Capítulo Oito

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Após ligar o carro e acionar os vidros, o policial se aproximou falando:

— Fazendo o que aqui uma hora dessas, cidadão?

O filho-da-puta sabia exatamente o que estávamos fazendo, eu quis jogar na sua cara, mas me contive. O domingo só tinha me dado dor de cabeça, então resolvi terminar o dia da maneira mais tranquila.

— Tava com a minha namorada aqui, policial — falei relanceando Bruna que estava tão branca quanto a farinha. Aquele pensamento me fez rir.

— Atentado ao pudor, rapaz — me repreendeu como meu pai faria. O policial tinha aquelas rugas nos olhos de quem sempre está sorrindo. Aquilo me trouxe uma boa sensação.

— Desculpa... a gente vai sair...

Foi então que algo chamou a atenção dele, fazendo ele se encurvar pra perto de mim.

— O que é isso na sua barba?

Rapidamente passei a mão em cima da boca e um resto de farinha se afixou nos meus dedos.

Caralho.

— Desce do carro — exclamou ele, irritado. As rugas de riso tinham morrido.

Suspirando, abri a porta e me afastei, parando perto do banquinho do lado de fora do campo.

— Os documentos do carro — outro policial exigiu.

— No quebra sol — respondi, levando minhas mãos as costas.

— E a habilitação?

Entreguei a ele minha carteira com tudo. O policial se afastou rumo a viatura, enquanto o outro abriu as portas traseiras. Bruna encostou ao meu lado, nervosa, mas não abriu a boca. Era melhor assim.

Como eu esperava, não demorou muito e ele achou o pino que eu deixei cair. Pensei também que ele perderia ainda mais tempo tentando revistar o resto do carro, mas ao achar o pino, cessou a revista vindo na minha direção com um sorrisinho safado, o que me esclareceu que tipo de vermes eram aqueles.

Menos mal, pensei comigo.

— A gente tem que conversar — ele falou pra mim, erguendo as sobrancelhas.

— Não quer meu RG? — perguntou Bruna inocentemente.

O policial crispou a testa, olhando pra ela como se fosse uma curiosa que se aproximou do nada.

— Vamo' lá então — falei.

— Documento do carro tá tudo certinho. Habilitação em dia — nos contou o outro PM que estava verificando meus documentos com uma expressão frustrada no rosto. — Nem passagem ele tem.

O da revista me olhou de cima a baixo, sem acreditar.

— Olhou isso aí direito?

— Quer ver? — disse o PM abrindo espaço. — Ele tem cara de tranqueira mesmo, mas esse carro... isso aí é demais pra bandido. A não ser que ele seja do Comando.

Eu ri alto com eles falando como se eu não estivesse ali.

— Você é do Comando? — perguntou o policial da revista.

— Não sei. A polícia é vocês, caralho.

Ainda me medindo de cima a baixo, o policial da revista ficou assentindo lentamente que nem um retardado, como se não soubesse o que dizer. E pra ser sincero, o cuzão realmente não sabia o que dizer. Ele quer que eu diga, então? Que seja...

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora