Anne's POV

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Não ouvi a resposta dele, mas imaginei que ele devia ter acenado com a cabeça. A simples interação de Sophia com Bruno, por um momento, havia me feito pensar em coisas esquisitas. Eu estava agora no papel da esposa grávida, e bem ou mal, sabia que meu namorado já havia dormido com ela. Com ela e com todas as garotas que encontraria dentro daquela casa. Claro que, na época, eu estava na mesmíssima posição de Sophia, o que não seria tão esquisito de lembrar se Bruno não estivesse ali, a poucos metros de nós duas, tornando aquele momento estranho em muitos níveis diferentes. Aquilo era surreal. E desconfortável. 

– Ninha... O que acontec... Como foi que... - Ela parou, suspirando e tentando organizar os pensamentos, ou pelo menos ordenar as perguntas em uma lista de prioridades - Você está bem? 

– Estou. Desculpa não dar notícias, mas minha vida andou um pouco doida nesse tempo. 

– É... Doida... - Ela começou, esperando alguns segundos até chegar mais perto de mim e falar em um tom mais baixo, como se aquilo fosse algum segredo que Bruno não pudesse saber - Puta merda, Ninha, você está grávida! Isso é insano! 

– Eu sei. - Sorri de forma involuntária, o que fez Sophia soltar um riso abafado também - Eu queria conversar com vocês... Explicar as coisas... Júlia e Angela estão aí? 

– Você deu sorte. Angela estava tentando carregar Júlia pro shopping há alguns minutos atrás. Elas ainda não saíram. 

– Ótimo. Posso entrar? - Perguntei, apontando para a porta que daria para a cozinha da casa. 

– Claro. Vem.

Ela caminhou na frente, abrindo a porta para que eu entrasse. Bruno permanecia me seguindo a cada passo, muito quieto e mudo. Entramos na cozinha grande e escura. Não havia ninguém ali, exceto nós três. Pelo que eu podia notar, a casa estava silenciosa, provavelmente por ser sábado, dia de folga das meninas. Eu não havia planejado aquela visita por isso, mas agora estava extremamente satisfeita por ter dado a sorte de escolher um dia do fim de semana. 

Não que eu não quisesse encontrar com todas as meninas e me despedir de cada uma delas, mas sim porque ter que lidar com poucas delas, de uma forma ou de outra, tornava a situação mais fácil. E, felizmente, as poucas que ali estavam eram exatamente o motivo da minha visita. 

– Vou chamar as duas. Você sabe onde fica tudo, pode se servir do que quiser. 

Sophia saiu da cozinha e me deixou sozinha com Bruno. Encarei-o, tentando por algum milagre entender o que ele estava sentindo. Era difícil. Não só porque ele não falava, mas também porque sua expressão parecia neutra demais. Como se ele estivesse apenas fazendo um enorme esforço para não se deixar imergir naquele ambiente. Achei melhor não lhe dirigir a palavra. Se ele tivesse algo para falar, falaria. 

Puxei uma das cadeiras da grande mesa central e sentei, esperando por Julia e Angela. Bruno se manteve de pé no canto mais escuro da cozinha, com as mãos nos bolsos e o olhar congelado nos azulejos do chão. Ele parecia querer estar presente, mas não ser notado. Quase um minuto depois, as vozes das três começaram a soar mais perto. Olhei para a porta que dava para o resto da casa, esperando que elas surgissem ali. Sophia foi a primeira, sendo literalmente empurrada pelos braços minúsculos de Angela.

Quando ela colocou os olhos em mim, parou abruptamente no mesmo lugar que estava, como se seus pés tivessem sido subitamente pregados ao chão. Isso fez com que Júlia, vindo afobada logo atrás, se chocasse com ela e fizesse com que o princípio de um palavrão se formasse. O que foi interrompido quando ela também bateu os olhos na minha barriga e, imediatamente, levou as mãos à boca.

E então a cena parecia congelada, exceto por Sophia, que continha risinhos secos enquanto olhava para as duas. 

Angela, Júlia, Bruno e eu permanecemos imóveis, talvez todos esperando pelo primeiro que teria coragem de lançar a primeira palavra no silêncio. 

De repente, amorOnde histórias criam vida. Descubra agora