Capítulo Sessenta e Oito

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Último capítulo da primeira parte.


Eu não sei dizer, exatamente, se eu estava sorrindo, mas eu sentia que sim e simplesmente não conseguia evitar.

Pra ser sincero, eu tinha reparado ela ali, mas eu tava vendo que o Adriano iria falar alguma merda, como ele sempre fazia, então, decidi deixar o jogo seguir. Ele excedeu minhas expectativas.

— Amor, eu...

Resignando-se, deu pra notar que ela tinha engolido em seco, mas tratou de botar um sorriso no rosto pra disfarçar e olhou para mim.

— Tudo bom, Alexandre? Como é que você tá?

— Tô bem sim, obrigado. E você? — eu só podia confiar que meu sorriso não estivesse tão escancarado assim.

— Ótima — ela abriu ainda mais o sorriso. — Os amigos do Adriano estão preparando umas bebidas ali e eles fizeram uma que é bem forte, a sua cara. Acho que você ia gostar — ela ficou de lado, indicando o caminho pra mim.

— Opa, vou lá ver então.

Eu pensei que tinha sido uma deixa para que ela pudesse falar sozinha com ele, mas assim que eu passei por ela, ela se virou, querendo me acompanhar.

— Eu te levo lá.

— Amor, eu... eu preciso, acho que eu preciso conversar com você. Eu vou... — Adriano interrompeu, dando um passo para dentro. — Vamos aqui, pra conversarmos a sós.

— A sós? — ela se fingiu de confusa. — Temos convidados, não podemos sumir de vista assim. Os dois juntos, não. O que de tão importante você tem pra me falar que não pode dizer na frente do seu irmão?

Meio boquiaberto, ele parecia uma criança prestes a abrir o berreiro, desesperado. Tava engraçado.

— Amor, por favor... — ele suplicou.

— Já que você insiste — ela deu um só passo na direção dele e parou, lembrando de algo que falou a mim: — se não for pedir muito, Alexandre, poderia avisar a quem perguntar onde nós fomos que já voltamos?

— Pode deixar.

— Obrigada.

Fui encontrar o Gabriel perto do sujeito com quem Adriano estava falando quando chegamos, mas não estava conversando com ele. Parado, sem graça e sem saber o que fazer.

— Seu irmão tava falando sobre mim, não tava? — foi a primeira coisa que ele me perguntou.

— Isso aí não importa mais. Importa agora é que a mulher dele tem muita coisa pra falar com ele.

Vi nos olhos dele que ficou curioso, mas o Gabriel era educado demais pra me questionar sobre isso.

Nem consegui pegar direito um copo na bancada que os caras estavam preparando as doses, como a Estela tinha falado, pois fui envolvido pelo meu tio de novo.

— Caramba, Alexandre, eu não queria ser chato com isso, mas... — ele foi falando e pelo brilho molhado nos olhos, eu vi que ele já tava mais alto que o normal. — Mas tá foda lá na Via Sul. Não é nem querendo reclamar, mas os três conto que eu pego lá não tão dando conta, grande. E eu sei que a molecada já tá tudo de maior, mas mesmo tu não tendo filho, que nisso aí teu pai não pode falar que tu é sem juízo. O Tiago mesmo aqui, passando perrengue com as duas crianças dele. Mas pode isso, Alexandre? Um sujeito novão como eu com três netos já?

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