Você faria isso por mim? Esconder os corpos?? Você... Sabe oque está dizendo?
Ela perguntou, apertando minha mão,
Mas eu apenas sorri de leve, tentando não transparecer preocupação com a situação e mostrar que estava tudo sobre controle pra mantê-la calma, segurando o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas fofas e vermelhas.
- Por você, meu anjo, eu faço qualquer coisa. A gente vai até a casa do Rafael, pega aqueles corpos e some com eles. Ninguém vai desconfiar de nada, e podemos fingir que nada aconteceu, você não está sozinha nisso, nunca mais vai estar.
Ela deu um sorriso tímido, mesmo que ainda preocupado, e pegou a xícara de chá de novo, tomando um gole pequeno. O silêncio voltou, mas dessa vez era leve, quase reconfortante. E com um beijo rápido no nariz pequeno e frio dela, eu então me levantei, e voltei pro meu lugar, pegando uma fatia de presunto enrolada em mussarela e mordendo enquanto a observava. A comida já estava fria, mas não importava. O que importava era que ela estava ali, comigo.
Mas, no fundo da minha mente, uma inquietação ainda queimava. Rafael. Ele tinha matado os pais dela, e Claire agora tinha dado um passo que mudava tudo. Enfim, precisávamos agir rápido. Mas por agora, eu não ia deixar isso tirar o pouco de paz que a gente tinha conseguido encontrar.
- Ei..
Ela sussurrou baixinho, enquanto levava sua mão até a minha novamente.
Deus... Parecia que eu estava vivendo em um sonho...
- Sim, minha pequena?
Eu disse apertando sua mão fofa e macia, sentindo o calor de seu toque e o conforto do mesmo.
- Obrigada... Por se oferecer pra cuidar de algo que você nem mesmo tinha conhecimento, por ter... Me defendido mesmo depois de saber do que eu fiz...
m-mas eu... Prefiro fazer oque eu tenho que fazer sozinha...
Ela disse, de cabeça baixa, ainda segurando minha mão, mas um pouco séria.
A olhei e neguei com a cabeça, com um sorriso suave de canto, levando suas mãos de princesa até meus lábios para um beijo doce.
- Tente ignorar tudo isso por um momento, respire. Meu anjo, tome seu chá, depois faremos oque tiver de ser feito, mas por enquanto... vamos terminar de comer, tá?
Falei, tentando trazer um tom mais leve pra voz, algo que substitua um pouco a preocupação , agora que eu estava, de certo modo, envolvido em um crime...
Logo, Claire assentiu, o sorriso tímido e de certa forma preocupado ainda nos lábios, e pegou a colher pra provar alguns ovos com bacon. Naquele momento, terminamos de comer em silêncio, com apenas o som do chá sendo soprado e da comida sendo saboreada preenchendo o ar. Era quase meio-dia, o sol já alto lá fora, mas dentro daquela cozinha, o tempo parecia nosso. Pelo menos por enquanto...
Alguns longos minutos se passaram, e logo, Claire terminou de comer em silêncio, o último gole de chá matte descendo quente pela garganta. Ela olhou para mim por um instante, os olhos ainda carregados de algo que eu não conseguia decifrar completamente, antes de se levantar da cadeira. O sol do meio-dia entrava pela janela, iluminando a cozinha com uma luz forte, quase ofuscante, em um tom de dourado que combinava com os cabelos dela.
Tipo aquela cena de enrolados onde a rapunzel canta aquela canção tão conhecida, e os cabelos dela brilham.
Deus... Essa garota...
Ela é realmente uma princesa.
- Ei... Obrigada pelo café da manhã, m-mas agora vou tomar um banho... ela disse, a voz suave, mas firme.
- E vou… vou resolver aquilo. Na casa do Rafael...
Eu me levantei quase no mesmo instante, o prato com restos de presunto e queijo esquecido na mesa. Meu peito apertou com a ideia dela indo sozinha até lá, enfrentando o peso de tudo o que tinha acontecido.
Ou talvez até, na pior das hipóteses, tentando novamente contra a própria vida...
Droga!!!
Isso não poderia acontecer, de jeito nenhum!
- Claire, espera. Eu vou com você. insisti, dando um passo na direção dela.
- Não precisa fazer isso sozinha. A gente pode resolver isso juntos, como eu disse. Eu te ajudo a esconder os corpos, a limpar tudo. Não me deixa fora disso, eu quero estar com você, quero te ajudar.
Mas ela então parou no meio do caminho para o corredor, os cabelos loiros caindo sobre os ombros enquanto virava o rosto para me olhar. Havia um traço de determinação em sua expressão, misturado com algo que parecia gratidão, mas também teimosia.
- Eu sei, Ethan…
Ela respirou fundo, vindo até mim e colocando as mãos delicadas no meu peito, me acariciando enquanto me olhava nos olhos.
- Mas você não precisa se preocupar comigo, isso é algo que terei que fazer sozinha. Porquê fui eu que comecei, e sou eu quem tem que terminar. Você já fez muito por mim, mais do que eu mereço. Só… f-fica aqui, por favor. Me deixa resolver isso, eu volto logo, prometo...
Ela disse enquanto me acariciava, e eu neguei com a cabeça, temendo que aquele pesadelo de vê-la quase sem vida fosse se repetir.
- Meu anjo…
comecei, minha voz saindo mais alta do que eu queria, o desespero rastejando pelas palavras.
- E se algo ruim acontecer? olha, eu não vou conseguir ficar aqui tranquilo sabendo que você vai estar lá, lidando
com tudo aquilo sozinha, não mesmo...
Ela então sorriu, um sorriso pequeno e triste, e levou uma mão ao meu rosto, os dedos frios roçando minha bochecha.
- Nada vai acontecer comigo, Eu prometo. É só que… eu preciso resolver sozinha. Confia em mim, tá bem? Eu volto.
Eu queria argumentar mais, queria segurá-la ali e impedi-la de ir, mas o olhar dela me fez hesitar. Havia uma força ali, uma que eu não tinha visto antes, como se ela estivesse decidida a fazer aquilo sem mim, de qualquer forma, e eu Relutante assenti, mesmo sentindo o peito pesado e pensando em mil coisas naquele momento.
- Não me deixe sentir a dor de quase te perder de novo, porfavor… qualquer coisa, qualquer problema, você me liga, e volte sã e salva pra mim, Promete?
Eu segurei em sua mão, sentindo meu peito se retorcer em nós firmes e dolorosos, quando me lembrei daquela cena terrível, da minha garota, o meu doce anjo, a mais gentil criatura já vista, quase indo para outro plano, com os pulsos terrivelmente cortados e o sangue pairando em rios sobre o chão branco e polido daquela maldita casa.
- E-Eu prometo...
ela respondeu, inclinando-se para me dar um beijo rápido na testa antes de se afastar, me dando um sorriso pouco forçado .
- Eu volto logo.
Ela disse, e antes que eu pudesse dizer algo, ela desapareceu pelo corredor, e eu ouvi o som da porta da suite no andar de cima em seu quarto se fechando. E eu Fiquei ali, parado na cozinha, olhando para as escadas onde ela havia subido, o silêncio me engolindo enquanto eu tentava ignorar a inquietação e o medo que cresciam dentro de mim, com nossas últimas palavras ainda ecoando na minha mente...

"Promete?"

"Eu prometo."

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