Capítulo Cinco

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Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?


Legião Urbana - Vento no Litoral


Seguimos o caminho inteiro em silêncio.

O filho-da-puta sabia que tinha feito merda.

Só abriu a boca pra dizer que tínhamos — exatamente isso; tínhamos, nós dois — que passar na transportadora.

Bastou encostar o carro no estacionamento para que Ademir abrisse aquela pasta que eu não havia percebido que estava com ele desde que saímos de sua casa.

— Esses caras é foda — começou ele a falar, rindo, se atrapalhando ao ajeitar as folhas sobre o colo. — Eu falei pra eles que podia enviar uma cópia por e-mail. Caramba, é mais prático.

Ele fez uma pausa como se esperasse que eu fosse comentar algo.

— Tudo desconfiado — prosseguiu ao ver que não. — Mesmo eu falando que foi eu mesmo que fez todas as notas, esse porra do Lisboa queria que eu levasse uma cópia impressa. Cara, até hoje, ninguém viu essa merda. Ninguém — ele ergueu uma das cópias pra mim, como uma criança que tenta impressionar o pai com o trabalho de escola. Apertei o volante com mais força. — Já fiz o roteiro até a baixada, ida e volta, também. Eu até pensei em pedir ajuda pro Edinael, mas acho que quanto menos pessoas souberem, melhor. Né não?

Apertei tanto o volante que minha mão estralou. Achei melhor tirar... o sangue praticamente sumiu da palma. Branca que nem farinha.

— Já adiantei um pouco do assunto com o Paraíba — lendo uma das cópias que ele não tinha me mostrado até então e que eu não fazia ideia do que se tratava, ele desatou a falar: — 'cê já sabe, né. O cara é ponta firme. Quase não fez pergunta e só de olhar na cara dele dava pra perceber que ele não ia abrir o bico. Funcionário bom é assim. Mas vou oficializar tudo só hoje. Ele tá aí. Preciso que você venha comigo falar com ele também... só pra ele sentir um peso a mais. Sabe como é...

Um peso a mais, repeti a mim mesmo, suspirando de leve pra não tirar o foco dele.

— Eu imprimi essas aqui, só pra transmitir segurança pro sujeito lá. Vou deixar uma com o Paraíba, que é a que vai se passar como original e vou enviar outra pro pessoal que vai pegar ele lá no Porto de Santos. Se quiser uma, pode ficar com o que sobrar. Eu só preciso que...

Bruscamente, puxei as folhas que ele tinha organizado em suas mãos. Algumas rasgaram, outras simplesmente foram atiradas para os lados.

Ademir me olhou assustado, mas não disse nada.

Apenas ficou ali me olhando; a garganta trabalhando continuamente, eu pude ver pelo seu pomo de adão que subia e descia feito um elevador desgovernado.

Eu tinha segurado tudo o que podia a respeito daquela merda até o momento, mas vê-lo falar e projetar as coisas como se eu fosse um mero assistente a tomar notas dos procedimentos para ajudá-lo depois me fez explodir. Deixei o ar escapar pelos pulmões e comecei a suspirar aos poucos, mas aumentando a força gradualmente.

Ademir ficou ali me olhando, assustado, por uns dois minutos sem falar nem ousar tirar os olhos de mim.

Pra mim, nunca tivemos uma relação desigual desde que começamos como sócios, mas eu sabia que ele nutria um certo temor por mim no que dizia respeito a respostas físicas. Era aquilo que eu via no momento.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora