O Miguela, mano...
Ultimamente, eu tava vivendo nessa loucura de ter plena consciência que eu era tão filho-da-puta quanto o Josué e o Café — o Robson, o Lucas e a mãe do moleque que não me deixavam mentir —, mas ao mesmo tempo, eu me pegava nessa contrariedade do caralho de me sentir mal quando me encontrava nessas situações; o Miguela ali; algo me dizendo que ele não tinha feito nada de errado, mas ainda assim...
Tá, beleza, eu era uma das últimas pessoas do mundo que poderia questionar alguém por ter ido longe demais, mas sinceramente, dentro de mim, eu nunca gostei disso, mano, de ir até as últimas pra lidar com um problema.
Eu tinha largado de mão a treta com o Lucas por anos e só fiz o que fiz porque percebi logo que não teria outra alternativa. Sobre o Robson, quantas chances eu não dei pra aquele arrombado? Quantas vezes, eu fechei meus olhos em nome da nossa amizade?
— Ah, que porra é essa, Alemão? — Café exclamou, pegando algo no meu olhar. — Vai chiar por causa do Miguela também?
Me senti aéreo, mano, como se meu corpo fosse leve demais pra continuar no chão.
Enfiei minha mão no bolso, peguei a chave do carro e a estendi pro filho do Torquato, sem sequer olhar pra ele.
— Meu carro tá lá fora. É a Jaguar preta — falei. — Espera por mim, mas se você ver que o bagulho aqui vai sair do controle, pode meter o pé.
— Eu não sei dirigir bem ainda não — ele falou, olhando meio assustado pra chave.
— Deve ser o suficiente pro caso do bagulho aqui piorar. Vai, porra.
E ele passou por nós com tudo, indo pelo lado externo da casa.
Café olhou pro lado e bufou, sorrindo.
— Você tá zoando, né, Alemão? Você tá achando mesmo que eu vou mandar os caras grudarem em você pra te matar? Porra...
— Não seria nenhuma surpresa se isso acontecesse — falei, me sentindo cansado. — Olha tudo o que você tá fazendo, truta.
Ele esfregou o nariz, sorrindo, ainda achando graça.
— Eu vou começar a achar que você tá de marcação comigo mesmo, irmão. Porque não faz sentido isso... você tá me peitando e questionando tudo o que eu tenho feito, Alemão, e...
— E você acha que eu não tenho motivo pra isso? — o interpelei. — Eu tava agora pouco tendo que bater de frente com você por conta de insinuações, de suspeitas! Você tava querendo dar fim no filho do teu irmão, porra, só por tá suspeitando de um moleque, caralho! E não é irmão no sentido de gíria não, seu arrombado, é irmão no sentido literal do bagulho, porque fale o que quiser, mas o Torquato era um irmão pra você, seu vacilão! O cara tava lado a lado com você esse tempo todo... cadê essa tua ira e revolta pra cima da morte do cara? Cadê você dando teus corre pra descobrir como é que foi que mataram o parceiro? O caralho. E aí agora você tá fazendo a mesma coisa com o Miguela, jão? Eu te tirei daquele inferno, você tava era junto com ele, porra!
— Tá, Alemão, eu entendi — ele falou apressado, querendo me calar. Acho que por vergonha dos caras da contenção estarem ali ouvindo tudo, enquanto rendiam o Miguela.
— Entendeu porra nenhuma — retruquei. — O quê que tá acontecendo com você, irmão? Que você sempre foi um filho-da-puta desalmado do caralho, isso aí todo mundo tá cansado de saber, mas... apesar disso, apesar dessa frieza, você sempre tentou, pelo menos, ser o mais justo possível — e apontei pro Miguela que, 'cê é louco, parecia tão fora de si que seguiu cabisbaixo, como se tivesse perdido a noção de realidade. — Você não faria isso. O Café que eu conheço não faria isso com um parceiro que correu tanto tempo junto com você como o Miguela. Tão envenenando a tua cabeça, porra...
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Declínio
Mystery / Thriller"Eu queria devorar esse moleque. Me sentia plenamente capaz de passar a noite inteira traçando ele, até meu pau esfolar. Meu peito tava agoniado. Em parte, eu queria respeitar ele, cuidar do moleque porque ele merecia demais essa atenção. E, em par...
