Capítulo duzentos e dois: Cape May beach.

629 54 10
                                        

Eu nunca vi ninguém carregar tanta dor quanto Claire

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

Eu nunca vi ninguém carregar tanta dor quanto Claire. Ali, na chuva, com a terra grudada na roupa dela e o rosto molhado de lágrimas e água, ela parecia uma estátua quebrada, prestes a desmoronar. Mas eu não ia deixar. Não ela. Não a minha pequena.
A garota que eu conheci na escola, naquele dia frio e escuro, que caiu aos meus pés enquanto sofria bullying dos outros alunos.
A garota que eu ajudei a se levantar, segurando em sua mão macia e fofa, prometendo abrigo, prometendo colo.
Segurei-a firme contra mim, sentindo o tremor do corpo dela, o frio cortando nós dois, e falei o que precisava, o que eu sabia que ela precisava ouvir, mesmo que não acreditasse.
Então ali, mesmo com o corpo todo molhado, os lábios tremendo e o som da chuva tentando me silenciar, falei em um tom um pouco mais alto, para que ela me ouvisse.
- Você não é o que ele fez de você, Claire!
Eu disse, segurando o rosto dela, meus polegares roçando a pele gelada, tentando trazer um pouco de calor naquele frio estridente.
- Você não é isso!
Eu a olhei, os olhos agora cerrados, expressando seriedade e com um tom de voz mais grave, para que ela levasse em consideração as minhas palavras.
Ela balançou a cabeça, os cabelos loiros grudados no rosto, os olhos escuros cheios de uma culpa que eu queria arrancar dela com as mãos, se pudesse.
- Ethan, você não entende... eu matei pessoas. eu... eu cavei covas!! Eu não sou mais a Claire de antes, eu sou um... m-monstro!
Ela disse, enquanto as lágrimas salgadas caiam de seus olhos, se misturando a água da chuva.
A palavra “monstro” me cortou como uma faca. Ela não era isso. Não pra mim. Nunca seria.
Me inclinei pra mais perto, a chuva batendo no meu rosto, e falei devagar, querendo que ela sentisse cada palavra.
- Você não é um monstro. Você é alguém que foi machucada, Claire. Por pessoas que deviam te amar, por um cara que te manipulou até você não saber mais quem era.
Engoli em seco, odiando ter que dizer o resto, mas sabendo que ela precisava ouvir.
- O que você fez foi errado, sim. Mas isso não é tudo o que você é. Você pode escolher quem quer ser agora. E eu vou estar aqui, te ajudando a lembrar de quem você realmente é!
Ela me olhou, os olhos brilhando com algo entre descrença e desespero.
- Eu não sei se consigo, Ethan... Não sei se consigo ser quem eu era de novo...
Ela abaixou a cabeça, mas eu neguei e com suavidade, levantei a mesma, minha mão em seu queixo, e a olhei nos olhos.
- Então não seja ela ainda.
respondi, sem hesitar.
- Seja quem você é agora, com toda a dor, todas as cicatrizes. Só não me deixa fora disso. Me deixe caminhar com você, me deixe juntar esses pedacinhos do seu coração, me deixe curá-lo.
Ela ficou quieta, a chuva caindo entre nós, e então assentiu, tão leve que quase não vi.
- Eu... por agora só quero ir embora daqui, só quero ir pra longe desse lugar, desses corpos, dessa... Chuva...
Ela disse entre lágrimas de dor e luto, mesmo que seja pelo próprio diabo, o céu parecia desabar sobre nós, como se quisesse lavar o peso do que estávamos fazendo. A terra molhada grudava nas nossas mãos, nas roupas, no rosto de Claire, misturando-se às lágrimas que escorriam silenciosas. Rafael estava lá, inerte, um capítulo final de dor que ela carregava. Segurei a pá com firmeza, o frio cortando meus dedos, e olhei para ela, que tremia, os olhos fixos no chão, como se o mundo inteiro fosse aquele buraco que cavávamos.
- Então primeiro vamos enterrar tudo isso juntos, Claire. Ele, elas, e esse passado.
falei, minha voz cortando o som da chuva, grave e cheia de uma certeza que eu precisava que ela sentisse.
- Acabou, meu anjo. Ninguém mais vai te machucar.
Ela ergueu o rosto, os cabelos loiros colados à pele pálida, os olhos escuros brilhando com uma mistura de luto e alívio. Não disse nada, apenas assentiu em silêncio, um movimento lento, quase imperceptível, enquanto as lágrimas se misturavam à chuva. Juntos, jogamos a terra sobre o corpo, cada pá um passo para longe daquele pesadelo. Ela chorava baixo, o som abafado pelo tamborilar da chuva, mas não parou. E eu sabia que, mesmo naquele momento, eu não a deixaria desmoronar.
Quando terminamos, eu sorri, mesmo com o peito apertado, e passei o braço pelos ombros dela, puxando seu corpo contra mim.
- Agora vamos, pequena. Vamos pra casa. Pra longe daqui.
Eu a puxei pela mão em meio a tempestade fria e cruel, enquanto a guiava para a estrada, pra longe daquela casa, daquelas covas, pra longe dali.
Enquanto caminhávamos pela trilha de terra, a chuva virando garoa, peguei meu celular e chamei um táxi. Não soltei a mão dela nem por um segundo.  era como se ela fosse se soltar naquele momento, e voltar até aquele buraco, junto daquele pesadelo, daquele maníaco.
- Ei... vai ficar tudo bem. Tá?
murmurei, enquanto esperávamos o táxi na estrada.
- Não agora, mas um dia vai. Eu prometo.
Ela não respondeu, só se encostou no meu peito, e eu senti o peso dela contra mim, como se fosse a única coisa mantendo-a no chão. E talvez realmente fosse.
Então, o táxi chegou, e a viagem fora silenciosa, ali naquele carro, o motorista não disse nada e eu agradeci por isso, já que eu e Claire queríamos apenas o silêncio.
Ela se encostou contra mim e eu a abracei forte, enquanto estavamos na estrada, olhando a chuva densa e o céu escuro daquele fim de tarde cinza.
Não demorou muito e o táxi nos deixou na casa dela, o céu ainda em preto e branco, como se o mundo não quisesse dar trégua.
Claire tremia, as mãos geladas, a roupa grudada no corpo. Abri a porta pra ela, e o silêncio da casa nos engoliu. Era pesado, mas familiar, como se a casa soubesse de tudo o que ela carregava.
E em tese, realmente sabia.
Me aproximei dela enquanto entrávamos, e toquei em seu rosto e pescoço, sentindo o frio que emanava de sua pele.
- Droga... Você tá congelada.
falei, franzindo a testa ao ver os lábios dela meio roxos também .
- Vai tomar um banho quente, meu anjo. Eu vou fazer um chá.
Sorri de canto, e me inclinei, dando nela um beijo na bochecha.
- Ethan, não precisa...
começou ela, mas eu a cortei com um olhar. Não ia deixar ela se afundar sozinha, não hoje.
Não fazia sentido ela sofrer enquanto eu estivesse por perto.
- Claire... deixa eu cuidar de você. Só por hoje, porfavor.
Ela suspirou, derrotada, e se aproximou de mim, levando uma mão até meu peito, um toque íntimo e suave que me fez estremecer, misturado ao frio que eu sentia.
- Ethan, eu... Não mereço você...
Ela chorou, as lágrimas caindo, enquanto ela encostava o rosto em meu peito, e eu a abracei, beijando sua testa.
- Você merece isso e muito mais. Agora vai lá, meu anjo. Coloque uma roupa bem quentinha, e desce pra tomar seu chá.
Ela então assentiu ainda de cabeça baixa, e subiu as escadas, os passos molhados ecoando no chão, e enquanto ela tomava banho, fui pra cozinha, o cheiro de camomila logo enchendo o ar. Eu sabia que não ia consertar nada, mas pelo menos era algo. 
Coloquei açúcar e canela, deixando o cheiro ainda melhor, e preparei um sanduíche simples pra nós comermos, de peito de peru, tomate cereja e gorgonzola.
coloquei os pratos na mesa da sala de jantar, e as duas xícaras de chá quente, e observei tudo enquanto pensava um pouco.
Eu e ela estamos ficando...
Parece até um sonho...
Sei que não estamos oficialmente namorando, mas só de poder beijar seus lábios doces e maravilhosos...
Já era tudo pra mim.
Então, cortando meus pensamentos, ela desceu de pijama, e o pijama, droga... parecia um grande pecado.
Uma calça de tecido fino, quase transparente, levemente rosado quase branco. E uma blusa de mangas compridas do mesmo tecido, mas era bem curta, quase deixando a barriga a mostra.
Seus cabelos longos molhados caiam nos ombros, e ela parecia um pouco menos quebrada.
Oque era um alívio pra mim, e ao vê-la ali, quentinha, de banho tomado e mais calma, eu já pude finalmente respirar.
Claire parou no último degrau, os olhos tímidos encontrando os meus, e eu senti o ar ficar mais pesado, como se o mundo tivesse parado por um segundo. Ela desceu devagar, o tecido do pijama abraçando cada curva do corpo dela, e eu precisei me lembrar de respirar.
- Ei...
disse ela, a voz suave, quase um sussurro, enquanto se aproximava.
- Eu... e-esqueci que você também está molhado, Ethan. Você não pode ficar assim... ou pode pegar um resfriado...
Os olhos dela passearam pelo meu peito, onde a camiseta grudava na pele, e eu vi um leve rubor subir às bochechas dela. Sorri, sentindo o calor subir em mim, e levantei uma sobrancelha, dando um passo mais perto.
- Bom, eu não trouxe nenhuma roupa...
falei, a voz mais grave, com um toque de provocação.
- Vou ter que ficar sem camiseta por enquanto. Te incomoda, meu anjo?
Enquanto falava, puxei a camiseta molhada por cima da cabeça, jogando-a no encosto de uma cadeira. O ar frio bateu na minha pele, mas o olhar dela, hesitante e brilhante, aqueceu cada centímetro de mim. Claire então levou as mãos até uma mecha de seu cabelo, a acariciando, os olhos desviando por um segundo de mim antes de voltarem pros meus, e ela balançou a cabeça, tímida.
- N-não...
murmurou, a voz tão baixa que quase se perdeu, as bochechas agora bem rosadas. Eu ri baixinho, adorando o jeito que ela tentava disfarçar o nervosismo, e me aproximei mais, até que o espaço entre nós era quase inexistente. Minha mão encontrou a dela, os dedos se entrelaçando, e eu inclinei a cabeça, tão perto que podia sentir o calor tímido do corpo dela.
- Você tá linda assim, sabia?
sussurrei, os olhos presos nos dela, vendo o jeito que ela prendia a respiração.
- Quentinha, de banho tomado... De pijama...
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas verdadeiro, e por um segundo, o peso do dia pareceu sumir. Então, com um toque suave, ela levou a mão livre ao meu peito, os dedos roçando a pele ainda úmida, e eu senti um arrepio que não tinha nada a ver com o frio.
- Obrigada... V-Você também tá... Bem...
disse ela, tentando soar casual, mas o tremor na voz a entregou. Eu ri, puxando eu corpo pra um abraço rápido, mas firme, sentindo o coração dela bater contra o meu.
- Vamos, pequena. Antes que eu esqueça que prometi cuidar de você e não só ficar te admirando.
Soltei ela com um sorriso, e então sem demora entreguei a xícara de chá a ela, meus dedos roçando os dela de forma sutil e suave e apontei pro sofá.
- Agora senta, Toma seu chá e descansa. Você está exausta.
Ela então assentiu, e se sentou, se encolhendo no sofá, a caneca aquecendo as mãos, e eu me sentei ao lado, tão perto que podia sentir o calor tímido do corpo dela. Ficamos em silêncio por um tempo, só o som da nossa respiração e o relógio na parede. Mas eu precisava saber. Precisava entender onde ela estava.
Onde a mente dela estava.
- Ei... você já pensou no que quer fazer agora?
perguntei, cuidadoso, como se a pergunta pudesse assustá-la.
Ela encarou o chá, o vapor subindo em espirais.
- Não sei, Ethan... Só... quero parar de sentir ele. Rafael. Ele está em mim, o tempo todo, como um veneno. Mesmo morto. e... e-eu sei que tudo isso deve estar te deixando confuso, mas... Tem outras coisas além disso, e eu preciso te contar todas elas... Só não sei por onde começar...
A menção ao nome dele fez meu estômago revirar. Eu odiava o que ele fez com ela, o quanto ele ainda a prendia, mesmo estando debaixo da terra.
E o pior, como ela havia dito, ainda há outras coisas além disso...
Droga. Oque mais aquele cara fez com ela?
Eu nem sequer queria imaginar, e sendo sincero, nem queria saber, eu só queria abraçá-la forte, e proteger ela de tudo isso, de todas essas coisas, de todos esses problemas.
De todo esse sofrimento.
Naquele momento então, eu segurei a mão dela, entrelaçando os nossos dedos, e a olhei nos olhos.
- Ele não está em você, Claire. Ele está na sua mente, porque ele te fez acreditar que você não é nada sem ele, oque não é verdade.
Apertei a mão dela, querendo que ela sentisse que eu estava ali, e realmente estava, sempre estaria.
- e sobre todo o resto que você ainda precisa me contar, fique calma, conte aos poucos, priorize seu descanso primeiro, não tenha pressa, pequena.  um dia de cada vez.
Ela me olhou, os olhos escuros brilhando, e perguntou, com a voz tremendo.
- Por que você faz isso, Ethan? Por que fica? Eu... não tenho tanto valor assim... Você sabe, eu Já até fui grossa com você várias vezes por causa dele, te maltratei, mas você ainda continua aqui... Porquê?
Porquê quer ficar?
Ela perguntou enquanto me olhava, uma mecha de seus cabelos molhados caindo sob os olhos, e eu me aproximei dela, levando uma mão até seu cabelo e o colocando atrás de sua orelha.
E então eu sorri, mesmo com o coração apertado, e a respondi enquanto acariciava seu rosto e suas bochechas fofas e macias.
- Porque você é a minha Clarinha. E eu te amo. e o amor de verdade supera tudo, meu anjo. Literalmente tudo.
E ela então negou com a cabeça.
- V-Você é bom demais pra mim, eu nunca vou merecer todo esse cuidado...
Ela disse enquanto levava a xícara de chá até os lábios, saboreando um pouco do mesmo.
- Não diga isso jamais, Meu anjo. Você merece todo cuidado e carinho do mundo, e eu vou fazer você acreditar nisso de novo.
Me inclinei pra mais perto dela, e levei minha mão até seu cabelo, o acariciando e beijando sua testa.
- Está gostoso pequena?
Perguntei enquanto a olhava.
E ela rapidamente assentiu.
- V-Você colocou canela no chá e ficou muito bom, eu nunca tinha experimentado chá assim...
Ela tomou mais um gole, e eu fiquei ali admirando aquela versão fofa dela, que eu vi poucas vezes.
De pijama, frágil, os cabelos molhados...
Ela era linda, de qualquer maneira.
De qualquer jeito.
E agora, era minha.
Pelo menos provisoriamente.
- fiz um sanduíche pra você também, imaginei que estivesse com fome.
Falei, e ela negou.
- N-não estou, na verdade nem consigo comer, m-mas eu vou. porquê você fez...
Naquele momento, quando Claire disse aquilo, eu senti um aperto no peito, mas também uma faísca de esperança. Ela estava ali, tentando, mesmo com todo o peso que carregava. Levantei os olhos para ela, e um sorriso suave escapou dos meus lábios, um daqueles sorrisos que vinham do fundo do coração, porque, apesar de tudo, ela ainda era a minha Clarinha.
- Vem cá, meu anjo...
falei, a voz suave e calma, estendendo a mão para ela com um gesto gentil.
- Vamos sentar na mesa, só você e eu. Prometo que o sanduíche tá tão bom quanto o chá. E se não estiver, você pode me culpar. Eu deixo.
Ela hesitou, os olhos escuros ainda brilhando com aquele misto de cansaço e vulnerabilidade, mas com um sorriso pequeno e cansado.
Claire pegou minha mão, os dedos dela gelados contra os meus, e eu a guiei com cuidado até a mesa da sala de jantar, onde as xícaras de chá fumegavam e os sanduíches esperavam.
Puxei a cadeira pra ela, com um exagero brincalhão, como se fosse um garçom num restaurante chique.
- Sente-se, senhorita.
e logo, ela finalmente deixou escapar um risinho baixo, quase inaudível.
- Idiota...
disse ela com uma risada fofa, enquanto sentava e puxava a xícara de chá mais perto, as mãos envolvendo a cerâmica quente.
- idiota, mas charmoso, admite vai.
retruquei, sentando ao lado dela, tão perto que nossos joelhos se tocaram sob a mesa.
Peguei um dos sanduíches e coloquei no prato dela, empurrando-o com cuidado.
- pelo menos uma mordida, pequena.  Sei que você tá cansada, mas precisa de um pouco de energia.
Ela olhou pro sanduíche, o peito de peru e o tomate cereja brilhando na luz do lustre entre as fatias de pão, e depois pra mim, como se estivesse pesando se valia a pena o esforço. Então, com um suspiro, ela pegou o sanduíche e deu uma mordida pequena, mastigando devagar. Seus olhos se arregalaram um pouco, e ela murmurou, quase surpresa:
- Está... Muito gostoso...
Ela sussurrou enquanto mastigava, me fazendo deixar escapar um sorriso, sentindo um calor subir pelo peito.
- Viu? Eu não minto. Peito de peru, tomate cereja e um toque de gorgonzola. Receita de mestre.
Ela revirou os olhos, mas deu outra mordida, e dessa vez o movimento foi mais natural, como se o peso do dia estivesse, por um segundo, mais leve. Ficamos ali, comendo em silêncio por um momento, o som dos nossos dentes contra o pão e o leve tilintar da xícara dela contra o pires preenchendo o ar. A luz suave da sala de jantar caía sobre ela, iluminando os cabelos loiros ainda úmidos, que caíam em ondas sobre os ombros. O pijama, aquqele tecido fino que abraçava o corpo dela, fazia meu coração acelerar, mas eu mantive o foco nos olhos dela, na forma como eles pareciam um pouco menos distantes agora.
Mais calmos
Mais suaves.
- Sabe...
comecei, limpando a garganta e me inclinando um pouco mais pra ela
- quando eu era pequeno, minha mãe fazia sanduíches assim pra mim quando eu tava triste. Ela dizia que comida boa é tipo um abraço indireto. E eu acho que é verdade.
Claire parou, o sanduíche a meio caminho da boca, e me olhou com uma expressão que misturava curiosidade e algo mais suave, algo que parecia gratidão.
- Oh... q-que fofo... S-Sua mãe parecia ser incrível...
disse ela, a voz baixa.
- Eu... não lembro da última vez que alguém fez comida pra mim assim. Com... Amor e carinho... Acho que só quando minha mãe era viva...
Ela disse, ficando um pouco mais cabisbaixa, mas ainda comendo.
- Anotado, então vou fazer isso mais vezes.
respondi, sem hesitar, estendendo a mão pra tocar a dela, que descansava na mesa. Meus dedos traçaram círculos suaves na pele dela, e eu senti um arrepio subir pelo meu braço.
- Quero te dar todos os abraços que você merece, Clarinha. Seja com sanduíches, chás ou só... estando aqui.
Ela então abaixou o olhar, as bochechas ficando levemente rosadas, e eu vi a luta interna dela, o jeito que ela queria acreditar em mim, mas ainda se sentia indigna.
- Ethan, eu... não sei como você faz isso. Como você consegue olhar pra mim, depois de tudo, e ainda... querer ficar...
Eu apertei a mão dela, firme, mas gentil, e me inclinei até que nossos rostos estivessem mais próximos, tão próximos que nossos olhos pareciam duas estrelas colidindo.
- Porque eu vejo você, Claire. Não o que aconteceu, não o que ele fez você acreditar que você é. Eu vejo a garota que ria comigo na escola, que segurou minha mão mesmo quando estava com medo, que ainda está aqui, lutando, mesmo achando que não consegue.
Minha voz saiu mais grave, carregada de certeza.
- E eu vou te lembrar disso todos os dias, até você ver oque eu vejo também.
Ela engoliu em seco, os olhos brilhando com lágrimas que não caíram, e então, abaixou a cabeça novamente, evitando me olhar por alguns segundos que pareceram uma eternidade.
- V-Você é... teimoso, sabia?
sussurrou ela, a voz tremendo, mas com um toque de leveza.
- Só quando se trata de você.
murmurei de volta, enquanto a olhava, Ficamos assim por alguns minutos, respirando o mesmo ar, o mundo lá fora parecendo distante, como se só existisse aquele cantinho da mesa, com o cheiro de camomila e canela no ar.
Ela se afastou primeiro, pegando a xícara de chá e tomando um gole, como se precisasse de algo pra se ancorar.
- E-Esse chá...
Disse ela, bem baixinho, quase mais pra si mesma do pra mim.
- ele me faz lembrar...de casa. Não dessa casa, é óbvio, mas... de um lugar onde eu me sinto segura, não sei explicar, só sei que... me dá paz...
Ela sorriu, um sorriso pequeno, mas caloroso, enquanto ela tomava o chá.
- Então vou fazer mais chás assim.
falei, brincando, mas com uma promessa implícita.
- E talvez mais sanduíches. Quem sabe até um bolo, se você me pedir muito é claro.
Ela riu, um som pequeno, mas tão verdadeiro que fez meu coração pular.
- Você, fazendo bolo? D-Duvido.
Ela disse, enquanto parecia um pouco mais tranquila, e eu sentia meu coração esquentar.
- Tá bem, desafio aceito.
retruquei, levantando uma sobrancelha.
- Mas só se você prometer que vai comer tudo.
Ela assentiu, o sorriso ainda lá, e por um momento, senti que estávamos reconstruindo algo, tijolo por tijolo, mesmo que fosse frágil. Terminamos os sanduíches, e eu notei o jeito que os ombros dela pareciam mais relaxados, o cansaço ainda presente, mas menos esmagador.
Quando as xícaras estavam vazias e os pratos só com migalhas, eu me recostei na cadeira, observando ela com cuidado.
- Ei, Clarinha...
falei, a voz suave, quase um sussurro.
- Você tá exausta. Quer descansar um pouco? A gente pode se jogar no sofá, Sem pressão, sem nada. Só você e eu.
Ela olhou pra mim, os olhos pesados, mas com um brilho de confiança que me fez querer abraçá-la e nunca soltar.
- S-Sim...
Ela respondeu, a voz baixa.
- Acho que vai ser melhor pra nós dois, só... Esquecer um pouco de tudo.
Seus olhos se desviaram para a xícara de chá vazia, onde ela deslizava os dedos pela alça suavemente parecendo pensar em coisas que nem ela mesma entendia.
- Com toda certeza, meu anjo.
falei, me levantando e estendendo a mão pra ela mais uma vez.
- Vamos lá, não se preocupe com a louça, eu lavo depois.
Ela então assentou, pegando minha mão, e caminhamos até o sofá, o silêncio da casa nos envolvendo como um cobertor. Sentei primeiro,
a puxando pra se aninhar contra mim. E Ela se encolheu no meu peito, a cabeça descansando no meu ombro, o calor do corpo dela contra o meu me fazendo esquecer o frio que ainda sentia da roupa molhada.
- Você vai... Ficar resfriado...
Ela sussurrou baixinho, enquanto sentia minha calça ainda úmida da água da chuva em sua coxa.
- Não se preocupe, pequena. Ter seu corpo contra o meu já me esquenta bastante.
Eu sorri, enquanto a olhava ali, mais calma, mais tranquila, aquilo era tudo oque eu queria... Ver ela bem, ou ao menos, calma por enquanto.
Claire abaixou a cabeça, não disse nada, mas seu olhar dizia tudo, era suave, como se realmente agora ela pudesse descansar finalmente.
E era verdade.
Mas pra concretizar seu descanso por completo, eu sem demora, peguei um cobertor que estava jogada no encosto do sofá e a cobri, ajustando o mesmo com cuidado pra que ela ficasse quentinha, e eu também.
Já que o dia frio e aquela chuva tinha sido cruel com nós dois.
- Melhor agora?
perguntei, minha mão acariciando os cabelos dela, ainda úmidos, mas macios. Como sempre.
- Sim.
murmurou ela, a voz já sonolenta, os olhos se fechando aos poucos.
- Ethan... obrigada. Por tudo.
Ela sussurrou baixinho, enquanto estávamos ali, juntos embaixo do edredom, naquele fim de tarde, quase noite, frio e chuvoso.
- Não precisa agradecer...
sussurrei, beijando o topo da cabeça dela, com carinho e ternura.
- Só descansa, eu cuido de você.
Acariciei seus cabelos de forma lenta e calma, e não demorou muito pra respiração dela ficar lenta, o corpo relaxando completamente contra o meu. E eu fiquei ali, a segurando o máximo que eu podia contra mim como se isso pudesse protegê-la de tudo, o som do relógio na parede marcando o tempo, enquanto o peso do dia parecia se dissolver, pelo menos por enquanto. mas não importava oque acontecesse, eu ia protegê-la, mesmo que fosse de si mesma.
Mesmo que fosse de sua própria mente.
E então, ali naquele sofá macio e confortável, com o amor da minha vida nos braços, embaixo de uma coberta quente e grande, eu também acabei cochilando. Deixando o cansaço me levar, a apertando forte contra meu corpo, a escuridão me tomou.
Mas não por muito tempo, pois logo eu acordei com o celular vibrando no bolso, o som baixo, mas insistente, agudo e seguido de uma vibração chata.
Claire ainda dormia, encolhida contra mim, o rosto enterrado no meu peito e mais calmo do que eu tinha visto em dias.
Meu Deus...
Parece até um sonho.
Com cuidado, peguei o telefone, vendo o nome de Matthew na tela, um colega da sala, e do basquete também, e logo Atendi, mantendo a voz baixa.
- Fala, Matt, oque houve?
Eu disse, tentando soar ainda mais baixo pra não acordá-la, enquanto acariciava seus cabelos macios e sedosos.
- Fala Ethan, cara! Tô organizando uma saideira na praia hoje à noite, pra comemorar o último ano. Você sabe, pra aproveitar a vida antes de virarmos adultos, antes de huh... ter que trabalhar.
A voz dele estava cheia de animação, como se o mundo fosse só risadas e festa.
-  Eu meio que já trabalho, mas tô gostando da ideia. diz ai, que praia é?
Eu falei quase com um sussurro, enquanto ouvia o som de mais algumas vozes do outro lado da linha.
- Aqui na Cape May, já tô com a galera da sala aqui, a gente provavelmente vai acender uma fogueira e fazer um churrasco, você vem? Trás a Claire também, ela precisa curtir um pouco.
Eu hesitei, olhando pra ela ali, dormindo como uma princesa, finalmente descansando a mente depois de tudo aquilo...
Aquilo que só nós sabemos, enquanto eu pensava.
Uma festa... Agora? Depois de tudo o que aconteceu?
Não parecia ser adequado...
Mas talvez, fosse melhor pra nós dois.
Tanto pra ela quanto pra mim.
Um momento pra respirar, pra lembrar que ela ainda era jovem, que ainda podia viver.
Que podia ser feliz...
Ainda mais agora, sem os malditos pais que tanto a machucavam e sem aquele doente do Rafael...
Ela precisava ver, que tinha uma vida toda pela frente, e que também, não sofreria mais bullying.
Sim...
Ela está livre...
Ninguém nunca mais vai machucá-la.
E nós precisamos comemorar isso.
Porém, não vou forçar ela a ir, vou convidá-la com calma, e convencê-la de mansinho, e ela vai gostar.
- Cape May... ok, deixa eu falar com ela primeiro, Matt. Te ligo depois. Valeu pelo convite.
Eu falei, enquanto via ela se mexer um pouco ali, com seu corpo contra o meu, ela parecia estar acordando.
- Beleza, cara. Mas vem, hein? Tô contando com vocês.
Ele desligou, e eu fiquei encarando o celular, pensando se isso era uma boa ideia.
Mas enquanto eu pensava, Claire se mexeu um pouco mais, coçando os olhos devagar e dando um bocejo baixinho, os olhos semicerrados me encarando.
- E-Ei...Quem era?
Ela perguntou, a voz rouca de sono.
- Era o Matthew, da nossa sala.
respondi, guardando o celular.
- Ele está chamando a gente pra uma festa na praia. Você sabe último ano, essas coisas. Na cape may...
Eu disse enquanto passava meu braço em sua cintura, a acariciando.
Mas Ela então negou, abaixando a cabeça, desviando seu olhar do meu por um momento.
- C-Com tudo isso que aconteceu hoje? Eu não sei, Ethan... Não sei se consigo...
Ela disse enquanto voltava a se acomodar melhor entre o cobertor e as almofadas.
- Eu entendo, nem eu queria, mas talvez seja bom, Claire. Sair um pouco, se distrair. Não precisa fingir que tá tudo bem, mas... às vezes, estar com outras pessoas ajuda. Mesmo que seja só por uma noite.
Ela mordeu o lábio, os olhos incertos. Eu sabia que ela estava dividida, que uma parte dela queria se trancar no quarto pra sempre. Mas eu não ia deixar.
- Se você diz...
disse ela, finalmente, a voz hesitante.
- Eu... A-acho que dá pra tentar...
Eu sorri, aliviado.
- Que bom, meu anjo. Então vamos lá? Afinal, eles vão fazer um churrasco, e quem é que não ama uma carne assada?
Eu sorri, enquanto acariciava os cabelos dela, e ela assentiu.
- Parece que vai mesmo ser legal...
Ela sorriu, mesmo meio triste e cansada, e se cobriu com o cobertor.
- Não, não. Levanta ou você vai acabar dormindo de novo.
Eu disse enquanto ria suavemente, puxando devagar e com cuidado, o cobertor dela, a vendo fazer uma carinha triste e um pouco decepcionada.
- Eu queria ficar aqui... p-pra sempre...
Ela disse enquanto se inclinava pra me abraçar, seu corpo contra o meu me trazendo calor, e algo que eu tinha uma certa vergonha de admitir.
- Você... É louco, Ethan..completamente pirado, porquê me ajudou a enterrá-los? Porquê vai encobertar tudo isso? Eu... N-não mereço o amor puro e gentil que você tem pra me dar, não mais...
Ela disse enquanto me abraçava apertado, e eu senti suas lágrimas quentes molharem meu peito nu.
Ah, meu anjo...
Sim, eu sou louco...
Louco por você.
Sempre fui, sempre serei.
E é óbvio que eu te amo muito, mas...
Não é só esse o motivo pelo qual eu compactuei com oque você fez...
É porquê eu sei que no final de tudo isso...
A vítima sempre foi você.
A pequena Claire, que desde pequena viu sua própria mãe morrer, incompreendida pelo pai, que sequer a consolou ou cuidou dela e já procurou outra mulher, começando ambos a maltratá-la até que ela unisse a falta da mãe e a falta de amor do pai a morte, e tentasse suicidio, trazendo marcas fundas e ardentes pelo corpo, desde menininha.
Alvo de bullying na escola pelos cortes e machucados e pela timidez, nunca foi amada ou cuidada corretamente, inclusive, eu era um dos idiotas que faziam piada com ela. Mas eu tive sorte e consegui o perdão dela a tempo.
Mas enfim, sobre ela, sozinha e machucada, encontrou aquele cara, que achou ser seu refúgio...
Mas ele era sua própria ruína.
E mais uma vez... Ela acabou machucada de novo, pela única pessoa que conseguiu amar.
- Claire, olha pra você, olha pra sua vida, pra tudo oque você sofreu desde a sua infância... Você acha mesmo que a vítima de tudo isso é Liz e Laurie? Ou Rafael? Me diz.
Eu falei, o tom sério e agora firme, querendo que ela vesse que não estava errada.
Não em partes...
Mas ainda assim, ela tinha razão.
- É... Não.... Não são eles...
Ela sussurrou baixinho, e eu assenti.
- Exatamente, não quero que pense que sou alguém como Rafael, Mas vou te dizer o seguinte, ou você os matava, ou você SE matava. Desculpe se falei de uma maneira um pouco pesada, mas é a realidade. E eu fico feliz que você escolheu a primeira opção.
A abracei firme, ainda com a expressão um pouco séria, e acariciei seus cabelos.
- Agora vai se arrumar, vamos sair um pouco pra esfriar a mente... Quando estivermos lá podemos conversar mais se quiser.
Eu falei enquanto beijava sua testa suavemente, e ela assentiu, ainda com o olhar baixo e pensativo.
- T-Tudo bem, eu... Já vou...
Ela sussurrou enquanto se sentava ali, no sofá, e depois se levantava, indo até as escadas, parando ali, logo ao início.
- V-Você pode vir... Se quiser...
Ela disse, quase como um baixo sussurro, e eu então me levantei.
- É Claro que quero, meu anjo.
Fui até ela, e nós subimos as escadas de sua casa grande e bem sofisticada, indo até seu quarto, fofo e em tons de rosa.
Então, parou, olhou para mim e franziu a testa, como se estivesse se lembrando de algo.
- Ethan, você... Ainda está todo molhado...
disse ela, a voz suave, mas com uma pontada de preocupação.
- Não trouxe nenhuma roupa, não é?
Dei de ombros, sorrindo, tentando aliviar o clima.
- Pois é, pequena. Acho que vou ter que ficar assim por enquanto, mas lá na praia eu me viro, mattew deve ter alguma roupa pra me emprestar ou sei lá, depois eu passo em casa e pego algumas roupas também.
dei um sorriso pra não preocupá-la, mas ela balançou a cabeça, um sorriso tímido surgindo nos lábios.
- Não, bobo... espera aí...
Ela se virou e abriu a porta de um outro quarto da casa, bem a frente do seu, remexendo em uma gaveta no canto, o som de tecido sendo mexido preenchendo o silêncio. Depois de um momento, ela voltou com um short masculino azul-escuro e uma camiseta cinza, simples, mas limpos e dobrados.
- São... Na verdade, eram do meu pai...
disse ela, a voz falhando por um instante, os olhos baixando para as roupas nas mãos.
-Acho que vão servir em você. Não quero que você pegue um resfriado por minha causa...
Fiquei parado, sentindo um aperto no peito ao ouvir a menção ao pai dela, sabendo o peso que aquelas palavras carregavam. Sabendo que eles foram assassinados...
É claro que eu não me lamentava por isso, mas...
Senti algo estranho.
Peguei as roupas com cuidado, os dedos roçando os dela, e a olhei nos olhos.
- Tem certeza?
perguntei, a voz baixa, querendo ter certeza de que ela estava confortável com isso.
E ela assentiu, um pouco rápido demais, como se quisesse deixar o momento passar.
- S-Sim, tenho... pode usá-las... além disso, você tá parecendo um cachorro molhado. Não combina com você.
Ela tentou rir, mas o som saiu frágil, e eu sorri, querendo aliviar o peso.
- Tá bom, meu anjo. Vou aceitar, mas só porque você tá insistindo. 
peguei as roupas e dei um passo para o lado, apontando para o closet de seu quarto.
- Agora vai, se arruma. temos uma longa festa pela frente.
Ela assentiu e se virou e entrou no seu quarto,  mas não antes de me lançar um olhar que misturava timidez e algo mais suave, mais leve, ela estava mais calma, ou parecia.
E eu fui até o banheiro no final do corredor, trocando rapidamente a calça encharcada pelo short e pela camiseta do pai dela. As roupas tinham um leve cheiro de lavanda, como se tivessem sido guardadas com cuidado, e serviam surpreendentemente bem, embora o short fosse um pouco largo na cintura. Voltei para o quarto, me sentando na cama e vi claire de frente para sua penteadeira, pegando algumas coisas. E então ao perceber minha presença, ela se virou pra me olhar e sorriu.
- Parece que eu estava... Certa. Serviu perfeitamente em você.
Ela disse com um sorriso, enquanto colocava uma mecha de seu cabelo pra trás da orelha.
- Sim, meu anjo, estava mesmo. Bom... Vou estar aqui na cama esperando você se arrumar, ok?
Me sentei ali em sua cama fofa e macia junto ao seus vários bichinhos de pelúcia, e a esperei ali.
- T-Tudo bem, eu só vou... Pegar algumas maquiagens aqui.
Ela disse, indo até a penteadeira.
Me encostei sob a parede, olhando pela janela grande e extensa a noite escura lá fora, até que sinto algo fofo e macio contra meus pés, passando entre eles.
Logo, me assustei e fui ver oque era.
Oque?
Era uma gatinha gordinha, de pelo branco e olhos azuis grandes, que miava bem baixo e por isso, eu quase não ouvi quando ela se aproximou.
Mas... De onde é que ela veio?
- Oi, coisinha fofa.
Sussurrei me inclinando pra pegá-la no colo, e logo claire se virou.
- Ah! Essa é meredith, minha gatinha... Eu... Não te apresentei ela antes porquê ela sai bastante por aí, então provavelmente não estava em casa. É tão fofinha, não é? Dá vontade de apertar.
Claire falou com uma voz mais fofa e alegre assim que a viu, a olhando com amor e ternura, os seus olhos, frios e sem vida, agora pareciam um céu estrelado do tanto que brilhavam.
Meredith...
Que nome lindo...
E que gatinha linda...
Parecia uma grande bolinha de algodão.
Acariciei seu pelo logo depois de colocá-la na cama, e me lembrei de anos atrás... Quando eu e ela saíamos e acabávamos vendo gatinhos de rua, Claire amava gatos, e sonhava em ter ao menos um que o fizesse companhia, mas seus pais odiavam a ideia, tanto gatos quanto cachorros, e nunca deixaram ela ter nenhum.
- Muito... Ela parece uma bolinha de algodão, desde quando ela está aqui com você, meu anjo?
Claire então ficou agora um pouco mais séria, e olhou para o chão.
- D-Desde que... Meus pais morreram...
Ela disse baixinho, e eu assenti.
- faz sentido, bom... Fico feliz por você ter um gatinho, eles são uma companhia muito boa.
Eu disse enquanto sorria, vendo a gatinha virar a barriga pra cima, pedindo carinho.
- Sim...
Claire sussurrou, e vi ela ficar séria agora, quase triste, e seus olhos marejaram.
- Oque houve, pequena?
Perguntei enquanto acariciava o queixo de meredith, ouvindo seu ronronar.
- Só estou pensando... aquele dia... Na suíte do Rafael em que você me encontrou literalmente morta... Se eu tivesse mesmo partido, ela... Nunca saberia, a comida acabaria e ela... Teria que... Voltar pras ruas...
Ela começou a chorar, enquanto se abaixava até a cama, acariciando meredith, que se levantou rapidamente, se aninhando entre os braços e os cabelos de Claire, como se soubesse oque ela estava pensando.
- Sim. Fico feliz que tenha pensado nela, pois infelizmente, era isso mesmo que poderia ter acontecido.
Eu disse enquanto a olhava.
- Então porfavor... não faça isso de novo, nunca, jamais.
Eu implorei enquanto a olhava, me lembrando do desespero que senti naquele dia, naquele hospital, naquelas semanas que pareciam anos...
- Eu te amo, e ela também.
Eu sussurrei e acariciei as bochechas dela, enxugando suas lágrimas.
- Obrigada... P-por tudo...
Ela disse enquanto me olhava, com um sorriso triste.
- Por nada, meu anjo... Agora vamos, vai se arrumar, a gente vai sair e você vai se sentir bem melhor depois, eu garanto.
Eu falei, e ela assentiu, enquanto se levantava.
- Eu... Espero...
Ela disse baixinho, enquanto saia, indo até seu closet.
E naquela noite, enquanto Claire se arrumava no quarto, eu fiquei na sala, mexendo no celular, tentando não pensar no que ela enfrentou hoje.
No que enfrentamos hoje.
A casa tava quieta, mas o silêncio não era mais tão pesado. Talvez fosse ela, talvez fosse eu, mas algo parecia... diferente. Mais leve, mesmo que só um pouco.
- Ethan?
A voz dela veio do closet, e quando levantei os olhos, quase esqueci como respirar.
Claire saiu pela porta devagar, o corpo iluminado pela luz fraca do quarto.
Droga...
Ela usava um biquíni branco minúsculo, que mal cobria os seios fartos, as tiras finas amarradas nos ombros e na cintura. A parte de baixo era ainda mais ousada, praticamente sumindo entre a bunda grande dela de um jeito que fazia o sangue subir pra minha cabeça. Por cima, ela jogou um short jeans curto e uma camiseta leve, mas o biquíni... caramba, o biquíni era impossível de ignorar. Ela parou na minha frente, os cabelos loiros soltos caindo nos ombros, e mordeu o lábio, como se estivesse nervosa com o que eu ia pensar.
- Você... Acha que é muito?
Ela perguntou, a voz baixa, os olhos evitando os meus.
Eu me levantei, o coração batendo forte, e cheguei mais perto, incapaz de disfarçar o jeito que ela me afetava.
- Claire...
Minha voz saiu mais rouca do que eu queria.
- Você está... Meu Deus, você está... perfeita.
Ela corou, os olhos finalmente encontrando os meus, e eu vi um brilho ali, algo que não via há muito tempo. Algo vivo. Dei um passo à frente, as mãos coçando pra tocar ela, mas me contive, só deixando os dedos roçarem seus lindos cabelos.
- Sério...
murmurei, tão perto que podia sentir o calor da pele dela.
- Você tá tão linda que eu não sei se consigo dividir você com a praia inteira hoje.
Ela riu, um som leve, quase tímido, e deu um passo pra trás, brincando com o cabelo.
- P-Para, Ethan. É só um biquíni...
Ela disse, e eu neguei.
- Só um biquíni?
Levantei uma sobrancelha, sorrindo. -Esse biquíni é uma arma, Claire. E eu sou o cara mais sortudo do mundo por poder ver isso...
Ela revirou os olhos, mas o sorriso ficou, e por um segundo, vi a Claire que eu conheci antes de tudo desmoronar. A Claire que ria fácil, que me fazia querer ser melhor. Peguei a mão dela, a puxando pra mim, e dei um beijo rápido na testa dela.
- Agora vamos, antes que eu mude de ideia e te mantenha aqui só pra mim.
falei, piscando.
Ela riu de novo, e isso foi o suficiente pra fazer meu peito aquecer.
Chamamos um táxi, e a viagem até Cape May foi tranquila, o ronco do motor misturando-se ao som distante do mar. Eu segurava a mão de Claire, seus dedos frios entrelaçados nos meus, a cabeça dela encostada no meu ombro. Ela não falava, mas eu sentia o nervosismo dela na forma como apertava minha mão a cada solavanco do carro. O céu estava nublado, pesado, com nuvens escuras que pareciam prontas para desabar, mas o brilho fraco das estrelas lutava para atravessar as frestas. Olhei para ela, o rosto iluminado pelo reflexo das luzes da estrada, e sorri.
- Ei, Vai ser bom, Clarinha. Prometo.
sussurrei, apertando sua mão. Ela apenas assentiu, os olhos escuros fixos na janela, como se procurasse algo além do horizonte.
Quando chegamos à praia, o ar salgado nos envolveu, misturado ao cheiro de madeira queimando. A fogueira crepitava no centro de um círculo de pedras, lançando sombras dançantes na areia úmida. O grupo de Matthew estava espalhado ao redor, uns dez ou doze colegas da nossa sala, alguns sentados em cobertores, outros de pé, segurando latas de cerveja e refrigerante. Um alto-falante portátil tocava uma música bem conhecida da banda Artic Monkeys, a música vibrando contra o som das ondas que quebravam suaves na costa. Matthew nos viu de longe e correu até nós, o cabelo bagunçado pelo vento, o sorriso largo brilhando sob a luz do fogo.
- Ethan! Claire! Caramba, vocês vieram mesmo!
Ele deu um tapa no meu ombro, quase me desequilibrando, e se virou para Claire, hesitando antes de puxá-la para um abraço rápido.
- E aí, garota. Como você tá?
Ele perguntou, com um tom animado e receptivo.
Claire forçou um sorriso, os ombros tensos, mas respondeu com a voz baixa, quase engolida pelo vento.
- B-Bem... É bom estar aqui...
Mattew então sorriu, e apontou pra fogueira.
- isso é bom, mas ei, fiquem a vontade, a festa está só começando.
Ele riu enquanto se afastava, indo até a churrasqueira improvisada logo a frente, e eu olhei pra Claire, notei o esforço dela, o jeito que segurava minha mão com mais força, e passei o braço pelos ombros dela, a puxando para o meu lado.
- Relaxa, pequena. Vamos curtir.
Murmurei, só para ela ouvir. E ela olhou para mim, os olhos brilhando com uma mistura de nervosismo e gratidão, e assentiu.
O grupo estava animado, rindo alto, alguns dançando desajeitadamente na areia. Uma garota, Sarah, da nossa sala mas que não a conhecíamos tão bem, veio correndo com duas latas de refrigerante geladas, o cabelo preso num rabo de cavalo que balançava enquanto ela falava.
- Ethan! Claire! Peguei isso pra vocês, aproveitem e fiquem a vontade, tem carne ali também!
Ela entregou uma lata para cada um, o metal frio gelando meus dedos.
- E Claire, você tá linda! Esse biquíni é tipo... uau!
Sarah apontou para o biquíni branco de Claire, visível sob a camiseta leve, e ela corou, abaixando a cabeça.
-O-Obrigada... É só um biquíni...
murmurou, mas Sarah balançou a cabeça, rindo.
- Que nada! Você tá arrasando. Vem, senta com a gente!
Puxei Claire para um cobertor perto da fogueira, onde Matthew e outros dois caras, Lucas e Ryan estavam jogando conversa fora, os espetos de carne chiando numa grelha improvisada. O cheiro de churrasco enchia o ar, misturado ao sal do mar e ao leve aroma de cerveja e refrigerante derramados na areia. Sentei primeiro, puxando Claire para se aconchegar ao meu lado, o calor da fogueira aquecendo nossas pernas.
- Tá com fome, pequena?
perguntei, apontando para os espetos. Ela balançou a cabeça, hesitante, mas Lucas, um cara baixo com óculos tortos, entregou um espeto para ela com um sorriso.
- Vai, Claire, experimenta! essa carne está boa demais. Matthew que está grelhando, mas não conta pra ele que eu disse isso.
Ele piscou, e Claire deu um risinho baixo, pegando o espeto com cuidado.
- Eu ouvi isso, em! Mas nem precisava falar, eu sou ótimo na cozinha.
Matthew gritou de trás da grelha, apontando a espátula como se fosse uma arma.
- Claire, come aí e me diz se não tá perfeito. Ethan, você também, cara, aproveita que a melhor carne do mundo não é servida todos os dias!
Eu ri, pegando um espeto, e mordi a carne, o sabor defumado explodindo na boca.
- Tá aprovado, Matt. Mas não deixa subir pra cabeça não em.
provoquei, e ele riu, jogando uma lata vazia na minha direção, que desviei por pouco. Claire riu também, um som tímido, mas verdadeiro, e senti meu peito aquecer. Ela estava ali, tentando, mesmo com tudo o que carregava.
Enquanto comíamos, Ryan, que estava sentado de pernas cruzadas no cobertor, começou a contar uma história idiota sobre como quase foi expulso do colégio por hackear o sistema de notas.
- Eu juro, se não fosse pelo Ethan me cobrindo, eu estaria ferrado!
ele disse, apontando para mim. Claire me olhou, surpresa, a sobrancelha arqueada.
- S-Sério? Você nunca me contou isso, Ethan.
disse ela, a voz com um toque de curiosidade. Dei de ombros, sorrindo.
- Ah, Não foi nada demais. Só disse pro diretor que o Ryan estava ‘testando a segurança do sistema’.
O grupo caiu na gargalhada, e Claire balançou a cabeça, um sorriso brincando nos lábios. -Você é um bobo...
Ela murmurou, mas havia um brilho nos olhos dela, algo que parecia vivo pela primeira vez em muito tempo.
De repente, Matthew gritou:
- Ei galera, vamos pra água! Tá frio, óbvio, mas quem liga? É praia, porra!
Risos ecoaram, e as pessoas começaram a tirar as roupas de cima, correndo para o mar como um bando de adolescentes idiotas, que na verdade, era isso que éramos, e Claire hesitou, o vento frio batendo na pele dela, a camiseta leve tremulando contra o biquíni. Olhei para ela, sentindo o peso da dúvida nos olhos dela, e peguei sua mão, apertando de leve.
- Vem, Clarinha. Só um mergulho. Prometo que te aqueço depois.
falei, piscando com um sorriso. Ela riu baixo, tímida, mas o som era tão verdadeiro que fez meu coração pular.
- Só um... S-Se eu congelar... A culpa é sua.
disse ela com um sorriso suave no rosto, e tirou a camiseta e o short, ficando só com o biquíni branco que abraçava cada curva do corpo dela. O brilho da fogueira dançava na pele dela, e senti os olhares de alguns caras no grupo, o que me fez cerrar os dentes por um segundo. Ignorei o ciúme, focando nela. Ela era minha Clarinha, e ninguém ia fazer ela se sentir menos que perfeita. Tirei minha camiseta, jogando a mesma na areia, e puxei ela para a água, correndo sem dar tempo para ela pensar, nos jogando na agua como duas crianças felizes e despreocupadas.
O mar estava gelado, as ondas batendo contra nossas pernas, subindo até a cintura. Claire gritou quando uma onda a acertou, o som misturando surpresa e risada.
- E-Está congelando...
ela exclamou, mas não parou, correndo comigo, a mão dela firme na minha. A água subiu até o peito, e quando uma onda maior nos jogou um contra o outro, segurei ela pela cintura, meus braços firmes, mantendo-a perto. Ela passou os braços ao redor do meu pescoço, o cabelo molhado caindo no rosto, gotas d’água brilhando nos cílios sob a luz fraca da lua.
E mesmo naquela água gelada, ela ria e parecia realmente feliz.
Pelo menos ali, naquele momento.
- Tá vendo?
falei, a voz baixa, o rosto tão perto que podia sentir o calor da respiração dela.
A única fonte de calor naquela água congelante
- Você ainda sabe viver, Claire. Você ainda é você.
Eu disse em meio ao som do mar.
Ela sorriu, o coração dela batendo contra o meu peito, e murmurou
- Só porque você tá aqui...
Seus dedos apertaram minha nuca, e por um momento, o mundo era só nós dois, a água nos balançando, o frio agora sendo esquecido. Nadamos por alguns minutos, rindo, brincando, o grupo ao nosso redor gritando e jogando água uns nos outros, como se o peso do mundo não existisse.
E Quando saímos da água, tremendo de frio, corri para pegar um cobertor, envolvendo Claire com ele.
-Está quentinha agora, pequena? perguntei, esfregando os braços dela para aquecê-la. Ela assentiu, os dentes batendo, mas os olhos brilhando.
-Sim... Obrigada, Ethan.
Sentamos perto da fogueira, o calor secando nossas peles, e Matthew veio entregar uma lata de refrigerante para mim, que recusei com um aceno.
- Tô de boa com refri, Matt. Passa pra Claire.
Ele riu, entregando a lata de refrigerante para ela.
Enquanto a noite avançava, a fogueira crepitava, as conversas fluíam, e Claire, aos poucos, parecia mais leve, rindo das conversas idiotas do grupo, e eu fiquei ao lado dela, a mão na dela, sentindo cada pequeno passo que ela dava para fora da escuridão. E ali, sob o céu cinzento, com o som do mar e o calor da fogueira, jurei que nunca ia deixar ela se perder de novo.
Nunca mais.

Entre Amor E MortesOnde histórias criam vida. Descubra agora