— Alexandre? — tinha alguém me chamando...
Eu reconhecia e não reconhecia aquela voz.
Sentia como se a minha cabeça estivesse flutuando, com a parte da frente submersa na água.
Acho que eu queria vomitar também.
— Alexandre?! Ai meu Deus do céu, meu Deus do céu! — a voz gritou de novo e aí sim eu percebi que era a minha mãe. Mas não era o grito que ela dava comigo sempre que ia me dar uma bronca ou umas cintadas... eu não sei, mas era tipo um grito de agonia, de desespero. Por que eu sentia meu corpo e, principalmente meus olhos, tão pesados? — O que...?! O que aconteceu aqui, meu Deus?! Meu Deus! Meu Deus!
Eu tava com aquela garrafa que tínhamos pego no Quintino na minha mão e vi que eu tava deitado no chão.
Não, 'pera.
Aquela garrafa era a que o meu pai tinha escondido na parte mais alta da estante, eu acho. Era sim, era sim; pode pá que era.
Minha mãe se abaixou até mim, horrorizada e me sacudiu, gritando:
— O que foi que aconteceu?! Alexandre! Suas mãos! Olha as suas mãos! MEU DEEEEEUS!
Ela conseguiu me botar de pé, mas eu quase não mantive a força nas pernas porque me veio uma dor do caralho na cabeça que me fez querer gritar. Que dor era aquela?
Vinho? Eu pensei, passando a mão na cabeça, deixando que minha mãe me arrastasse pra longe, mas pra longe de quê?
Eu vi que tinha um borrão no chão, todo sujo de... vinho?
Mas a gente nem tinha bebido vinho.
O David e eu tínhamos pegado uma garrafa de vodca, eu acho, e meu pai tinha escondido uma garrafa de uísque e nem era com medo da gente achar, mas sim porque ele vivia dizendo que era cara. Eu ainda não tinha entendido porque era tão cara se era tão ruim quanto a vodca, pinga ou qualquer outra merda que tínhamos bebido antes.
— Mãe, cadê o David? — acho que falei.
Por que esse vinho fedia tanto?
Mano...
Aquilo não era vinho.
Não era.
E aquilo que tava caído não era só um borrão.
E aquilo não era sujeira.
Sangue? David? Sangue em cima do David; sangue saindo do David? Um corte, um machucado, minhas mãos sujas; sujas não, imundas; o sangue tava começando a secar; fazendo casca, sangue em cima; sangue em baixo; um corte aqui; dor na cabeça; minha mãe gritando; meu pai balançando a cabeça; minha mãe gritando de novo; meus irmãos querendo entrar em casa; sangue; bebida; sangue; não era vinho; David no chão; sangue no chão; na roupa, na mão, na estante; na garrafa; sangue; sangue; sangue; sangue; sangue e sangue...
— Caralho, moleque! Nessa idade e já fazendo tudo isso de merda — me dizia o policial que sentava ao lado do outro que dirigia.
Eu queria chorar...
Eu sentia meus olhos ardendo e minha garganta queimando, como se eu tivesse engolido um bolo de meia. Mas eu tinha que aguentar.
Os policiais eram foda. Tavam numa boa, rindo e levando como se aquilo não fosse nada. Então, nem fodendo que eu podia chorar.
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Declínio
Misterio / Suspenso"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
