Eu não estou apenas quebrado
Estou além de reparo
Winona Oak - Oxygen
Já tava uma noite meio fria...
Ver o moleque ali, me olhando daquele jeito, me causou um frio que me desceu da espinha até os pés. Quase me desequilibrei ao me levantar.
Ele recuou um passo.
— Amor, isso aqui... — olhei de novo pra mesa. Ainda tinha uma carreira posta, clara como se tivesse luz própria. Não havia uma só lâmpada acesa no andar de baixo, mas a parede que separava a sala do quintal de entrada era toda feita de vidro, o que abriu espaço para que a iluminação que pendia dos postes, acima do muro, pudesse clarear o meu vacilo. — Me perdoa, eu... hoje foi um dia difícil. Não, não, eu não tô falando pra me justificar, eu sei que isso aqui é... me perdoa, eu não vou mais fazer.
— Por favor, não — ele estendeu a mão na minha direção, andando pra trás, como se quisesse se defender de mim. Foi aí que eu reparei que eu estava andando na direção dele. Ele tava com medo. Mas eu estava falando tão tranquilamente, eu estava, não estava? — Fica calmo.
— Mas eu tô calmo, meu amor. Eu só...
— Eu não quero confusão, Alexandre. Desculpa eu ter aparecido assim. Desculpa, eu só acordei do nada e não vi você lá. Eu não quero te deixar irritado, eu não vi nada. Tudo bem? De verdade, eu só quero ir... eu posso sair daqui, não posso? Eu não quero confusão.
— Por que você tá falando assim, meu moleque? — eu tentei me aproximar pra fazer um carinho nele, mas ele recuou com tudo, me olhando como se eu fosse um animal prestes a matá-lo. — Por que você tá falando comigo como se eu fosse um estranho?
— Me desculpa, eu só quero... — recuando mais um pouco, ele tratou de estabelecer uma distância entre nós dois com as mãos. Foi aí que a primeira lágrima escorreu pelo rosto dele e eu me desesperei. — Desculpa, eu vou pra minha casa e vai ficar tudo certo, só fica calmo. Eu vou ficar melhor lá e você, e você fica... você fica calmo, em paz e eu...
— Amor, me perdoa, isso aqui — e apontei pra carreira sobre a mesa de centro. — Eu prometo pra você que paro com isso, eu prometo — e assim que peguei no braço dele, ele estremeceu, como se eu tivesse batido nele. O soltei na hora. — Tudo bem, tudo bem.
— Não, não, não, eu... me desculpa — mano, ou era noia da farinha ou a expressão dele realmente tava daquele jeito, o mais bizarra possível: ele meio que forçou um sorriso, mas seus olhos ficaram molhados e havia um certo desespero por ali. — Eu não quis ser ignorante com você. Me desculpa. Me desculpa mesmo, eu só...
— Você não tem que me pedir desculpas de nada. Eu que tenho...
— Mas me desculpa, eu só quero... eu só quero que você fique calmo, só isso. Vai ficar tudo bem se você...
— Mas eu tô calmo, meu amor. É sério. Eu, eu tô parecendo doidão, acelerado? — eu não queria perguntar aquilo, mas tinha me batido um desespero tão do caralho ver o medo no rosto dele que não tive escolha.
— Não, não. Não tá não, é só que... — ele voltou a se assustar. Decidi recuar uns dois passos. Vai ver a falta de iluminação e eu estar tão perto assim dele estivesse causando essa impressão. Vai ver. — É só que eu acho que é melhor, pra gente... pra mim, pra você; eu vou pra minha casa e você fica mais tranquilo pra... pra você...
— Mas eu não preciso ficar mais tranquilo, amor — como é que eu não precisava, filho-da-puta? Retifiquei: — quer dizer, eu não vou, eu não vou ficar tranquilo com você longe. Minha paz é saber que você tá bem aqui comigo.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
