Capítulo Noventa e Três

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Monitor filho-da-puta dos infernos...

Era o que eu repetia na minha cabeça todos os dias, todas as tardes e todas as noites.

Me liguei depressa, mano, que todo moleque ali tinha sua própria espécie de oração: alguns, rezavam pra Deus, pra que Ele fizesse o tempo passar depressa, outros rezavam para os próprios pais, para que viessem visitá-los, tinha até quem rezasse — e eu vou dizer que devia ser pros japoneses, já que o bagulho vinha de lá — pra que pudesse virar um dos Cavaleiros do Zodíaco e quebrar na porrada os outros filhos-da-puta — entendam como Pulga e seus piolhos — que os atormentavam ali dentro.

Por muito tempo, o que eu podia chamar de oração — pra mim, oração era o que sempre pedíamos, porque não tínhamos condição de fazer por conta própria —, era sim voltada pro desgraçado do Pulga e ainda era, vai, eu tinha que admitir, mas o monitor tava começando a ganhar um patamar mais alto pra mim nas orações.

Porque o filho-da-puta era mil vezes mais forte que o pulga e o que ele queria...

Muito mais, eu preferia levar um sacode diário do Pulga e dos piolhos dele do que o que aquele verme tinha em mente pra mim. Vai se foder, mano, que tipo de maluco era aquele? O maluco já era adulto, eu até tinha visto uma aliança na mão dele, tinha sua liberdade, podia fazer o corre dele por alguma mulher lá fora ou a mulher dele que fosse, já que ele devia ser casado, então, por que vir atrás de mim, mano? Só por maldade?

Vai se foder.

Então, eu ficava com o cu na mão o dia todo.

E não era nem daora usar essa expressão, já que...

Eu me sentia com medo e humilhado o tempo todo.

Porque eu via nos olhos dele a cada vez que trombava com ele pelos corredores ou no pátio, que ele não tinha desistido da ideia. Nem ele, nem aquele outro desgraçado que ele falou que viria também. E era do caralho a sensação de saber que, a qualquer noite, alguém poderia entrar no meu quarto enquanto eu dormia pra me arrastar pra sabe se lá Deus onde, pra fazer isso.

E se ele tivesse chamado outros monitores pra me pegar também?

Eu sentia como se meu coração fosse pifar qualquer dia desses.

Qualquer dia?

Mano, eu já tava naquela porra tinha era tempo.

Se pá, mais de meses.

Sim, eram mais de meses.

Na aula, eu tinha visto que já estávamos em abril.

O Natal e o Ano Novo, que tinham ocorrido há dois mil anos atrás, tinham sido uma merda. Não pudemos receber visitas nem curtir nada, porque em outra Fundação, tinha havido uma rebelião e eles cortaram esses "benefícios"; eles que chamavam de "benefícios", né, irmão? Porque eu tava cada dia mais inclinado pras ideias do Torquato sobre o que os caras do Comando defendiam, porque, mano, nos tratavam feito uns insetos insignificantes do caralho e aquilo também me irritava cada vez mais. Me irritava e me mudava.

Porque eu já não conseguia entender como eu era daquele jeito antes de entrar.

Eu me via como uma pessoa diferente, tá ligado?

Aquele era um mundo diferente.

Não faltava muito pra minha internação chegar ao fim, mas eu já tava há tanto tempo ali dentro — não havia se passado nem um ano, pra falar a verdade — que eu não conseguia imaginar como seria minha vida fora daqueles muros. E será que existia outra vida além daquela? Por mais que eu dissesse a mim mesmo umas mil vezes que sim, minha cabeça, lá no fundo, não conseguia acreditar.

DeclínioOnde histórias criam vida. Descubra agora