— É evidente que tem gente daqui vazando as informações pro Kalil — Marlinhos falou, sentado na poltrona, que tinha sido colocada na sala perpendicularmente em relação ao sofá aonde eu estava sentado, olhando diretamente pro Café que observava alguma coisa lá fora através da janela. — Acho que não tem mais o que se cogitar sobre esse assunto. Já é fato.
Café continuou com a atenção fixa na janela, vendo o quê, eu só podia cogitar, visto que aquela era mais uma casa diferente para a qual ele tinha nos chamado.
Ele seguia firme nessa tática de nos encontrar sempre num lugar diferente do anterior e viabilizando os encontros de maneira indireta: dizia para irmos até o ponto a, onde um fulano qualquer nos levaria ao ponto b e depois, por fim, éramos levados ao ponto c. A estratégia podia parecer furada quando se pensava rapidamente nela, pois, como foi projetada pra garantir um certo respaldo pro caso do Kalil tentar emboscá-lo, qualquer um pensaria que, da mesma forma que se o Café estivesse nos encontrando num lugar fixo, bastaria que o pessoal do Kalil seguisse um dos envolvidos através dos pontos a, b e c, e no fim das contas, chegaria até o Café para dar fim nele. Mas o ponto principal do esquema não era fazer com que o Kalil não soubesse aonde o Café estava, mas sim ter o controle do trajeto até lá. Se o Kalil quisesse se arriscar a um ataque direto, sim, era realmente muito fácil chegar até o Café; a questão é que, a partir do momento em que o pessoal do Kalil chegasse ao ponto a, avançariam no mais completo escuro até o ponto c, e como único conhecedor do percurso, Café tinha à sua disposição um cenário adequado pra contra-atacar sem que Kalil soubesse de onde o ataque estaria vindo.
E era por esse motivo que o filho-da-puta seguia intacto até então.
— Na verdade, a gente já esperava isso — Marlinhos prosseguiu. — Já era previsto que, com o tanto de gente que lidamos e falamos no dia a dia, uma informação ou outra acabasse voando por aí até chegar nos ouvidos do Kalil. Tanto que nós mesmos temos a nossa cota de informações do Kalil que nos chega ocasionalmente.
Café não tirava os olhos da porra daquela janela.
— O problema aqui é que tudo o que nos chega do Kalil são coisas... básicas. A informação de um fulano conversando com o Kalil num dia, de uma ligação sem muita importância, de uma troca de olhares que, talvez, significasse alguma coisa entre associados menores dele... enfim, nada de realmente significante. Tanto que durante esse tempo todo, não tivemos acesso nem conseguimos nos adiantar em cima de nenhum esquema importante dele. Nunca estivemos um passo à frente do Kalil — Marlinhos continuou. — Já o contrário... o cara não tem acesso apenas a papo furado da rapaziada da contenção. Ele tá se antevendo aos nossos principais movimentos. Ele tem um ouvido aqui. Ele tem olhos presentes nas nossas reuniões que, em tese, deveriam ser a portas fechadas. E a gente não tem nada parecido pra usar contra ele. O que isso significa? Que o Kalil consegue administrar bem o pessoal dele. Russo, da Caboré, Neno... não vaza nada desses caras e nem vai vazar.
— Certo... — Café entoou, ainda olhando pela janela, a voz suspirada.
— Pra adiantar o bagulho... irmão... acabou essa palhaçada de reunião toda hora — Marlinhos falou. — Pra qualquer merda, você e o Capuava acham que é bom se reunir. Isso é perda de tempo, é risco. Ah, tomou café numa padaria diferente? Bora se juntar pra falar sobre isso. E aí, irmão, qual tipo de café que tem lá? Ah, um bom, colombiano... opa, daora, vou passar lá qualquer dia desses; ah, e ficou sabendo da última? Tamo com um esquema do caralho pra resgatar treze irmãos que tão preso lá em Tremembé. Vai ser depois de amanhã, às duas da madrugada.
E, finalmente, Café o encarou, um pouco incomodado.
Nisso, o filho-da-puta sempre se pareceu com o Josué, pensei comigo. Nunca gostou de um puxão de orelha.
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
